Gabi indica “The Americans” e “O fim do homem soviético”

Antes mesmo da Rússia ganhar espaço nos jornais nos últimos dias, quando decidiu atacar a Ucrânia, há tempos eu comecei a me interessar pela história da antiga União Soviética. Principalmente, em como era a vida da população até o fim do regime.

Esse meu interesse em parte foi por conta de uma série americana, The Americans, que chegou a estar na plataforma de streaming Netflix, porém, acabou ficando exclusiva para os assinantes do canal por assinatura FX. Um casal de espiões da KGB se passava por americanos nos anos 80, auge da Guerra Fria. Elizabeth é a mais durona e a que mais acredita nos ideais da Motherland, enquanto Philip confessa no primeiro episódio que morar nos EUA não é tão ruim.

Quando estava no mestrado na Espanha, eu já sabia que meus colegas espanhóis faziam parte de uma geração que desconhece o que ocorreu durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Eles diziam que seus avós desconversavam quando o assunto surgia e seus pais contavam pequenas coisas sobre como foi viver durante a ditadura franquista. Eu aprendi sobre esse silêncio lendo alguns livros e passando por um episódio constrangedor, quando eu fui conversar com uma senhora espanhola que imigrou para o Brasil nos anos 40. Quando ela ouviu o nome do ditador Franco, arregalou os olhos e disse que não tinha lembranças. Depois eu vi que havia cometido uma gafe, era o mesmo que perguntar a um judeu como tinha sido a Segunda Guerra. Falha minha!

Leia também:
As pautas de gênero, o aborto e 2022
Paes faz movimento brusco e abre 2022 embaralhando eleições para governador

Depois, essa senhora ficou muito minha amiga e me disse que sua família era da Galícia, a única lembrança que ela tinha era o dia em que os aviões alemães sobrevoaram os céus da Espanha. Quando chegou ao Brasil, preferiu esquecer tudo o que viu e recomeçar uma nova vida.

Uma das minhas colegas do mestrado era da Rússia. E para a minha surpresa, ela também me disse que em sua casa não se falava do passado. Ela aprendeu sobre a Segunda Guerra ou a Grande Guerra Patriótica, como o regime soviético chamava, na escola. E nasceu já no fim da URSS. Alguns dias depois, eu fui à biblioteca da universidade para pegar mais alguns livros, eu sempre levava uma pilha. Deparei-me com um título El fin del Homo sovieticus. Folheei as primeiras páginas. Achei interessante a autora trabalhar com a memória oral através de relatos de pessoas que viveram na União Soviética. Mal sabia eu que havia uma fila de alunos que aguardavam o livro da Svetlana Aleksiévich. Ainda bem que li as primeiras páginas e aproveitei para ver se ao menos a escritora já tinha chegado ao Brasil. Para o meu alívio, seus livros já tinham sido publicados pela Companhia das Letras.

De volta ao Brasil, adquiri “O fim do homem soviético” e as seiscentas páginas me fizeram mergulhar nas histórias de homens e mulheres mais velhos e mais jovens, histórias essas às vezes felizes ou às vezes tristes.

“O socialismo fazia as pessoas viverem na história… Fazer parte de algo grandioso”. “Com a Perestroika tudo acabou… O capitalismo veio com tudo… Noventa rublos viraram dez dólares”.

“Eu nasci na URSS e gostava dela. Meu pai era comunista, me ensinou a ler com o jornal Pravda”. “Aqueles foram anos belos, ingênuos… Nós acreditávamos no Gorbatchov, agora já não acreditamos tão facilmente em ninguém”.

“Lembra? Se precisasse falar alguma coisa secreta, você se afastava uns dois ou três metros do telefone, do gancho”.

O casal Phillip e Elizabeth, protagonistas da série The Americans (Reprodução)

Esses são pequenos trechos de entrevistas que a autora nascida na Ucrânia fez com as pessoas nas ruas, em bares ou em suas casas. Svetlana quer saber o que homens e mulheres na URSS e após o seu declínio pensavam, como foi a infância, como eram os dias nos apartamentos (comunas) com tantas famílias juntas e se eram felizes. Seus livros não são ficcionais e tampouco narram eventos históricos, por mais que a escritora tenha escolhidos os principais momentos do século XX: a Segunda Guerra, o acidente nuclear de Chernobyl, a Guerra Fria e o fim da União Soviética. O que a autora quer saber são as lembranças de pessoas comuns, quais livros liam, que músicas escutavam e se amavam. Sentimentos e modos de vidas que desapareceram depois de dezembro de 1991 e que as futuras gerações desconhecem.

Para os silêncios, há os livros e séries que, de alguma forma, ajudam as novas gerações a compreenderem o passado.

* Deseja ajudar o Lado B? Torne-se um apoiador na Orelo a partir de R$ 2 por mês ou faça um PIX para [email protected].

2 thoughts on “Gabi indica “The Americans” e “O fim do homem soviético”

  • 11 de março de 2022 em 10:26
    Permalink

    Naum sou de ler, mas vou tentar ver esse livro ai… mais de 500 paginas! naum consigo ler duas!! mas se tiver mais coisas falando de relatos… tem chance de ser uma boa experiencia de leitura!

    Resposta
  • 11 de março de 2022 em 10:28
    Permalink

    Naum sou de ler, mas vou tentar ver esse livro ai… mais de 500 paginas! naum consigo ler duas!! mas se tiver mais coisas falando de relatos… tem chance de ser uma boa experiencia de leitura!

    Resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.