Bacurau é violento porque o Brasil é violento

Atenção: contém spoiler! Se você ainda não assistiu ao filme, esqueça este texto e corra para a sessão mais próxima!

Assisti ao filme do momento, Bacurau, no último domingo, em sessão promovida pelo Domingo é Dia de Cinema, evento elaborado como atividade extra-classe para estudantes de pré-vestibulares das favelas do Rio de Janeiro, e organizado por uma pá de gente capitaneada pelo companheiro León Diniz, professor de Geografia dos bons e cidadão indispensável nos dias atuais.

E Bacurau é ótimo. É um filme que deve causar impacto no espectador mais atento. Não pelo sangue que jorra – e jorra com vontade –, mas pela quantidade de metáforas que podem ser feitas entre ficção e realidade. Metáforas tão reais, que a pergunta não deixa de ser pertinente: o filme de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles é mesmo uma ficção?

Vejamos: Bacurau é um povoado do sertão pernambucano, mas poderia ser qualquer favela do Rio de Janeiro. Em ambos os casos, são espaços de vida lembrados pelo poder público apenas para exploração, onde o prefeito Tony Júnior (Thardelly Lima), um corrupto e vendilhão, promete “cuidar das pessoas”.

Entre esses “cuidados” está a distribuição de livros, despejados em frente à única escola pública local, para que Plínio (Wilson Rabelo), o professor, se encarregue de “ver qual que serve”. Além dos livros, o prefeito também distribui féretros e remédios de uso controlado para anestesiar a população.

Outra alegoria da vida real: este mesmo prefeito “vendeu” o povoado para que gringos forasteiros “brinquem” de tiro ao alvo. Neste contexto, morrem trabalhadores, animais, uma família da classe média local – acontecimento que marca a virada do filme – e até crianças.

Em uma das cenas, um dos forasteiros justifica o assassinato de um menino que portava uma lanterna, dizendo que “ela poderia ser uma arma”. Quem nunca ouviu este argumento em nossa distopia da vida real cotidiana?

Créditos: Victor Jucá/Divulgação

Mais uma cena marcante: o diálogo entre o casal de motoqueiros-pistoleiros (Karine Teles e Antonio Saboia), colaboradores da invasão, com os gringos à mesa. Perguntados se não se incomodavam de matar “gente como eles”, eles respondem que são “do sul”. Isto é, em suas mentes racistas, eles se veem mais parecidos com os estrangeiros que com os nordestinos.

A partir daí, no diálogo que se sucede, os gringos lembram que os brasileiros “do sul” em nada se parecem com anglo-saxões. Brasileiros “do sul”, quando muito, são “mexicanos brancos” no imaginário imperialista. Estão tão distantes daquilo que pensam que são, que um dos forasteiros pega um binóculo para enxergá-los. Brilhante!

Quando se tem alguma consciência de classe, poucas coisas são tão engraçadas quanto presenciar um desses exemplares da classe média brasileira tomando um choque de realidade. A classe média, essa que grita com a Bolívia e abana o rabo para os ianques, que ama um quarto de empregada, e que não enxerga que, pelo menos aos olhos do mundo ocidental, o Brasil é tão periferia quanto qualquer país da América Central e da África.

Outra representação: o homem do casal de motoqueiros é um funcionário do gabinete de um desembargador de justiça. Ou seja, um alto servidor público do Judiciário que não hesita em atirar contra seu próprio povo, a serviço de interesses estrangeiros. Se contar algo parecido em Curitiba, dirão que os diretores do filme são hackers.

Mais: o pertencimento e a autogestão comunitária. Teresa (Bárbara Colen) é uma cientista que volta da cidade grande trazendo vacinas para uso do povoado. Numa das cenas iniciais, no velório de Dona Carmelita (Lia de Itamaracá), Plínio, filho da falecida de 94 anos, reúne as pessoas e diz algo como “ela morreu, mas deixou filhos por toda parte. São professores, artistas, engenheiros, que nunca esqueceram seu lugar no mundo”.

Teresa, personagem de Bárbara Colen | Créditos: Divulgação

Outras minúcias: o uso de um “psicotrópico muito forte” como elemento para ajudar a enfrentar as dificuldades e a despertar a coragem para reagir à fúria dos invasores, bem como as armas utilizadas na autodefesa do povoado, todas saídas de um museu tratado como relíquia em Bacurau.

É ali que está contada a história das pessoas. Onde estão expostas as lembranças das guerras de seus antepassados, seus dramas e vitórias. Tanto que ao final do combate, uma das personagens orienta: “limpe o sangue do chão, mas deixe as paredes como estão”. Com todas as marcas dos que lutaram e ainda lutam para se manterem vivos.

E, por fim, Lunga (Silvero Pereira). O marginal-herói que vive em uma fortaleza isolada nas imediações do povoado, a quem a população recorre assim que percebe que algo está errado. É ele quem define, em uma frase, o que está acontecendo quando as luzes de Bacurau se apagam. Resume o filme e os nossos tempos: “estamos sendo atacados!”.

Quem captou a sensibilidade de Lunga sabe que ele está correto. Estamos sendo atacados e é aí que ficção e realidade se confundem. Se o leitor pagou ingresso para assistir ao filme somente pelos tons tarantinescos da história, talvez valha a pena ignorar a obviedade e se atentar ao contexto: Bacurau é uma alegoria das nossas vidas. É violento porque o Brasil é violento.

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6 comentários em “Bacurau é violento porque o Brasil é violento

  • 18 de setembro de 2019 em 09:59
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    Que nenhum de nós se esqueça de onde viemos , pois só lembrando a força dos nossos ancestrais, conseguiremos seguir com força e saúde mental. Nossas origens nos dão outros significados para a vida.

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  • 18 de setembro de 2019 em 10:05
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    Bom dia, Fagner. Parabéns pelo texto. Algumas das alegorias que vc cita eu não tinha percebido. É filme pra ver mais de uma vez. Sou ouvinte do lado B do RJ há algum tempo e admiro o trabalho de vcs. Sou branco, hétero, trabalho na ZS e numa empresa do mercado financeiro! rs… Digo isso só pra mostrar que vcs atingem camadas fora da bolha também. Tenho tentando fazer amigos ouvirem vcs mesmo sendo de direita. A importância de ouvir o outro lado. Não tá fácil mas a esperança continua. Enfim… parabéns.
    abs
    Marcelo Guedes

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    • 18 de setembro de 2019 em 17:53
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      Eu também pretendo assistir mais de uma vez. Bacurau é um filme que com certeza fica melhor após repeti-lo e após conversar sobre ele. Agradeço seu trabalho de formiguinha com seus amigos. Essa é a mudança. Abraços.

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  • 19 de setembro de 2019 em 15:33
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    Excelente texto! Não consegui assistir o filme, nem sei se conseguirei… mas adorei a análise.

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    • 20 de setembro de 2019 em 08:13
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      Corra para o cinema!!!

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  • 23 de setembro de 2019 em 00:57
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    As diferenças culturais são muito legais de se perceber também no filme.
    A arrogância estrangeira em achar que vão chegar aqui e fazer o que bem entendem com os reais donos da terra e detentores de um conhecimento local que gringo nenhum tá ligado é bem legal, também curti os diferentes perfis dos estrangeiros, o alemão, a europeia, o psicopata norte americano, o esportista norte americano, o jovem frustrado, enfim.
    Dentro dessa linha de diferença cultural dois personagens de bacurau são pra mim os mais simbólicos, o mestre curandeiro (não lembro o nome) e Lunga.
    O mestre curandeiro por representar essa sabedoria ancestral das plantas e apesar da idade é quem percebe os primeiros sinais e tem maturidade pra jogar com as situações, na primeira oportunidade finge se espantar com o disco voador mas sabe que aquilo era um drone e na segunda oportunidade age como de costume para armar uma tocaia onde mata os dois primeiros gringos a morrer.
    Lunga é um “selvagem”, tão enérgico que nem Bacurau lhe comporta, mas por perto e sempre de olho, é quem identifica a cassada e de quem é a caçada? Bacurau é bicho, e é arisco… se correr o bicho pega se ficar o bicho come.
    A personagem de Teresa é maravilhosa também, achei muito interessante a expressão de surpresa da família quando ela diz que vai ficar, como se na situação dela, com a vida que ela já tinha fora dali já não importasse mais.
    Pacote é uma excelente entrega para o mundo externo, matador impiedoso? assassino de aluguel? Só fora dali, dentro de Bacurau ele se chama Acácio (nome português que surge como variante masculina de Acácia, o qual tem origem no grego akákios, que significa “inocência”, “que não tem maldade”.)
    Fiquei intrigado com aquela tv que exibia no hora da matança: “Execuções Públicas são liberadas em São Paulo”, filmaço!
    Grande abraço

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