‘O Fórum’: documentário mostra Bolsonaro como pária mundial

Seguindo a tradição de fazer algumas resenhas de filmes e séries neste espaço, sem qualquer compromisso de ser ou parecer crítica cinéfila, quero indicar o documentário ‘O Fórum’ (2019), do diretor alemão Marcus Vetter. A película sobre o Fórum de Davos estreou há poucas semanas na plataforma dos Marinho, mas chamou a atenção nas redes meses antes, quando uma cena mostrou Jair Bolsonaro falando em “explorar a Amazônia com os Estados Unidos” para o ambientalista e ex-vice-presidente yankee Al Gore.

Tal teaser é um resumo perfeito da forma com a qual o presidente neofascista do Brasil é retratado em ‘O Fórum’: uma figura a ser evitada por pessoas que, ao menos, fingem se importar com o mundo. O filme rememora a trajetória do Fórum Econômico Mundial, que completa 50 anos em 2021, por meio de cenas de arquivo e declarações do presidente e fundador, o alemão Klaus Schwab. Essa parte é interessante pelo contexto histórico, mas haja estômago para ver europeus vomitando pretensões de salvar o mundo…

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Logo no começo, a citação e a imagem do “muito de esquerda” Dom Hélder Câmara confrontando líderes europeus, na edição de 1973, é um alento e tanto. De resto, são só os grandes representantes capitalistas fingindo se importar e ativistas ambientais preocupados com a saúde da Terra, além de grandes líderes políticos também fingindo se importar – ou nem isso. Nada muito de novo.

Sem Trump, com Bolsonaro

A parte boa mesmo é a segunda metade, quando o foco vai para a recente ascensão da extrema-direita. Começa com o cancelamento das participações de Theresa May, Donald Trump e Emmanuel Macron na edição de 2019. Estrelas da edição anterior (o diretor filmou os bastidores de 2018 e 2019), os três justificam a falta alegando que precisavam resolver “problemas internos”, e por isso, não foram à pequena cidade Suíça. Brexit, Congresso paralisado e movimento dos coletes-amarelos são as questões internas que três dos maiores líderes políticos do mundo precisavam resolver naquele momento.

Entra em cena, então, Jair Bolsonaro. Criticado pelos ambientalistas por conta das queimadas na Amazônia, além de todo o discurso neofascista, Bolsonaro é visto desde o começo pela organização do Fórum com muito cuidado. Trata-se da primeira viagem internacional do recém-eleito viúvo da Ditadura Militar. Sua participação mentirosa – “Somos o país que mais preserva o meio ambiente” – no palco fica em segundo plano. O destaque mesmo é para o tratamento dos líderes mundiais e grandes capitalistas para com o ex-capitão na “hora do recreio”.

Além da cena antológica com Al Gore, outras participações de Bolsonaro se destacam. Como quando Jennifer Morgan, do Greenpeace, toma coragem para falar com ele e demonstrar preocupação com a Floresta Amazônica. Mais que desdém, o presidente do Brasil trata a ativista com nojo e até um certo medo. Winnie Byanyima, da Oxfam, gargalha ao saber que Morgan foi lá falar com Bolsonaro.

'O Fórum' mostra Paulo Guedes tentando fazer o meio-campo entre neofascismo e o grande capital
Em Davos, Guedes tentou fazer o meio-campo entre o neofascismo e o grande capital – (Alan Santos/PR)

Outra passagem de “O Fórum” que vale mencionar é a reunião com dezenas de executivos de grandes empresas. Mostrando-se como fiador e orador de Bolsonaro, Paulo Guedes tenta convencer os donos do capital que o Brasil está no rumo certo. Pelas expressões faciais dos ricos CEOs e presidentes, nem falando inglês o “Posto Ipiranga” conseguiu convencê-los – ainda que, sabemos, são muitos os pontos em comum.

De volta aos bastidores, Bolsonaro e sua comitiva, incluindo o tosco chanceler Ernesto Araújo, general Augusto Heleno e um outro sujeito de uniforme militar, ficam completamente deslocados do ambiente. Peixes fora d’água é pouco para descrevê-los. De acordo com o próprio Marcus Vetter, “ninguém queria ficar perto do Bolsonaro”.

E esta é a grande vantagem do documentário: registrar, com os olhos hipócritas dos europeus e grandes capitalistas, como é universal o sentimento que o correspondente brasileiro na ONU, Jamil Chade, já tinha retratado no podcast Lado B do Rio #155: O Brasil de Jair Bolsonaro é um pária mundial.

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