Viva, Marighella! Obrigada, Wagner Moura!

Assisti “Marighella” na última quarta-feira, 3, e tento neste exato momento em que escrevoesta coluna recordar a última vez que saí do cinema com uma sensação de ter levado um soco no estômago. Talvez quando fui ver “Animais Noturnos” (2016), com seu final ambíguo, ou “A Caça” (2012), com um final angustiante. Ambos são ótimos filmes, mas o longa de Wagner Moura me deixou sem palavras.

Já vi outros filmes e documentários sobre a Ditadura- Civil Militar. Porém, desta vez saí do cinema e voltei para casa pensando em mil coisas no metrô. Que filme foda! Que atuação de Seu Jorge, Bruno Gagliasso e dos atores que interpretaram os estudantes. Ainda bem que não foi para o streaming.

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Obrigada Wagner Moura. Marighella é sim um filme do cinema e dos cinemas brasileiros. É um filme brasileiro e para o Brasil. E assisti-lo em 2021 é uma catarse.

Assisti-o no Estação Botafogo, na Voluntários da Pátria. Comprei meu ingresso no site e a sessão parecia que ficaria vazia. Mas, para a minha surpresa, ao chegar no cinema, vi uma fila se formando. Pensei: ufa! Que bom que as pessoas vieram. O cinema acabou cheia. Viva os cinemas de rua, aliás!

Como este texto não pretende analisar cada cena ou a direção de Moura como uma crítica, quero falar é que Marighella é um filmão que te deixa sem ar. Por duas razões: pelas cenas de ação, muitas, e as cenas de tortura. Eu, que muitas vezes fecho os olhos nas cenas de violência, não fui capaz em Marighella. E é duro ver as cenas de choques elétricos em seres humanos e saber que torturadores ficaram impunes. Nada aconteceu com eles. Ou melhor, viraram heróis. “Este é o país da anistia”, como o próprio Wagner Moura disse no último Roda Viva. “Ampla, geral e irrestrita” era o slogan. Anistia para choques elétricos, “paus de arara”, estupros. Como fechar os olhos para isso? Como não sentir raiva disso?

” Ainda bem que não foi para o streaming”. Assistir Marighella no cinema é uma catarse | Créditos: Arquivo Pessoal

Em muitos momentos do filme parece que estamos juntos com Marighella e seu grupo de jovens estudantes. Vi algumas pessoas se emocionarem ao final da exibição e o grito de “Fora Bolsonaro” soma à experiencia catártica que o filme nos provoca. Ao gritarmos juntos, colocamos para fora nossas emoções e a revolta de estarmos num país que normalizou as mais de 600 mil mortes pela Covid-19.

Por mais que o filme tenha sofrido censura e só tenha chegado às salas de cinema em 2021, sem dúvida, é o momento mais apropriado. Tudo, de fato, tem seu tempo certo para acontecer. E Marighella nos dá a oportunidade de transformar o gosto amargo que sentimos ao ver as cenas mais fortes, de mortes e de tortura, em esperança de derrotar o atual governo em 2022. Este governo que sente saudades da ditadura e que já tentou dar um golpe. E que não vai conseguir. Vai perder. Marighella vive! Fascistas não passarão!

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