Como o documentário ‘Doutor Castor’ explica e confunde o Rio

Antes de mais nada: se você é um assinante do GloboPlay, nem precisa ler agora esse texto. Deixa salvo e vá correndo assistir “Doutor Castor”, documentário dividido em quatro partes dirigido por Marco Antônio Araújo e escrito por Rodrigo Araújo que conta a história do fora da lei mais querido do Rio de Janeiro e talvez do Brasil: o bicheiro Castor de Andrade. Se não for assinante e manjar da pirataria, a dica também vale.

O Grupo Globo não financiou esse post, podem ficar tranquilos. Mas é que há uma dezena de motivos para você, caro leitor ou leitora, correr para assistir a série que conta como o Capo Di Tutti Capi seduziu e ainda seduz a sociedade carioca. Mas, neste texto, vou focar em apenas um: a ascensão, o sucesso e até o fracasso no fim da vida de Castor ajudam a explicar um pouco e confundir mais ainda o Rio de Janeiro. Mais especificamente, o Rio de Janeiro do Túnel Rebouças para trás.

Sim, porque esse tipo de fascínio à malandragem se explica no contexto de uma cidade partida, desigual, que até convive junto, mas cada um sabe seu lugar, e este lugar é quase sempre imutável. É onde falta estado que sobra criminalidade, como sabemos. E é onde sobra criminalidade que mafiosos podem colocar seu bloco na rua tranquilamente. Ou melhor, sua escola de samba e seu time de futebol na avenida e no estádio.

Contém spoiler abaixo

Logo de cara, se você viu “Narcos”, a série da Netflix que conta a história de Pablo Escobar, vai perceber semelhanças: a abertura do documentário tem a mesmíssima pegada. E não é por acaso. Embora tenha morrido jurando jamais ter relação com o tráfico de drogas, Castor de Andrade pode ser comparado ao narcotraficante colombiano, sim. A associação seria óbvia até naquele 1985, o momento mágico do bicheiro no Bangu e na Mocidade e mesmo ano da tomada do Palácio da Justiça na Colômbia, episódio ligado ao maior traficante de drogas da América Latina, então um chefe criminoso já poderoso.

Castor de Andrade desafiava a Justiça a tal ponto de, para fugir, se disfarçou de…Castor de Andrade. (Reprodução)

Entretanto, os velhos bicheiros rechaçavam qualquer ligação com as drogas. Porque sim, os bicheiro cariocas eram, e ainda são, moralistas. Explica o Rio? Ô se explica…

A outra associação comentada no documentário por quem estudou e lidou com Castor e seus sócios é com a máfia siciliana. Bastante óbvia também: a formatação do grupo de bicheiros em famílias e territórios, o jeito bonachão e afável do líder e até o moralismo antidrogas são alguns dos elementos que fazem de Doutor Castor um “Poderoso Chefão”.

Mas o molho da máfia carioca com dezenas de mortes nas costas e uma disputa violenta por território, que foi e ainda vai muito além da mera gestão de um joguinho de azar, não é o pomodoro italiano. Também não tem tempero colombiano. Afinal, o carnaval e o futebol são um pano de fundo de luxo fundamentais para a criação do personagem Castor de Andrade, um homem polido e estudado que herdou a banca do jogo do bicho, criou um império, dividiu a cidade e tinha as autoridades no bolso, além de uma boa relação com a alta sociedade. Poderia ser um mafioso como qualquer outro no mundo. Mas Castor pretendia conquistar corações do povo do seu lugar de uma maneira bem brasileira. Bem carioca. Bem suburbana.

É neste momento em que aparece o Bangu Atlético Clube, onde o pai de Castor foi presidente, e a Mocidade Independente de Padre Miguel. Vizinhas no território comandado pelos Andrades até hoje – embora atualmente dividam com milicianos e traficantes – as instituições eram o verniz que Castor precisava para circular e formar um exército de fãs dispostos a defendê-lo e exaltá-lo. Com isso, fazia e ainda faz todo mundo pensar:

  • Castor é um bicheiro ou é um cartola de um clube tradicional, que disputa a primeira divisão nacional e formou um grande time?
  • Castor é um mafioso ou é o responsável por fazer da Mocidade uma das grandes escolas de samba do Rio de Janeiro?
  • O documentário mostra um Castor que amava seu lugar e era apaixonado pela Mocidade e pelo Bangu. Mas era de verdade?

Essas questões ficam no ar para quem não viveu o período ou não conheceu Castor e todo aquele cenário surrealista. Porque se por um lado há uma pá de jogadores, sambistas e torcedores prontos para ver no bicheiro um paizão, uma figura engraçada e gente boa, folclórica e fiador de alegrias, por outro lado existem também jornalistas e autoridades que foram a fundo na máfia e descobriram um sanguinário mafioso. O documentário deixa no ar de qual Castor vamos falar logo de cara: o bandido ou o provedor da comunidade? O criminoso ou o cartola? O amigo da Rede Globo ou o inimigo da lei?

Afinal, pode um sanguinário mafioso amar alguma coisa? Pode uma figura tão amável com sua comunidade ser um sanguinário mafioso?

As aparições públicas de Castor de Andrade eram comuns. Na entrevista ao Jô, ele diz que não atua mais no bicho, para gargalhada geral. (Reprodução/YouTube)

Bem, no Rio de Janeiro do século passado, pode. E existiu. Castor não foi único. Outros tentaram seguir seu estilo, seu carisma, sua forma de controlar seus negócios criminosos. Mas nenhum conseguiu juntar tudo e teve tanto poder. Nenhum foi tão bem sucedido como o bicheiro do Bangu e da Mocidade.

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Cada espectador tem direito a ter sua resposta após ver “Doutor Castor”. Mas só do Túnel Rebouças para trás é que a resposta já está dada. Afinal, esse é um dilema parecido com o dos moradores do Rio de Janeiro real, aquele fora dos cartões-postais: O Rio é uma merda, mas é bom ou o Rio é bom, mas é uma merda?

Bônus: mais alguns motivos para assistir o documentário

As imagens de arquivo
Tanto tempo cobrindo futebol e carnaval tem um valor inestimável: as imagens mostradas em “Doutor Castor”, realizadas ou obtidas pela TV Globo, são simplesmente sensacionais. Algumas raras, talvez nunca vistas. Tem o vestiário do Bangu, tem a concentração do time, tem a quadra da Mocidade, o Sambódromo em seus primeiros momentos, o Maracanã e muito mais. É impossível não se emocionar com algumas passagens. São horas de teletransporte para os anos 70, 80 e 90.

Depoimentos genuínos
De Michel Asseff, famoso advogado e amigo do bicheiro, até Denise Frossard, a primeira juíza-heroína do Brasil, passando por diversos jornalistas que cobriam o Rio, o futebol e o carnaval e jogadores que conviveram com Castor, o documentário mostra relatos importantes. Alguns claramente, para dizer o mínimo, exagerados (ainda sim, genuínos) sobre Castor e tudo que envolve o período.

Detalhes de um tempo
Não só as imagens e os relatos são valiosos em “Doutor Castor”. Algumas percepções são impossíveis de não serem notadas, como a quantidade de gente sem camisa nas filmagens feitas na quentíssima Bangu. Um show à parte ver o bairro, famoso pelo seu calor, tomado de homens de peito de fora e seus shortinhos próprios da época. Também o pantone nas quadras de escola de samba e estádio, lotados de pretos e pretas que deixavam claro como o carnaval e o futebol têm o caráter popular que deveriam ter até hoje. O documentário serve para atentarmos também a debates que não evoluíram e até retrocederam, que veem à tona quando assistimos um estádio cheio para ver um jogo de futebol feminino poucos anos depois da modalidade ser liberada. Também é legal olhar para um futebol sem a epidemia de “Atletas de Cristo” e de media training, com alguns dos boleiros falando livremente sobre qualquer coisa ainda no vestiário. E, claro, a própria forma como um bicheiro é mostrado na TV também é retrato de um tempo.

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