Jack Vasconcelos sobre Elza Soares: ‘Uma ocupação, não pede licença’

É inegável que Jack Vasconcelos já tem seu nome cravado na história do Carnaval do Rio de Janeiro. E não é por menos: o jovem carnavalesco pode ser considerado o precursor de uma nova fase dos desfiles na Sapucaí. Afinal, foi este carioca suburbano de 42 anos que assinou “Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?“, uma pancada crítica em forma de desfile que a Paraíso do Tuiuti levou à avenida em 2018, onde a narrativa do fim da escravidão – de Princesa Isabel a Michel Temer – foi detonada.

Jack foi o convidado do podcast Lado B do Rio #102, que foi ao ar em maio. No estúdio, contou um pouco de sua história que começa em Madureira e passa pela Piedade.

Jack entre os panelistas. Carnavalesco falou sobre o momento atual do carnaval de enredos críticos

O carnavalesco, filho de livreiros, costumava circular em papelaria e livrarias como se fosse um playground. Não podia dar em outra coisa: hoje, carrega consigo um viés crítico que só os grandes artistas são capazes de exprimir.

Formado pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) (“As balbúrdias que participei foram custeadas com meu próprio dinheiro, não com dinheiro público”), o agora carnavalesco da Mocidade Independente é consciente no que diz respeito ao seu papel na sociedade brasileira enquanto artista:

Tomei como missão retribuir tudo que a sociedade investiu na gente. A universidade não é de graça, é paga pela sociedade. As pessoas esperam que a gente retribua“.

Veja aqui alguns dos melhores momentos do programa:

Momento atual dos desfiles

“O carnaval passa por fases. Hoje, eu compreendo a importância do discurso. A Tuiuti de 2018 foi um marco disso. As pessoas estão dando importância para o que um enredo e um samba-enredo estão falando de fato. A era do “enredo de CEP” caiu em desuso.

Tenho colegas que gostariam de fazer determinado enredo ou abordagem, mas não tem espaço na agremiação para poder realizar esse carnaval.

Escola de samba reflete o que está acontecendo na sociedade. Ela sente o que tá rolando, o interesse das pessoas ou não. Como de um tempo pra cá, reacendeu uma chama de interesse pelo que se faz – e não se faz – no país, principalmente no jovem, é natural que as escolas de samba sintam isso e deem liberdade ao carnavalesco para trabalhar

Um dia de desfile mostra tudo que está rolando na sociedade: uma escola com discurso inflamado, uma que “vai pro pau”, aquela da “novela das 8″, outra que faz algo mais gospel, e por aí vai. É um recorte da sociedade brasileira”.

Sobre o desfile da Tuiuti em 2018

“A portaria deve ter aplaudido e a cobertura deve ter vaiado, né?”

“A gente se deixa levar por um discurso de esvaziamento da importância da escola de samba, algo que vem sendo feito sistematicamente, há muito tempo, não só a prefeitura atual. As pessoas se desinteressaram pelo que as escolas estavam fazendo. Nesse momento, todo mundo voltou a olhar pra gente. O desfile foi pensado para obter resultado, pontuar, apenas. Desenvolvi da maneira que achava mais correta, dentro da minha linha de pesquisa. Não era pra “lacrar”. Pensei em um desfile humano, não tecnológico. Por isso que tudo aconteceu, teve essa repercussão toda. Não me passou pela cabeça que fosse ganhar o mundo”.

O papel de um artista

“Na universidade, eu não queria ser o artista incompreendido, o cara chato, que “ninguém entende” ele. Quando fui fazer escola de samba, eu tinha o pavor de ser a “escola do xixi”, do cochilo. Eu não sei se esse movimento vai ser longo. Ainda vem muita coisa por aí, teremos alguns anos de enredos que queiram botar dedos em feridas que ainda não foram tocadas. Temos muitas, o Brasil é um corpo muito mal-tratado.

Um dos prazeres que eu tenho no meu ofício é colocar a minha arte a serviço da instituição, e não usar a instituição ao meu favor ou pra minha arte, pra aparecer. Isso não me deixa encostar, criar uma fórmula que pode ficar chata”.

LEIA A SINOPSE DO ENREDO DA MOCIDADE SOBRE ELZA

Expectativa para falar sobre Elza Soares

“Se eu te responder quem é Elza Soares pra mim, já vou te dar o spoiler do enredo. Elza Soares é uma ocupação. Ela não esperou nada, não pediu licença. Ela toma o lugar que é negligenciado. Assim na vida artística, na vida pessoal, como mulher, como mãe”.

“Quando abriu a boca pra cantar no programa do Ary Barroso, saiu dali a voz de uma realidade que as pessoas não gostam de enxergar. Ela é multiplicidade, a voz das vozes. A Elza está hoje num patamar tão acima de um papel de um artista que ela não se encaixa. Ela é a Elza. É o exemplo de vida, é o discurso, o que canta e como canta…Se comparar entrevistas que ela deu nos anos 70 e 80 com as atuais, há uma coerência de discurso, embora ela tenha passado por várias vezes de vida. A lucidez e a linha de vida dela é bem definida. Ela é sensacional”.

Jack falou também sobre os ataques sofridos pela Educação pública do bolsonarismo, como é sua rotina de criação e fez dura declaração sobre homofobia ao falar das eleições de 2018.

O episódio gravado com este grande artista contemporâneo na íntegra você encontra no Spotify, Itunes, nos principais agregadores de podcast para smartphone e no site da Central3.

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