Em quatro anos, Roda Viva teve apenas 6% de convidados negros

Apesar de longe do prestígio dos áureos tempos, o programa Roda Viva, exibido toda segunda-feira pela TV Cultura, chega aos 34 anos mostrando ainda alguma moral entre os entusiastas do jornalismo empresarial. Tamanho conceito, adquirido pela trajetória iniciada em 29 de setembro de 1986, se mostra cada dia mais despropositado. E uma pesquisa demonstra que o programa, além de levar surra no Ibope, também anda perdendo de goleada no quesito diversidade.

Levantamento do perfil de entrevistados do programa feito pelo Coletivo Lójúkojú mostra que, desde 2016, 92,21% dos convidados e convidadas do formato tradicional do Roda Viva eram brancos. Ou, 189 de 205 homens e mulheres que sentaram no centro da roda de conversas. Foram apenas 13 negros e negras, ou pouco mais de 6%. Dois amarelos e um indígena completam a estatística que deixa nítida a falta de pluralidade na mídia hegemônica brasileira.

O estudo, desenvolvido por Tainá Medeiros e Douglas de Nóbrega, examinou os perfis dos participantes de 246 programas exibidos entre 11/01/2016 até 22/06/2020, disponíveis no repositório do canal no YouTube do programa. Eles foram divididos em dois formatos: 205 episódios do modelo convencional e 41 em forma de debate temático, com a atuação de mais de um participante.

Leia também:
Curta mostra remoções de Paes para o Parque Madureira
No Rio de Janeiro, descer uma ladeira significa viver 23 anos a mais
O Lado B e a esquerda

A situação não é diferente neste outro formato. Dentre os 185 que foram aos 41 programas neste modelo, 172 eram brancos ou brancas e apenas 12 eram negros e negras, além de um amarelo. Nenhum indígena foi convidado para este formato do Roda Viva desde 2016.

Machismo? Tem também…

A completa falta de diversidade do Roda Viva não se apresenta só como racismo. O machismo do programa, agora comandado por uma mulher, também está em alta. Entre os 205 entrevistados do formato tradicional, só 21, ou 10% do total, eram mulheres. Já no formato de debate, o cenário melhora, mas muito pouco: 34 de 185 convidados eram mulheres (18,37%).

Para completar, o estudo do Coletivo Lójúkojú também analisou se alguma pessoa com deficiência foi chamada para ser entrevistada pelo programa da TV Cultura. Dentre os 205 convidados do formato tradicional, apenas três – ou 1,5% – possuíam alguma deficiência. Já dentre os convidados do formato de debate, nenhum era PCD.

“Nos últimos anos, o discurso da diversidade tem invadido os conteúdos produzidos pela mídia brasileira. Apesar de repetidamente reconhecerem a necessidade de representatividade e pluralidade, facilmente podemos constatar que o discurso não virou prática”, afirmam os pesquisadores.

O Coletivo Lójúkojú

LójúKojú é um coletivo que surgiu movido pelo propósito da pesquisa, organização e disseminação de dados sobre as desigualdades estruturais no Brasil. O termo é uma palavra em yorubá que significa “cara a cara, abertamente”. Desta forma, de maneira aberta, que o coletivo pretende encarar e expor as consequências das opressões no país.

Todos os dados e informações analisadas pelo Coletivo Lójúkojú serão disponibilizadas em planilhas de maneira ampla e sem restrições a quem se interessar em fazer novos estudos e/ou divulgá-las. Contato: [email protected] ou pelo Instagram @lojukoju.

Ao contrário do que o Roda Viva e a mídia hegemônica costumam fazer com negros, mulheres e comunistas, o Lado B do Rio disponibiliza este espaço para que o programa e a emissora possam comentar a pesquisa.

A partir de R$ 2 mensais, você colabora com a produção de mais conteúdo nas plataformas do Lado B do Rio. Acesse Padrim ou PicPay e conheça as metas e benefícios.

4 comentários em “Em quatro anos, Roda Viva teve apenas 6% de convidados negros

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pin It on Pinterest