A nova farsa do capitalismo: os patinetes elétricos

Após trabalhar quase um ano para uma das empresas originais de operação de patinetes elétricos de aluguel, surgida no Vale do Silício, possuo algumas reflexões para compartilhar sobre o modelo de uso e as premissas vendidas por essas empresas em particular, como Lime e Bird.

Os principais pontos de venda dessas empresas é que se tratam de produtos verdes e que trazem soluções de trânsito para as cidades. Vamos explorar as premissas uma a uma:

A questão da pegada de carbono é uma questão central da propaganda dessas empresas, chegando ao ponto de colocar ao final da viagem o tamanho da economia de carbono para atmosfera que a viagem representou. Mas, claro, este número não considera a pegada de carbono necessária para fabricar e transportar o patinete, majoritariamente de plástico, e com uma durabilidade bastante questionável. Também desconsidera o combustível gasto pelos que recolhem patinetes elétricos para recarga.

A carga em si é apenas tão verde quanto a matriz energética de cada local. O resto, melhor ignorar. Soma-se a isso a questão da durabilidade dos patinetes elétricos, que chegam a durar apenas 28 dias em cidades como Louisville, nos EUA, e ainda menos em cidades calçadas com paralelepípedos como Lisboa e Praga. Ou seja, estamos diante de produtos praticamente descartáveis sendo vendidos falsamente como ecológicos.

O descaso com a questão ecológica chega ao extremo quando essas empresas não fazem esforços para coletar patinetes elétricos jogados em corpos d’água, algo que notei ser bastante comum. Elas deixam que o poder público local se vire para remover o material tóxico.

Quanto à questão de soluções de trânsito, o argumento de transporte na última milha também não se sustenta. Para garantir a rentabilidade dos patinetes elétricos, as empresas usam um sistema de geofencing, uma delimitação da área de uso por GPS, forçando os produtos a serem operados em zonas de alta densidade, já abarrotada de pedestres.

Dessa maneira, os patinetes elétricos estacionados atrapalham o fluxo de pedestres e os usuários que não respeitam a necessidade de rodar apenas nas ruas, o que é uma parcela significativa deles, e ainda tumultuam o fluxo das calçadas e causam acidentes.

Para as rotas de fato radiais em relação aos principais troncos de transporte, os patinetes têm seu acesso negado ou restrito, pois não é de interesse das empresas que os mesmos fiquem estacionados em locais de baixo movimento de pedestres.

Ademais, os responsáveis pela coleta de patinetes têm rotinas bem cansativas e mal remuneradas. Não trabalhava neste setor, mas pelo que pude apurar, o valor pago era de mais ou menos 1 a 2 euros por recarga, e a empresa intencionalmente evitava depender demais de poucos recarregadores, dando cotas de 4 a 10 patinetes elétricos por pessoa. Caso a estrutura terceirizada ficasse na mão de poucas pessoas, o poder de barganha deles para melhorar os valores seria por demasiado grande.

Concluindo, o modelo parece ter uma tremenda dificuldade de se provar financeiramente viável e cria uma enorme quantidade de lixo tóxico nas baterias de lítio e no uso de recursos naturais para satisfazer uma necessidade difusa que não atende a maioria esmagadora dos cidadãos, que são fortemente selecionados por preço, uma vez que se trata de um serviço caro. No Brasil, o custo para desbloqueio é de 3 reais, sendo 0,50 por minuto de uso, enquanto nos EUA, 1 dólar e 18 a 29 centavos de dólar por minuto, respectivamente.

Leia também: Tarcísio Motta: “A esquerda precisa oferecer um horizonte de ruptura”

Terrenos com pedras portuguesas diminuem a durabilidade já baixa dos patinetes elétricos

O que tem por trás dessa moda?

O que parece motivar esse tipo de iniciativa é a chamada Ideologia Californiana, um movimento liberal/conservador que pauta que a tecnologia inovadora de alguns gênios é tudo o que o mundo precisa para ter todos os seus problemas solucionados. Por isso, após um período de testes de um final de semana em San Diego, essas empresas foram aceleradas por investidores de tecnologia na ordem de centenas de milhões de dólares.

Infelizmente, soluções mágicas não existem e problemas de ordem coletivas não são solucionados com propostas individualistas.

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5 comentários em “A nova farsa do capitalismo: os patinetes elétricos

  • 24 de julho de 2019 em 00:08
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    O MESMO VALE PARA O MITO DA COLETA SELETIVA DE LIXO E OUTRAS BABOSEIRA ROCAMBOLESCAS LIBERAIS.

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    • 2 de setembro de 2019 em 01:54
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      Sou Rafael Jesus, leitor do site, ouvinte do podcast e telespectador do canal no YouTube. Fico muito feliz por ter descoberto vocês em meio ao caos social e moral que vivemos e aqui venho agradecer pelo ótimo texto, colocação das palavras e por me manter ainda mais reflexivo sobre o mundo atual.

      Obrigado por me salvar do pior.

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  • 27 de julho de 2019 em 18:11
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    É uma fraude financiada por milionários.

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  • 2 de setembro de 2019 em 16:01
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    Não duvido do que você está falando, mas só por iluminação, você traduziu o texto ou realmente trabalhou para uma empresa dessas – escritório que prestava assessoria jurídica? – Não ficou claro, ao menos para mim. Só para eu não ser pego de calças curtas quando eventualmente eu comentar com alguém e me perguntarem sobre a fonte.

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    • 3 de setembro de 2019 em 15:31
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      Oi Taz! O Alcysio realmente trabalhou em uma dessas empresas 🙂

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