El Efecto lança novo álbum e mantém veia crítica ao capitalismo

“Para incendiar injustiças e acender contradições, o El Efecto transformou música em combustível para uma labareda”. É assim, quente e incendiária, que a banda de rock El Efecto apresenta o seu quinto álbum em estúdio, “Memórias do Fogo”. Um dos principais nomes da cena musical independente, o grupo carioca, que destila letras críticas ao sistema em um rock progressivo misturado com elementos brasileiros, marcou presença no podcast do Lado B do Rio #51.

No Estúdio Majorem estiveram o líder e vocalista do grupo, Tomás Rosati, e o novo baixista, Pedro Lima. De cara nova, o El Efecto ainda conta com Cristine Ariel, Tomás Tróia, Gustavo Loureiro, Bruno Danton e Eduardo Baker.

No papo com os panelistas, os integrantes da banda falaram sobre a famosa veia crítica de viés progressista que tornou o El Efecto referência no cenário alternativo musical, principalmente no Rio de Janeiro. “A música é a forma de arte que mais comunica politicamente com a população brasileira. E o El Efecto quer se inserir nessa longa história do poder de crítica que a canção tem”, diz Pedro Lima, baixista recém-chegado ao grupo, mas que já acompanhava a trajetória da banda. “A gente tem que forjar novas armas e essas armas passam pela canção”, acredita o músico.

O forte conteúdo crítico das letras, somado ao formato das canções – muito mais longas que o padrão –, e a mistura de estilos deixa o grupo carioca “sem um nicho de mercado”, admite o vocalista Tomás Rosati. Mas essa dificuldade é superada com o retorno positivo dos fãs da banda. “Uma das coisas mais significativas que aconteceu foi o momento em que a gente começou a sentir pessoas engajadas em lutas e movimentos sociais darem retorno. A música do El Efecto fazia sentido e estimulava a participação, seja em que luta fosse. A gente pertence ao campo amplo da esquerda, com suas contradições e disputas de ideias, e tentamos organizar o sentimento de indignação. Esse é o barato da música: o potencial de sensibilizar temas que estão aí”, discursa o vocalista, completado por Lima: “Somos o Lado B do Rio da música!”, brinca, ao risos, fazendo referência ao podcast.

Rosati lembra que o jeito ácido de levantar questões sociais vem desde o começo da banda, em 2002. Mas afirma que o momento instável do Brasil após as “Jornadas de Junho de 2013” é uma “onda que deve ser surfada”: “A proposta da banda é sempre a mesma, mas após 2013, o nível de adesão é cresceu. É bom entrar na moda política, vamos ocupar esse espaço e partir pra guerra. Institucionalmente, está formado um quadro assustador. Mas é inegável a queda das máscaras. E isso tem o componente do sucesso de várias lutas que botaram a cara. A sistematização do discurso fascista vem como resposta aos avanços, e isso é importante. É a batalha, o jogo é esse, é essa a hora de se colocar”, diz o vocalista.

Banda El Efecto participa do Lado B do Rio
Tomás Rosati e Pedro Lima entre os panelistas no Estúdio Majorem

Lima endossa: “A gente vive um momento de intimidação. E o disco novo não se deixa intimidar, bota a cara a tapa, como o El Efecto sempre fez. Existe esse oportunismo de surfar na onda da crítica, mas a gente está nessa desde 2002. Os oportunistas vem e vão. Deixa eles passarem”, afirma o baixista, que traça uma preocupante análise conjuntural da política no país: “A sociedade defende abertamente valores, programas e candidatos fascistas. A mídia hegemônica tenta construir um centro que envolve políticos da Opus Dei! É um terreno muito movediço. Quando a Opus Dei é o centro…” preocupa-se.

Uma das músicas da banda que alcançou a maior repercussão, “O Encontro de Lampião com Eike Batista”, presente no álbum “Pedras e Sonhos” (2012), narra um hipotético encontro do cangaceiro com o agora ex-bilionário, em uma canção de rock pesado desenvolvida como literatura de cordel, em uma mistura que é a cara do El Efecto. Na música, Eike vence uma licitação do governo para gerir um terreno à beira do Rio São Francisco, mas encontra resistência de Lampião e seu bando.

Com o especulador ex-bilionário já condenado, quem será o próximo vilão das músicas do El Efecto? “Temos vários vilões possíveis, inclusive com o sobrenome Batista”, lembra Lima. “Lampião também se foi, mas ficam as alegorias”, se diverte Rosati.

O Lado B do Rio #51 com o El Efecto foi ao ar no dia 2 de março e, além da entrevista com os músicos, debateu a “herança maldita” da Ditadura Militar de 1964, vista em praticamente todos os setores da sociedade e que deságua no aplauso de boa parte da população às ações de militarização nas favelas do Rio de Janeiro. O programa também separou uns minutinhos para um escracho generalizado no apresentador global que não entende nem de esporte, nem de política. Clique aqui e ouça. Já o álbum “Memórias do Fogo” está no site da banda e você pode conferir clicando aqui.

Cronista do cotidiano, comentarista do dia a dia, palpiteiro da rotina, opinólogo profissional, sommelier da porra toda e deblaterador.

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