Mino Carta e a esquerda vira-lata

Por Felipe Sema

Diante das manifestações insurrecionalistas contra medidas políticas neoliberais que se alastram pela nossa América do Sul, em especial Equador e Chile, o entusiasmo ferveu o sangue da esquerda brasileira, que procura um respiro de esperança em meio a um curso político desastroso de cortes de direitos e políticas sociais, agravados pelas reformas trabalhista e da previdência social.

Em meio ao momento, recentemente o texto-opinião Lição equatoriana: o Brasil carece de um povo corajoso e consciente, de Mino Carta, editor de Carta Capital, se fez notar, como não poderia deixar de ser, dada a relevância que tem o autor e a revista. O texto, seguido de capa em linha similar na edição semanal impressa, é composto por elementos e clichês típicos da direita vira-latista, mas sintetiza o que virou a velha esquerda institucional e governista destes últimos tempos, uma quase direita.

Pelo título, já dá para ter uma boa ideia do que viria nas palavras de Mino. No entanto, além de reforçar os clichês forjados historicamente pela elite brasileira, racista e classista, o jornalista petista de grande renome ignora o papel que a própria esquerda teve nos últimos anos em combater uma radicalização à esquerda.

Começando pelas insurreições de 2013, que hoje renega, mas nas quais a juventude petista (que não tem voz no partido) esteve presente ao lado do Movimento Passe Livre (MPL) em todos os dias, em diversas capitais do país, insistem em dizer que aquilo era “coisa da direita”, mesmo escancaradas a pauta e o caráter anticapitalista daquelas manifestações contra o aumento das passagens do transporte coletivo, desdobradas posteriormente no ”Não vai ter Copa”, voltadas contra as obras faraônicas da Copa do Mundo FIFA e seu financiamento público generoso, além das remoções de diversas comunidades pobres, em quantidade até hoje escamoteada pelo Estado.

Os atos de 2013, de viés anarquista e insurrecionalista, nunca foram contra o Governo Dilma, e sim contra uma estrutura política e econômica. Nunca se havia gritado “Fora Dilma”. Isso durou até a burguesia e sua mídia, que até então exigiam respostas violentas do Estado, cooptarem e manipularem a narrativa e as causas daqueles atos, colocando os chamados coxinhas nas ruas do país (de 17 de junho em diante).

Rio de Janeiro, 17 de junho de 2013 | Crédito: Ricardo Berriel

Fizeram tal movimento por notar que o PT não tinha mais o poder de colocar e tirar as massas das ruas, vendo nesta situação uma brecha para desestabilizar o governo federal e, a grosso modo, retomar a chave do cofre sem a incômoda mediação de uma expressão política forjada pelas massas. Ficara claro que ainda existia um descontentamento popular que se estendia bastante além da base popular do PT (e também ficou clara como a ineficiência do partido de Lula em mudar a correlação de forças no oligopolizado setor midiático cobrou seu preço).

Além de vasta bibliografia dos anos imediatamente seguintes, tal fenômeno já foi muito bem explicado em materiais diversos – textos, podcasts, programas e entrevistas – em veículos da “esquerda não alinhada”. Ao invés de se aliar ao povo revoltado, compreender suas demandas e apontar os acontecimentos como prova da necessidade de reformas mais profundas no país, a esquerda hegemônica preferiu criminalizar os atos.

Nunca é demais reforçar: o MPL não tinha força de mobilização de grande amplitude nacional e nem acúmulo de experiências anteriores para continuar liderando aqueles levantes depois de conquistado o objetivo de barrar o aumento. Portanto, a esquerda institucional, que tem bala na agulha e poder de mobilização amplo, é quem deve ser cobrada e responsabilizada pela guinada à direita daquela insatisfação popular.

Desde então, praticamente todas as oportunidades da esquerda institucional em se defender do que estaria por vir dos ataques da direita ficaram marcadas pela imobilidade. Ou quase isso. Sempre acatando as regras do jogo da democracia liberal, diferentemente de seus oponentes, tal esquerda viu-se desmoronar num impeachment claramente ilegítimo de Dilma, aceitou pacificamente a assunção à presidência do vice golpista Michel Temer (uma grande escolha para vice, diga-se de passagem), que congelou em 20 anos verbas para “gastos” públicos em áreas como educação e saúde, convocou manifestações de “Fora Temer” que ela mesma freou e fez recuar, no exato momento em que o “vampirão” ensaiava cair, o que a própria TV Globo chegou a anunciar precipitadamente.

O cálculo mesquinho falou mais alto e a salvação seria esperar a eleição de Lula (ideologicamente antissocialista e anticomunista), que cairia triunfalmente nos braços do povo. Erraram e deixaram-no pacificamente entregue para ser preso depois de um julgamento evidentemente fraudulento.

“Ué, mudou?” | Crédito: Reprodução

Era uma boa hora para radicalizar as ruas e a própria base diante de uma indignação que era generalizada. Convocaram greves de grande adesão popular, mas que não tocaram adiante; centrais, como a CUT, negociam seus impostos sindicais e depois abandonam o povo à própria sorte, a encarar cortes e o pacotão neoliberal das reformas trabalhistas e da previdência; aceitaram pacificamente uma eleição comprovadamente fraudada, regada a Caixa 2 e esquemas ilegais de financiamento; dois dias depois da vitória de Bolsonaro, a Frente Povo Sem Medo e centrais sindicais estavam na Avenida Paulista com Guilherme Boulos discursando que estariam em luta e que Bolsonaro era presidente, mas não imperador (ou seja, deixava-se clara a aceitação da eleição como legítima, ao invés de atacar a fraude e não aceitar os resultados eleitorais, coisa que o próprio protofascista avisara que faria caso o resultado não fosse sua vitória). Assim, o ano de 2019 começou sem grandes mobilizações nas ruas e, pelo visto, nenhuma pretensão neste sentido.

Dessa forma, só podemos concluir que essa esquerda odeia a insurreição. E se acontecer (de novo), tirará o pé. No máximo colocará o “Lula livre” no meio (pauta que nem sequer radicaliza) e denunciará o “vandalismo”, como em outras vezes. Ou dirá que se derrubarem o Bolsonaro, o vice Mourão é pior e que o correto a se fazer é um recuo “estratégico”, aguentando bravamente o pacotão neoliberal até a próxima eleição.

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Chegará 2022 e a nossa única saída será algum petista ou alguém daqueles que nunca sequer pronunciam termos como luta de classes, socialismo, greve geral. E quando cobrarmos que se pronunciem estas palavras ou algo parecido, aparecerão os eruditos que mandam “pobre de direita ir estudar”, citarão Lênin e seu “Esquerdismo, a doença infantil do comunismo”. Tudo para manter cargos, verbas e uma burocracia estatal, benesses conquistadas em mais de uma década governando e apertando a mão do pior tipo de gente que existe na política brasileira.

Por tudo isso, e mais uma série de decisões da cúpula partidária que tornariam o texto interminável, a análise de Mino Carta é cega, caduca, preguiçosa e quase supremacista, pois culpa o pobre pelo nosso infeliz cenário atual. É bem a cara do que se tornou esta esquerda, branca, arrogante, que formou sua pequena aristocracia e assim como a direita lutará pra manter seus privilégios. É de grande covardia um sujeito com a estatura de Mino nos dizer que falta coragem e consciência ao povo brasileiro. Uma vergonha.

* Felipe Sema é livreiro e trabalhador autônomo paulistano, colaborador de mídias e movimentos autonomistas.

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Um comentário em “Mino Carta e a esquerda vira-lata

  • 29 de outubro de 2019 em 15:03
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    ótima síntese do engodo que querem nos fazer sustentar indefinidamente.

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