Livros que nos marcam, por Gabriella Figueredo

Quando perguntam o porquê de ter escolhido o curso de Letras, respondo dizendo que não consigo viver sem a literatura na minha vida. Mais nova, eu dizia que gostava muito de ler desde criança. E é verdade. O livro que mais me marcou foi a saga Harry Potter.

Lembro que minha amiga de infância já havia lido e me contado a história de Harry Potter e a Pedra Filosofal. O filme já estava perto de estrear no Brasil. Fui ao cinema assistir e depois comprei o livro. Essa amiga me emprestou os demais livros para que comentássemos juntas as nossas impressões de leitura. Isso foi por volta dos 11 anos. Eu havia me tornado uma leitora.

Já perto do vestibular e tendo conhecido a obra da autora inglesa mais querida do público feminino, Jane Austen, decidi que escolheria o curso de Letras-Português e Inglês. Quando os professores de português do pré-vestibular perguntavam quem na turma havia lido Dom Casmurro, muitos olhavam para o chão. Foi então que, para não passar vergonha, achei que já era hora de ler Machado de Assis. E adorei! Confesso que torcia o nariz para autores brasileiros nas aulas de Língua Portuguesa.

Leia mais: Prazer, sou a filha do Brasil

Liguei para a minha amiga de infância e contei minha experiência. Ela me pediu o livro emprestado. Tive a sorte de ter um professor muito bom, que negociou com a turma as leituras no 3º ano do Ensino Médio. Ele bateu o pé dizendo que teríamos que ler Vidas Secas e não adiantava reclamar. A turma sugeriu O Caçador de Pipas. Ele gostou, mas talvez só um ou outro da turma tenha chegado até a última página do romance de Graciliano Ramos. Eu cheguei, com muito esforço, porém, só gostei, de fato, quando o reli na faculdade.

Como contei na coluna da última semana, a universidade foi um divisor de águas na minha vida e, aliás, universidade é para todos SIM, ao contrário do que disse o Sr. Ministro da Educação. Foi nela que li muitos livros que me marcaram, como O sol é para todos e Crônica de uma morte anunciada, e onde deixei de torcer o nariz para os autores brasileiros.

Da universidade, saí encantada com Lima Barreto. É um dos meus autores favoritos, seus livros já chamavam a atenção para as desigualdades raciais no Brasil.

Outro autor que se transformou em meu favorito foi Bernardo Kucinski. Graças ao grande professor Fred Coelho, que escolheu K. Relato de uma busca para a bibliografia da matéria Literatura e Contemporaneidade.

Quando falo desse livro, digo que o Kucinski foi corajoso ao abordar um tema muito pessoal, já que a sua irmã, Ana Rosa Kucinski, foi professora da USP e desapareceu nos anos da Ditadura-Militar.

Quando me perguntam o motivo de ter escolhido a Espanha para estudar um mestrado, respondo que foi por causa de um livro: A sombra do vento. Ganhei-o de presente em meu aniversário de 19 anos e até hoje agradeço à minha amiga Luciana por esse presente que mudou de alguma forma a minha vida. A cada ano volto à história do personagem Daniel Sempere, que busca informações sobre um escritor que tem seus livros queimados por um estranho.

Há um lugar mágico no livro O cemitério dos livros esquecidos. É lá que o jovem Daniel descobre A sombra do vento, da personagem-escritor Julian Carax, e vai em busca de mais títulos do autor.

Da mesma forma que o protagonista de Carlos Ruiz Zafón se sente encantado nesse lugar mágico com um livro que mudará sua vida, foi assim comigo ao ganhá-lo de presente de aniversário. Contei essa história ao editor de Zafón quando estive em Barcelona, em setembro de 2020. Depois de muitos e-mails, ele me atendeu na Editora Planeta.

O escritor espanhol Carlos Ruiz Zafón, autor de A sombra do vento

Quando cheguei à recepção, estava tremendo. E chorei já nos primeiros dez minutos de conversa, quando contei ter aprendido nos livros de Zafón quem era Franco e que a Espanha havia passado por uma guerra civil. Chorei em frente a um dos editores mais importantes do país de Cervantes. Pedi desculpas e expliquei que sonhava em conhecer Zafón – ele morreu em julho de 2020 vitimado por um câncer.

Disse também que atravessei o Atlântico para estudá-lo e para conhecer Barcelona, as Ramblas, a Rua Santa Ana. Acho que de alguma forma ele ficou tocado com a minha emoção. Afinal, livros têm esse poder de nos marcar, de nos transformar. E com você? Algum te marcou?

* Gabriella Juvenal Figueredo é filha de Jerônimo Figueiredo e Maria José Juvenal, um porteiro e uma trabalhadora doméstica. Graças às políticas de inclusão, cursou Letras na PUC-RJ e História da Arte, na Universidade de Navarra (ESP). Atualmente apresenta o Elevador de Serviço, programa da TV Democracia, no Youtube. Fala sobre a vida aqui no Lado B, às quintas-feiras.

A partir de R$ 2 por mês, você colabora com a produção de mais conteúdo nas plataformas do Lado B do Rio. Seja Padrim ou apoie no PicPay e conheça as metas e benefícios.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pin It on Pinterest