Gabi indica: série “A jornalista”

Em janeiro, a plataforma de streaming Netflix lançou uma série japonesa chamada The Journalist (A jornalista). A primeira temporada tem seis episódios. Anna Matsuda é uma jornalista, especialista em investigar escândalos do governo japonês.

Já no primeiro episódio, durante uma coletiva de imprensa com o porta voz do primeiro-ministro, Matsuda faz perguntas sobre mais um caso de corrupção no governo. Ela é a única que faz questionamentos mais duros e necessários diante de uma imprensa quase chapa-branca, mas o porta-voz sempre consegue sair pela tangente.

Mas ela continua investigando e descobre outro caso: uma fraude em andamento envolvendo o assistente da primeira-dama.

O caso é a compra de um terreno abandonado na cidade de Nagoia. Uma construção superfaturada de uma escola. Durante uma coletiva, o secretário da Fazenda se enrola ao dizer os valores da compra, e é aí que Matsuda sente que há algo errado no ar.

Para acalmar a oposição e parte da imprensa, alguém terá que dizer a verdade ou mentir. Para salvar a imagem do primeiro-ministro e de sua esposa, os registros são adulterados. Números que antes revelavam que alguém estava ganhando muito com as obras da escola, terão que ser substituídos por valores mentirosos em prol de mostrar alguma transparência à população.

No entanto, felizmente, ainda existem pessoas honestas. Kazuya Suzuki é um funcionário público da Secretaria da Fazenda de Nagoia e tenta alertar ao seu superior que falsificar documentos é crime. Durante a conversa, ele abaixa a cabeça, que é um tipo de cumprimento no Japão (ojigi), porém, mais que um gesto de saudação, é um sinal de respeito, insistindo em dizer que falsificar documentos é crime. Suzuki é um homem que tenta mostrar honestidade. Não quer se envolver num lamaçal de corrupção. Mas tudo se torna inútil quando seu superior, pressionado por pessoas lá de cima, assume qualquer tipo de responsabilidade pela fraude.

Os demais veículos de imprensa passam a observar mais o caso e a oposição vê uma oportunidade de fazer com que o primeiro-ministro renuncie. Então o secretário da Fazenda é demitido, o assistente da primeira-dama é transferido para outro departamento e ninguém será investigado.

Ryoko Yonekura (ao centro) vive Anna Matsuda, a protagonista da série

Diante dos panos quentes para preservar o governo, Matsuda tenta falar com Suzuki na Secretaria da Fazenda, mas ele é relutante em dizer algo. Ele começa a sofrer uma crise de pânico por não conseguir suportar o silêncio sobre o que sabe.

É interessante ver sua dor. Suzuki sofre muito e é o único que se arrepende de ter fraudado os documentos, enquanto seu superior recebe uma promoção e o caso é considerado encerrado para os demais públicos.

É então que algo acontece: a oposição consegue abrir uma investigação e, durante um depoimento, o secretário da Fazenda afirma que os documentos foram adulterados. É declaração é uma manobra para, mais uma vez, proteger o primeiro-ministro e sua esposa. Alguém levará a culpa por eles.

Matsuda quer ter acesso aos documentos. Então Shinichi Murakami, o antigo assistente da primeira-dama, passa a trabalhar num centro de inteligência (algo mais para “gabinete do ódio” que monitora as redes sociais e pesquisa sobre possíveis inimigos do governo. A ideia é controlar a narrativa do escândalo no Twitter e Facebook, por meio de Fake News e montagens difamatórias sobre políticos da oposição e, principalmente, jornalistas.

Murakami sabe que tem envolvimento com o escândalo da compra do terreno e quer se proteger. E Matsuda passa a ser a inimiga número 1 do governo, pois está cada vez mais perto de conseguir as últimas peças do quebra-cabeça: os documentos originais e o depoimento de um funcionário. Ela passa a sofrer uma campanha de ódio nas redes sociais, liderada pelo tal centro de inteligência. Os donos dos principais jornais são pressionados a não publicarem mais sobre o caso. Alguns, inclusive, são ameaçados.

Mas Matsuda não se abala e segue firme em publicar os documentos originais. Ela não desiste, mesmo com a recusa de seu editor, um dos ameaçados pelo gabinete de Murakami. A partir daí não conto mais.

A jornalista é uma série sobre a importância de jornalistas corajosos, que não se deixam abalar pelos poderosos. Mostra que é possível ser honesto e também o sofrimento humano diante das pressões de patrões inescrupulosos. E reforça o valor da transparência e da democracia. Vale a pena.

* Deseja ajudar o Lado B? Torne-se um apoiador na Orelo a partir de R$ 2 por mês ou faça um PIX para [email protected].

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.