100 dias para o carnaval: cinco razões para ficar de olho na Sapucaí em 2022

Antes de qualquer coisa, talvez o leitor e a leitora estejam se perguntando (ou me perguntando): vai haver carnaval na Sapucaí ou em qualquer outro lugar deste Brasilzão-de-Meu-Deus em 2022? Bem, não posso garantir. O amanhã pode nem chegar. Mas, saibam, as escolas de samba do Rio de Janeiro – e creio que as das outras localidades também – estão trabalhando para isso e, neste momento, a pandemia dá claros sinais de arrefecimento com o avanço da vacinação. Mantendo o panorama atual e levando em consideração que os preparativos estão a todo vapor, escrevo acreditando que sim, as escolas vão botar seus blocos na rua – com perdão do trocadilho.

Cabe lembrar sempre que quando o Lado B fala de carnaval, fala da festividade, da alegria, da cultura, da resistência, mas também do trabalho de milhares de homens e mulheres e de um braço econômico importante nas cidades que fazem da “Festa da Carne” um pilar considerável do seu orçamento.

Muitas coisas já voltaram às rotinas. Então, é necessário que tenha carnaval de alguma forma para que pessoas não fiquem sem trabalho, para que a economia da festa gire, para que a fome, o desalento e o desespero se suavizem ao menos temporariamente.

É fato que a pandemia está aí, e a gente não pode perder de vista: morreram milhares de brasileiros e brasileiras por irresponsabilidade do Regime Bolsonaro e de algumas das nossas lideranças políticas, mesmo as não-bolsonaristas. E ainda morre mais gente do que deveria, em um cenário que muita gente acostumou a chamar de “reta final da pandemia”.

Jamais esqueçamos que não precisava ser assim. Mas, por nós que ficamos e pela memória dos nossos que se foram, a gente vai precisar continuar a vida. E é todo esse cruel contexto da pandemia que abre os cinco motivos para os quais o leitor e a leitora do Lado B devem estar atentos ao que ocorrerá na Sapucaí, se assim o futuro permitir, daqui a 100 dias.

1 – Pós-pandemia ou ‘Novo Normal’?

Reitero, para todos os casos, que é importante relembrar que neste novembro de 2021 em que escrevo, ainda estamos na pandemia da Covid-19. E que, para muita gente, a luz no fim do túnel já apareceu, enquanto que para outros tantos, o “Novo Normal” já vigora como o velho normal. Em que contexto o carnaval de 2022 acontecerá, ainda não sabemos. Mas o fato é que, acontecendo de qualquer maneira, o hiato de um ano sem desfile se encerra.

O ano de 2021 foi o primeiro, desde que começaram as disputas em 1932, em que não se ouviu nenhum surdo, agogô ou tamborim pelas ruas do Rio de Janeiro. Em 1938, uma forte chuva impediu que a comissão julgadora chegasse ao local do desfiles. Não houve julgamento, nem resultado. Ainda assim, as escolas botaram seus carnavais na rua e desfilaram. Em 2021, nem isso. No ano em que a Covid-19 e o Regime Bolsonaro dizimaram parte da população brasileira, não teve como ter nem um pinguinho de carnaval, dentro ou fora do Sambódromo.

Se as agremiações colocarem na Sapucaí seus carros, suas baterias, suas fantasias e seus integrantes, mesmo que em números reduzidos, já será, por si só, um fato histórico e emocionante.

2 – Carnaval sem o Bispo

O Rio de Janeiro elegeu um bispo da Igreja Universal prefeito em 2016. Essa lembrança sempre me dá nos nervos, mas é real. Um homem que absolutamente nada tem a ver com a cidade, que odeia tudo que o Rio representa, nossas festas, nossa resistência negra enquanto capital recebedora de homens e mulheres escravizados e nossos signos populares de origens africanas e indígenas. Este homem comandava um município cuja chave simbólica é dada a um cara vestido de Rei Momo no carnaval. Olhem o drama que vivemos: saía temporariamente e simbolicamente o bispo sobrinho de Edir Macedo para entrar um cara vestido de rei e iniciar a galhofa menos regulamentada que a nossa sociedade tem notícia.

Não podia dar certo.

A energia negativa de Marcelo Crivella contaminava até o carnaval, com todas as suas preces e fundamentos. Em 2017, no primeiro ano de mandato de Crivella, uma série de acidentes, inclusive com vítimas fatais, atingiu os desfiles. Culpa do Bispo? Não. Pelo contrário: muito pouco ficou esclarecido de culpados e responsáveis. Mas, para quem é folião ou foliã, era impossível não sentir um fantasma cadavérico pairando sobre a Sapucaí – e sobre as ruas dos Rio em geral – durante seu mandato.

O Rio se enfeiou, encaretou, acinzentou. Mas, enfim, escolheu o menos pior em 2020. E em 2022, a gente vai curtir a festa em uma cidade comandada por um playboy que ao menos gosta (ou finge gostar muito bem) da nossa principal festa. Não é o ideal, mas já melhorou.

3 – Enredos prometem louvar a resistência e culto à negritude

Em matéria de enredos, olha, a volta à Sapucaí não poderia ser melhor. Para se ter uma ideia, só Zumbi, o líder dos Palmares, é citado em quatro sambas. Mas de música a gente fala no próximo tópico. Voltemos aos temas dos carnavais. E na ordem dos desfiles: no domingo, a Imperatriz Leopoldinense abre a folia revisitando o seu passado e a história das escolas. Em sua volta ao Grupo Especial, a agremiação de Ramos vai falar de Arlindo Rodrigues, carnavalesco morto em 1987 que colocou seu nome nos anais da Imperatriz e de outras coirmãs do Rio.

Logo depois, a Mangueira junta seu passado de glórias e a força da negritude com um enredo homenageando, de uma vez só, Cartola, Jamelão e Delegado. Já o Salgueiro quer falar dos quilombos cariocas e retratará movimentos e locais importantes de resistência cultural preta no Rio – incluindo aí, claro, a própria escola. A São Clemente foge da onda cultural preta e vai reverenciar o comediante Paulo Gustavo. O desfile promete emoção – até demais – para louvar o ator, cuja morte é uma das mais simbólicas da matança que a Covid-19 e o Regime Bolsonaro realizaram no Brasil.

A Viradouro também olha para trás e promete emocionar, mas sob outro aspecto: vai falar da relação dos foliões com o carnaval contando a história da folia de 1919, que também se deu logo depois de uma pandemia. A Beija-Flor fecha o domingo voltando para o culto à negritude: a escola de Nilópolis quer “empretecer o pensamento” e enaltecer as glórias e as histórias dos negros e da luta contra o racismo.

Comissão de frente da Paraíso do Tuiuti em 2018. Escola volta ao chamado “enredo afro” em 2022 (Paulo Portilho/Jornal Grande Bahia)

O segundo dia de desfiles é aberto pela Paraíso do Tuiuti. A escola, que ganhou notoriedade além-carnaval em 2018, quando denunciou a falácia da Abolição e terminou criticando aa escravidão atual das reformas trabalhistas, também desenvolve enredo afro. Resta a curiosidade pra ver Paulo Barros falando sobre a luta, a sabedoria e a resistência negra…

A Portela vem em seguida mantendo o movimento cultural de louvar a negritude tendo como fio condutor o baobá, a árvore gigantesca e milenar que inicia e dá sentido à vida na mitologia africana. Minha Mocidade Independente segue na toada e entra na Sapucaí pra louvar seu orixá-padroeiro: Oxóssi. A Tijuca também aposta na mitologia e no passado desta terra, mas por povo formador: o indígena. A escola do carnavalesco Jack Vasconcelos contará a linda história do guaraná a partir da lenda dos povos originários Sateré-Mawé.

A Grande Rio repete 2020 e vem no gingado do Candomblé exaltando Exu, entidade que abre os caminhos do povo de santo. E quem fecha os desfiles é a Vila Isabel, homenageando também uma entidade, mas essa viva e sem poderes divinais comprovados (ao menos por enquanto): Martinho da Vila.

Tá bom de história ou quer mais?

4 – Safra tem sambas bons, poéticos e fortes

Esse é um assunto mais técnico e que, por isso mesmo, sempre dá mais polêmica, mais discussão. Embora não seja versado no tema, me atrevo sempre a comentar porque sambas de enredo, afinal, são elementos vivos que devem, além de preencher todos os requisitos científicos e conceituais, tocar corações e mentes. Este é o papel da música.

E posso não entender de samba, nem de música, mas do que me toca, do que me comove, do que me arrepia, eu entendo bem. E tem alguns hinos das agremiações para 2022 que mexem muito comigo.

Destaco aqui o samba da Grande Rio. Para mim, o melhor. Quase uma colagem de “pontos” (cantigas cantadas em cultos afros), o samba de Gustavo Clarão, Arlindinho Cruz, Jr. Fragga, Cláudio Mattos, Thiago Meiners e Igor Leal faz arrepiar até onde não tenho cabelo. E, vejam bem: embora tenha afinidades com as religiões de matriz africana por ligações afetivas através da minha avó materna (uma portuguesa “do babado”) e da minha mãe, que já rodou suas roupas por aí, eu jamais entrei num centro de Candomblé, Umbanda, Ifá, ou culto que o valha.

Claro, há a ligação da ancestralidade, o corpo negro muita vezes sente o que nem acredita. Não tenho religião, caro(a) leitor(a). Mas nos primeiros acordes, ao ouvir a voz de Evandro Malandro e a bateria de Mestre Fafá, o bagulho fica doido. Mesmo quem é distante dos cultos afros, mas curte os sambas e pagodes (herdeiros diretos, afinal), pode reconhecer algumas das expressões. Cai dentro que é sambaço.

Bem, as explicações para o samba da Mocidade estar nesta lista são quase as mesmas da Grande Rio. Mas com um “agravante”: é a escola do meu coração. A bateria Não Existe Mais Quente, de Mestre Dudu, toca para Oxóssi – isto é, há um ritual dentro dos preceitos do conjunto de percussão da escola que obedece as características do orixá, padroeiro da agremiação. E é por isso que o samba exalta vários dos nomes da bateria mais famosa do carnaval. E é também por isso que o samba de Carlinhos Brown (sim, ele mesmo), Diego Nicolau, Richard Valença, Orlando Ambrosio, Gigi da Estiva, Nattan Lopes, JJ Santos e Cabeça do Ajax também está na lista daqueles que me fazem arrepiar (sem clubismo, mas talvez com também).

Meu terceiro samba na lista dos preferidos é o da Beija-Flor. Forte, a cara da escola famosa por seu “chão” – ou seja, sua comunidade que desfila em prol unicamente da harmonia e da evolução da agremiação na avenida – o sambaço de J. Velloso, Léo do Piso, Beto Nega, Júlio Assis, Manolo e Diego Rosa tem trechos extremamente fortes, como “Nada menos que respeito, não me venha sufocar, quantas dores, quantas vidas nós teremos que pagar? Cada corpo, um orixá; cada pele, um atabaque: a arte negra em contra-ataque” e ainda “Quem é sempre revistado é refém da acusação, o racismo mascarado pela falsa abolição. Por um novo nascimento, um levante, um compromisso, retirando o pensamento da entrada de serviço”. Lindo de ler, né?

Na voz do gênio Neguinho da Beija-Flor e sob as batutas dos Mestres Rodney e Plínio, ouvi-lo é melhor ainda.

Há outros bons destaques, sem dúvidas. A Vila irá transformar a avenida em pagode e em samba de roda animadíssimos para exaltar seu griô e um dos maiores nomes da música brasileira enquanto a Tijuca contará de maneira linda e poética, quase como uma ciranda, a lenda do guaraná. Portela e Salgueiro levarão para Sapucaí refrões para cima, animados e que prometem embalar o público. Já a Viradouro inovou e entrará na avenida cantando um samba que é uma carta. Dividiu os fãs do carnaval, causou certo estranhamento, mas que criou uma expectativa, criou.

5 – Última valsa entre Leandro Vieira e Mangueira?

Não dá para cravar, mas é possível que 2022 seja o último ano da parceria entre o carnavalesco mais inventivo de sua geração e a maior escola de samba do planeta. O casamento é, até aqui, muito bem sucedido. Ao chegar da Caprichosos, escola que estava no acesso, em 2016, Leandro Vieira já deu de cara um título para a Mangueira, naquele desfile em homenagem a Bethânia. Depois, um 4º e um 5º lugares. Foi campeão de novo, em 2019, com História Para Ninar Gente Grande, um carnaval que entrou para a história. Em 2020, na sua pior colocação, um 6º lugar, que garantiu voltar ao sábado das campeãs.

O casamento não é só bom em resultado, com dois títulos em cinco carnavais, voltando no sábado nos outros três. Para além disso, Leandro deu uma cara de altíssimo gabarito à escola, que andava buscando uma identidade há muito tempo. Fantasias, alegorias e enredos que marcaram época. E tudo isso com tão pouca idade.

Acontece que, segundo consta, a Mangueira passa por dificuldades financeiras, que é, aliás, uma das marcas da escolas, que se gaba de ser um das poucas sem patrono-bicheiro. Manter o carnavalesco mais cobiçado do momento tem sido difícil a cada ano que passa, não só em termos de salário para Leandro, mas também no sentido de viabilizar um bom carnaval, com um orçamento que permita o artista ir ao máximo de sua criatividade e talento.

Ou seja, não dá para se surpreender – ao contrário, é até de se esperar – que Leandro Vieira deixe a Mangueira após o carnaval de 2022. Portanto, estejam preparados para o que pode ser uma última valsa que promete ser tão boa quanto as outras cinco.

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