‘Solitária’, um romance mais que necessário

Li pela primeira vez a escritora brasileira Eliana Alvez Cruz graças ao querido Fagner Torres, que ao acabar de ler Solitária, elogiou o livro em suas redes sociais e me recomendou quando nos encontramos. Fui correndo comprá-lo e o devorei em poucos dias. Eliana já é uma autora conhecida graças ao livro Água de barrela publicado pela editora Malê em 2018 – confesso que este livro está na minha lista de leitura que cada vez só aumenta.

Porém, quero falar de Solitária. Publicado pela Companhia das Letras este ano, o romance conta a história de duas mulheres negras, Eunice e Mabel, mãe e filha, respectivamente. Ambas moram na cobertura de um prédio luxuoso. Mabel chega pequena ao trabalho da mãe e fica escondida no quartinho destinado às empregadas. Não pode fazer barulho para não incomodar a patroa. Mãe e filha entram e saem pela porta de serviço e usam o elevador de serviço. A menina cresce e começa a estudar numa escola pública do bairro e diz ao patrão da mãe que quer ser médica. Recebe um olhar de desprezo e ouve que é um curso muito concorrido – ou, traduzindo: “pode esquecer que você não vai conseguir”.  

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Essa é a realidade de muitas mães trabalhadoras domésticas e seus filhos no Brasil. A autora retrata o desrespeito que muitas mulheres, a maioria delas negras, sofrem tendo que dormir num quarto minúsculo e sem ventilação. Como no filme Que horas ela volta?, Eunice só enxerga que a relação com a patroa não é justa pelo olhar da filha, que ao ler Quarto de despejo e outros livros, vê que sua mãe sofre humilhações por servir, limpar e cozinhar. Tais funções não deixam de serem honestas. Porém, sabemos que mais de 300 anos de escravidão deixou esse legado de uma total falta de respeito por parte dos mais ricos na forma como eles tratam as pessoas que trabalham em suas casas.

Eunice representa tantas mulheres deste Brasil, que num primeiro momento, temem perder seus empregos, mas no fundo sabem que seus patrões não as tratam bem. Afinal, horas em pé num fogão, sem intervalo para almoçar. E, quando têm, comem em pé ou sentadas no chão e sem poderem comer da mesma comida que os donos da casa. Ora, que relação é essa senão a dos tempos da escravidão? 

Eliana Alves Cruz é uma das grandes escritoras brasileiras nestes tempos (Divulgação)

A autora também não deixa de falar de outras profissões, como porteiro e outros personagens que ficam sempre em segundo plano nas novelas. Jurandir é pai de dois filhos, Cacau é bem estudioso, inteligente e obediente, enquanto o irmão João Pedro é o oposto. Há uma rebeldia em João que compreendemos, pois assim como Mabel, ele não suporta como os moradores tratam o pai. O rapaz não é bobo, ele e o irmão sabem que por trás de muito dinheiro, há muitas sujeira em alguns andares do edifício Golden Plate. Como um ex-militar, que passeia pelos jardins e arredores e esconde muitas coisas; ou a síndica arrogante, que mantém uma senhora trabalhando em sua casa como uma escrava.  

Temas muito atuais e com uma escrita cativante. Solitária é um romance mais que necessário nos dias de hoje, já que aborda o desrespeito com o trabalho doméstico e outros temas tão caros para a nossa sociedade. Eliana Alvez Cruz se revela é uma grande escritora da nossa literatura contemporânea.

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