Você precisa ler a sinopse do enredo da Mangueira para este ano

O texto mais verdadeiro e emocionante que li nos últimos meses – e olha que eu leio muita coisa todos os dias – é este abaixo, escrito pelo gênio Leandro Vieira, e representará o desfile que a Estação Primeira de Mangueira levará para a Sapucaí.

Tenho minhas diferenças com a escola, mas isso pouco importa: eu não sou absolutamente ninguém. Já o Brasil precisa muito da Mangueira para ser um lugar melhor. E eu duvido você terminar de ler essa sinopse sem se emocionar. Isso é para ser ensinado em todos os cantos deste país.

Antes, se ainda não conhece, ouça o samba-enredo, já antológico, que embalará a escola:

Leia a sinopse abaixo:

“HISTÓRIA PRA NINAR GENTE GRANDE é um olhar possível para a história do Brasil. Uma narrativa baseada nas “páginas ausentes”. Se a história oficial é uma sucessão de versões dos fatos, o enredo que proponho é uma “outra versão”. Com um povo chegado a novelas, romances, mocinhos, bandidos, reis, descobridores e princesas, a história do Brasil foi transformada em uma espécie de partida de futebol na qual preferimos “torcer” para quem “ganhou”. Esquecemos, porém, que na torcida pelo vitorioso, os vencidos fomos nós.Ao dizer que o Brasil foi descoberto e não dominado e saqueado; ao dar contorno heroico aos feitos que, na realidade, roubaram o protagonismo do povo brasileiro; ao selecionar heróis “dignos” de serem eternizados em forma de estátuas; ao propagar o mito do povo pacífico, ensinando que as conquistas são fruto da concessão de uma “princesa” e não do resultado de muitas lutas, conta-se uma história na qual as páginas escolhidas o ninam na infância para que, quando gente grande, você continue em sono profundo.

De forma geral, a predominância das versões históricas mais bem-sucedidas está associada à consagração de versões elitizadas, no geral, escrita pelos detentores do prestígio econômico, político, militar e educacional – valendo lembrar que o domínio da escrita durante período considerável foi quase que uma exclusividade das elites – e, por consequência natural, é esta a versão que determina no imaginário nacional a memória coletiva dos fatos.

Não à toa o termo “DESCOBRIMENTO” ainda é recorrente quando, na verdade, a chegada de Cabral às terras brasileiras representou o início de uma “CONQUISTA”. E, ao ser ensinado que foi “descoberto” e não “conquistado”, o senso coletivo da “nação” jamais foi capaz de se interessar ou dar o devido valor à cultura indígena, associando-a “a programas de gosto duvidoso” ou comportamentos inadequados vistos como “vergonhosos”.

O carnavalesco da Mangueira é Leandro Vieira

Comemoramos 500 anos de Brasil sem refazermos as contas que apontam para os mais de 11.000 anos de ocupação amazônica, para os mais de 8.000 anos da cerâmica mais antiga do continente, ou ainda, sem olhar para a civilização marajoara datada do início da era Cristã. Somos brasileiros há cerca de 12.000 anos, mas insistimos em ter pouco mais de 500, crendo que o índio, derrotado em suas guerras, é o sinônimo de um país atrasado, refletindo o descaso com que é tratada a história e as questões indígenas do Brasil. Não fizeram de CUNHAMBEMBE – a liderança tupinambá responsável pela organização da resistência dos Tamoios – um monumento de bronze. Os índios CARIRIS que se organizaram em uma CONFEDERAÇÃO foram chamados de BÁRBAROS. Os nomes dos CABOCLOS que lutaram no DOIS DE JULHO foram esquecidos. Os Índios, no Brasil da narrativa histórica que é transmitida ainda hoje, deixaram como “legado” cinco ou seis lendas, a mandioca, o balanço da rede, o tal do “caju”, do “tatu” e a “peteca”.Levando em conta apenas pouco mais de 500 anos, a narrativa tradicional escolheu seus heróis, selecionou os feitos bravios, ergueu monumentos, batizou ruas e avenidas, e assim, entre o “quem ganhou e quem perdeu”, ficamos com quem “ganhou.” Índios, negros, mulatos e pobres não viraram estátua. Seus nomes não estão nas provas escolares. Não são opções para marcar “x” nas questões de múltiplas escolhas.

Deram vez a outros. Outros que, por certo, já caíram nas suas “provas”. Você aprendeu que os “BANDEIRANTES” – assassinos e saqueadores – eram os “bravos desbravadores que expandiram as fronteiras do território nacional”. DOM PEDRO, o primeiro, você “decorou” que era o “herói” da Independência, sem que as páginas dos livros contassem a “camaradagem” de um “negócio de família” tão bem traduzido pela frase do PAI do Imperador, que a ele orientou: “ponha a coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça”. Convém esclarecer aqui que os “aventureiros” citados por DOM JOÃO éramos nós, brasileiros, e que a “independência” proclamada – ou programada – foi para evitar que tivéssemos aqui “aventureiros” como Bolivar ou San Martin, patriarcas bem-sucedidos das “independências” que não queriam por aqui.

Como “CABRAL”, o “ladrão”, que roubou o Brasil lá pelas bandas de mil e quinhentos, ou PEDRO I, que através de um acordo “mudou duas ou três coisas para que tudo ficasse da mesma forma”, tem também o Marechal, o DEODORO DA FONSECA, homem de convicções monarquistas – amigo pessoal do Imperador PEDRO II – autor da proclamação de uma República continuísta – sem participação popular – traduzida em golpe e que, na ausência de líderes, mandou “pintar” um retrato do Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o TIRADENTES, na tentativa de produzir “um personagem pra chamar de seu”.Se a República foi “golpe”, conclui-se que “golpe” no Brasil não é novidade. Nem é novidade que a natureza dos “golpes” ainda estejam mal contadas. A rodovia CASTELO BRANCO “corta” São Paulo com “nome de batismo” em homenagem ao primeiro general “do GOLPE DE 1964”. Para cruzar a Baía da Guanabara em direção a Niterói, lá está a ponte PRESIDENTE COSTA E SILVA, o mesmo que fechou o Congresso Nacional e aditou o AI-5 suspendendo todas as liberdades democráticas e direitos constitucionais. Em Sergipe, em dias de jogos, a bola rola no estádio PRESIDENTE MÉDICI, o general dos “ANOS DE CHUMBO”, do uso sistemático da tortura e dos violentos assassinatos. Nas ruas – por terem lido um livro que “ninou” e não “ensinou” falando da suspensão dos direitos humanos, da corrupção e dos assassinatos cometidos no período – aparecem faixas para pedir “intervenção militar”, décadas depois da redemocratização.

Sem saber quem somos, vamos a “toque de gado” esperando “alguém pra fazer a história no nosso lugar”, quiçá uma “princesa”, como a ISABEL, a redentora, que levou a “glória” de colocar fim ao mais tardio término de escravidão das Américas. Nunca esperaremos ser salvos pelos tipos populares que não foram para os livros. Se “heróis são símbolos poderosos, encarnações de ideias e aspirações, pontos de referências, fulcros de identificação” a construção de uma narrativa histórica elitista e eurocêntrica jamais concederia a líderes populares negros uma participação definitiva na abolição oficial. Bem mais “exemplar” a princesa conceder a liberdade do que incluir nos livros escolares o nome de uma “realeza” na qual ZUMBI, DANDARA, LUIZA MAHIN, MARIA FELIPA assumissem seu real papel na história da liberdade no Brasil.

Vereadora Marielle Franco
Como diz o samba: chegou a hora de ouvir as Marielles deste país

O fato é que a atuação de “gente comum”, ou mesmo a incansável luta negra organizada em quilombos, em fugas, no esforço pessoal ou coletivo na compra de alforrias e em revoltas ou conspirações, já enfraqueciam o sistema escravocrata àquela altura. Entretanto, ensinar na escola o nome de “CHICO DA MATILDE”, jangadeiro, mulato pobre do Ceará (líder da greve que colocou fim ao embarque de escravos no estado nordestino, levando-o à abolição da escravatura quatro anos antes da princesa ganhar sua “fama” abolicionista) não serviria à manutenção da premissa de que as conquistas sociais resultam de concessões vindas “do alto” e não das lutas. A história de CHICO DA MATILDE era inspiradora demais para o povo. Não à toa, seu nome não está nos livros.Esses nomes não serviram para eles. Para nós, eles servem. Para nós, sentinelas dos “ais” do Brasil, heróis de lutas sem glórias ainda deixados “de tanga” ou preso aos “grilhões”, eles são as ideias que usaremos para “gestar” o que virá. “Engravidados” de novas ideias, jorrará leite novo para “amamentar” os guris que virão. Sabendo outra versão de quem é o Brasil, – não a que nos “ninou” para quando fôssemos adultos – sabendo que CABRAL “invadiu” e que, ao invés de quinhentos e dezenove anos, somos brasileiros há quase doze mil anos. Conhecendo CUNHAMBEBE, a CONFEDERAÇÃO DOS CARIRIS, cientes da participação dos CABOCLOS na luta do 02 DE JULHO NA BAHIA, e sabendo que os índios lutaram e resistiram por mais de meio século de dominação, talvez se orgulhem da porção de sangue que faz de TODOS NÓS, sem exceção, índios. Sabendo que a “bondosa” princesa Isabel deu vez a “Chico da Matilde”, “Luiza Mahin” e “Maria Felipa”, é possível que reconheçam em si a bravura que vive à espreita da hora de despertar e aí, talvez, o “gigante desperte sem ser para se distrair com a TV”.

Cientes de que nossa história é de luta, teremos orgulho do Brasil. Alimentados de leite novo e bom, varreremos de nossos “porões” o complexo de “vira-latas” que fomenta nossa crença de inferioridade. Veremos tanta beleza na escultura de ANTÔNIO FRANCISCO LISBOA quanto no quadro que eterniza o sorriso da Monalisa. Nos orgulharemos do “tupi” que falamos – mesmo sem saber. Daremos mais cartaz ao saci do que à “bruxa”. Brincaremos mais de BUMBA MEU BOI, CIRANDA E REISADO. Nossas crianças enxergarão tanta coragem no CANGACEIRO quanto no “cowboy”. Vibraremos quando SUASSUNA estrear em “ROLIÚDE” sem tradução para o SOTAQUE de João Grilo e Chicó. Não estranharemos caso o Mickey suba a ESTAÇÃO PRIMEIRA, troque “my love” por “minha nêga” e mande pintar o “parquinho” da Disney com o VERDE E O ROSA DA MANGUEIRA”.

9 comentários em “Você precisa ler a sinopse do enredo da Mangueira para este ano

  • 5 de março de 2019 em 13:09
    Permalink

    Olá amigos do Lado B do Rio!

    Primeiramente, quero dizer que ne tornei um ouvinte recente de vocês e estou amando o trabalho excepcional que fazem! Continuen assim!

    Meu comentário vem para sanar uma dúvida honesta. Sempre fui muito reticente quanto às escolas de samba cariocas por conta do histórico de envolvimento com bicheiros e lavagem de dinheiro de algumas agremiações. Grande Rio, Beija-Flor, Imperatriz Leopoldinense, etc.

    Contudo, agora com o desfile da Mangueira, pipocam comentários rançosos contra a escola, acusando-a de hipocrisia por conta de supostas doações de Fernandinho Beira-Mar, uma espécie de camarote do pó e um túnel na quadra da escola pra fuga de traficantes. Dá pra imaginar o nível dos comentários de quem levanta essa bola.

    Afinal de contas, o que há de verdade nessa história toda? Eu sou um dos que se encantou com o que a Verde e Rosa apresentou na avenida, mas como fica esse suposto passado sujo da escola? O que há de verdade nesse furdunço todo?

    Mais uma vez, parabéns pelo excelente trabalho!

    Resposta
    • 7 de março de 2019 em 10:06
      Permalink

      Cleverton, obrigado pelas palavras.

      É preciso que se faça uma separação justa entre a escola de samba, enquanto CNPJ, empresa, instituição, das pessoas que fazem a escola. Mais ou menos como acontece com o futebol: a Mangueira, a Portela, o Flamengo, o Corinthians, etc, são as coletividades que o compõe.

      Dentro desse universo, há toda sorte de contradições. A Mangueira, sim, teve relações com o tráfico; outras escolas, com o jogo do bicho e até a milícia.

      Isso tudo acontece, basicamente, porque quem quer se alçar na lideranças dessas instituições, via de regra, o faz para se locupletar e para se legitimar perante à comunidade.

      Mas é o que o enredo da Mangueira fala: quem faz as escolas são os heróis de barracões, o povo simples, honesto, que trabalha muito e dedica uma vida para colocar o maior espetáculo da Terra na Sapucaí – e recebe migalhas por isso, enquanto os poderosos continuam lucrando.

      Contradições da vida.

      Não se abale. Estar permeado pelo tráfico de drogas (o varejista), a milícia, o jogo do bicho, faz parte da vida dessas pessoas pobres, e é exatamente contra isso que lutamos. E nessas brechas que nós, e personalidades como o carnavalesco Leandro Vieira, da Mangueira, atuamos.

      E assim, seguimos resistindo.

      Abraços.

      Resposta
  • 6 de março de 2019 em 13:43
    Permalink

    Olha um texto magnífico e uma apresentação da mangueira de emocionar.
    Me emocionei com a comissão de frente (sou muito chorão) nada me emociona mais do que crianças com esperança de um futuro melhor e diferente do que vivemos.
    Alessandro Correia
    De Fortaleza Ceará

    Resposta
  • 7 de março de 2019 em 08:53
    Permalink

    Que coisa linda conhecer nossa história e nossos verdadeiros heróis.

    Resposta
  • 7 de março de 2019 em 19:31
    Permalink

    Graças a Deus, que meus alunos de história sempre souberam a verdadeira história do nosso país. Nossos debates foram sempre pautados na verdade histórica. Parabens ao tema abordado pela mangueira. Grande aula de história!?!

    Resposta
  • 8 de março de 2019 em 11:24
    Permalink

    Sou paulistano, Negro, e admirei de mais esta realidade q a Mangueira mostrou e nós como gente da gente temos que fazer a diferença a partir de nós, nossa família, no serviço na escola para colocarmos um representante q acredite também no Brasil.

    Resposta
  • 7 de abril de 2019 em 15:03
    Permalink

    Maria milza turma 1E

    O enredo com um povo chegado a novelas,romances mocinhos,bandidos,reis,descobridores e princesas.
    A historia do brasil foi transformada em uma partida de futebol na qual preferiamos ” torcer” para quem ganhou.
    O protagonismo do povo brasileiro, ao selecionar herois” dignos” de serem eternizados em formas de estatua, ao propagar o mito do povo pacifico,ensinando que as conquistas sao fruto da concessao de uma” princesa” e nao do resultado de muitas lutas.

    Resposta
  • 7 de abril de 2019 em 15:20
    Permalink

    Maria Milza
    Turma :1E

    O enredocom um povo chegado a novelas, romances, mocinhos, bandidos, reis,descobridores e princesas,a historia do brasil foi transformada em uma partida de futebol na qual preferimos ” torcer” para quem ganhou.
    O protagonista do povo brasileiro, ao selecionar herois ” dignos” de serem eternizados em forma de estatuas, ao propagar o mito do povo pacifico, ensinando que as conquistas sao fruto da concessao de uma “princesa” e nao do resultado de muitas lutas.

    Resposta
  • 8 de abril de 2019 em 16:20
    Permalink

    Aluna Camila do 1CM
    O texto faz uma crítica a história positivista fala sobre os verdadeiros heróis ,que não se destacá tanto quanto os outros mais conhecidos , e também valorizar muito a nova história fala realmente sobre os verdadeiros heróis e esse texto e uma verdadeira admiração que agente tem q fazer a diferença e falar a verdadeira história.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pin It on Pinterest