O negacionismo progressista e o respeito seletivo à ciência

* Por Eduardo Sá Barreto

No texto Capitalismo x Ecologia: 11 mil cientistas contra o negacionismo paranoico, que publiquei aqui neste Lado B do Rio, na última semana, me referi rapidamente a um tipo de negacionismo que chamei de progressista. Usei este termo para indicar uma forma de fé no desenvolvimento econômico como algo que necessariamente traz progresso.

Não são poucos na esquerda que até hoje sofrem dessa espécie de saudosismo da “Era de Ouro” do capitalismo, supondo que o tal desenvolvimento deve antes solucionar todos os nossos problemas sociais para que, só então, possamos enfrentar nossos desafios ecológicos/climáticos. Alegam que a ideia de decrescimento (da produção e do consumo) é absurda e tem certo sotaque imperialista, pois aprisionaria várias nações do mundo em uma situação de miséria. Os países ricos, dizem, têm o poder geopolítico e econômico de impor o decrescimento àqueles que menos poderiam ainda decrescer.

Isso, claro, é verdade. De fato, é muito implausível imaginar que as grandes potências do mundo voluntariamente abririam mão de uma parte substantiva de sua afluência material. Mas, de resto, o raciocínio é uma constelação de erros.

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Em primeiro lugar, um erro de caráter histórico. Apenas um pequeno punhado de países conseguiu alcançar um estágio de desenvolvimento econômico que viabilizasse uma rede de proteção social razoavelmente abrangente e universalizada. Mesmo entre esses países, há aqueles em que frações não desprezíveis da população vivem em situação de penúria material. A história do século XX nos mostra portanto que o tal desenvolvimento é uma experiência extremamente rara. Quando os negacionistas progressistas colocam o desenvolvimento econômico como pré-condição da mobilização ecológica disruptiva, o que fazem, a rigor, é interditar de saída o enfrentamento das questões climáticas.

Em segundo lugar, um erro de natureza política. Reconhecem corretamente que não existe nenhuma predisposição das potências globais em abrir mão de seu modo de vida dispendioso. Por outro lado, parecem supor que, por algum mecanismo espontâneo mágico, essas mesmas potências tolerariam bovinamente uma ascensão em massa de todas as demais nações do globo e todas as perturbações que isso acarretaria na divisão internacional do trabalho e nas hierarquias de poder.

Terceiro, há um equívoco quantitativo. Segundo dados apresentados pelo professor Luiz Marques em seu monumental Capitalismo e colapso ambiental, as 3 bilhões de pessoas mais pobres da humanidade emitem apenas 7% do CO2 anual. Ao mesmo tempo, apenas 8% da população mundial detém mais de 80% da riqueza global. Além disso, estudos mais recentes recomendam que as emissões globais sejam reduzidas à metade no curto prazo e a zero no médio prazo. Essas três informações reforçam a intuição do parágrafo anterior. Da mesma maneira que não há motivos para alimentar ilusões de um decrescimento voluntário e generoso dos países do centro, não há motivos para acreditar que eles “autorizariam” nosso desenvolvimento (como quer que interpretemos esse termo). Na verdade, é mais razoável imaginar que as grandes potências estejam diretamente interessadas em nosso completo extermínio. E, como indica a grandeza das emissões da metade mais pobre (7%), nem mesmo isso seria suficiente.

Ouça aqui: Lado B do Rio #124 – Capitalismo x Ecologia

Por último, e mais grave, encontramos um erro sistêmico. A negação paranoica da existência das mudanças climáticas costuma inspirar escárnio e chacota nas fileiras do campo progressista, porque é flagrantemente anticientífica. No entanto, a postura pretensiosa muda completamente quando a ciência passa a indicar que as mudanças já são irreversíveis e abruptas, que estamos, portanto, em meio a uma crise climática e que um colapso climático é uma possibilidade bastante palpável (e até mesmo provável). Por isso, no título, associei o negacionismo progressista a um respeito seletivo à ciência. Só ignorando completamente os avanços recentes de nossa compreensão a respeito das mudanças em curso é possível rejeitar a ideia de que estamos diante de uma situação de emergência climática.

Mesmo se nós admitíssemos que o desenvolvimento econômico é uma meta desejável e realizável universalmente nos marcos econômicos e geopolíticos do capitalismo, o que a produção científica mais recente nos informa é que não há mais tempo. A alternativa não é mais entre riqueza ou pobreza, afluência ou penúria, conforto ou miséria. Nesse momento, a alternativa real que nos defronta é entre a sobrevivência da espécie ou sua virtual eliminação da face da Terra. É entre revolução ou extinção!

* Eduardo Sá Barreto é professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisador do NIEP-Marx e autor do livro “O capital na estufa: para a crítica da economia das mudanças climáticas.

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