Série “O povo x O.J. Simpson” é um “pipoca-cabeça” que vale a pena ver

Dispor de grana quase infinita ajuda muito quando se tem a intenção de produzir algum conteúdo. Hollywood, a Meca do cinema mundial, é um exemplo. Como normalmente quem tem muito, quer mais, as produções hollywodianas costumam, via de regra, se preocupar somente em lucrar, e não tanto com as mensagens passadas em seus filmes e séries.

Definitivamente não é o caso de “O Povo x O.J. Simpson (2016)”, 1ª temporada do seriado “American Crime Story”, disponível na Netflix, baseado no livro “The run of his life: The people v. O.J. Simpson”, de Jeffrey Toobin – um dos tantos publicados sobre o provável julgamento mais midiático da história.

Méritos cinematográficos à parte (leigamente, afirmo que se vê com clareza como a produção é bem feita), a história real por si só é capaz de prender qualquer espectador e nasceu pronta para o entretenimento: um ex-atleta e ator muito famoso, acusado de matar a ex-esposa e um homem, tem contra si todas as evidências do crime, mas acaba sendo inocentado em um julgamento ultra-midiático graças a uma equipe de defesa acima da média e falhas de um sistema policial racista.

E aí entra o primeiro grande mérito, digamos, intelectual, da produção: o debate racial, que fervia os Estados Unidos do começo da década de 90. Graças a participação do advogado negro ativista Johnnie Cochran (Courtney B. Vance) no caso, a narrativa da história é produzida em torno do fato de O.J. (Cuba Gooding Jr.) ser negro. As nuances dessa primeira relevante discussão são interessantes (e globais): polícia racista, judiciário benevolente, comunidade negra ativa, brancos que não entendem o que passa, um negro rico que parece só lembrar da sua etnia ao sentar no banco dos réus, um promotor negro demonizado por estar “do outro lado”. E muito mais.

Como se não bastasse discutir o racismo aberto estadosunidense, uma das personagens principais da série (e do julgamento) é a promotora Márcia Clark (Sarah Paulson). Em meio a um divórcio, mãe de filhos pequenos, ocupando alto cargo, Clark é constantemente atacada por todos os lados pelo simples fato de ser mulher, o que abre outro necessário debate: o machismo e a misoginia na terra do Tio Sam (e, por que não?, em escala global).

A promotora, aliás, entra com tudo no caso pois tem certeza se tratar de um feminicídio, dada às evidências e o histórico de agressões de O.J. contra a ex. Ou seja, mais um sub-debate intercalado no filme: a violência doméstica.

Como se não bastassem racismo, machismo, misoginia e violência doméstica, os 10 episódios ainda abrem a mente para outros temas relevantes. Mostra, por exemplo, como a insana cobertura da mídia interferiu sobre a opinião pública de todo o país, não somente no que diz respeito ao réu famoso, mas também devastando a vida privada de outros personagens do julgamento.

A série também critica o culto à personalidade que funciona nos Estados Unidos (e que o mundo copia), particularidade preponderante para o plano de defesa do “Dream Team” de advogados, afinal, O.J. era um dos grandes ídolos do principal esporte do país e participava de filmes e comerciais.

Enfim, é possível achar no circuito comercial, um entretenimento bem produzido que abra assuntos para o debate, coloque o espectador para pensar a sociedade, sem ser, necessariamente, um ‘aulão’ técnico. E o seriado escrito por Scott Alexander and Larry Karaszewski e produzido por John Travolta, que conta a surpreendente história do caso O.J. Simpson de maneira fiel, certamente entra nesse hall de produções, digamos, “pipoca-cabeça”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pin It on Pinterest