Para economista britânico, momento é de propor novos paradigmas e repensar a organização do trabalho

O Lado B do Rio, cada vez mais rompendo as fronteiras fluminense, entrevistou o economista marxista britânico Michael Roberts. O professor esteve na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, no mês de junho, para participar do XXIII Encontro Nacional de Economia Política.

No congresso, Roberts falou sobre Política de Austeridade, em um painel coordenado por João Leonardo Medeiros, convidado do podcast Lado B do Rio #71, sobre Marxismo.

Nesta entrevista, o economista conclama os trabalhadores à lutarem contra os projetos de austeridade implantados pelo capitalismo, reclama da ausência de políticas econômicas da doutrina de Marx até por parte dos quadros de esquerda e analisa a política britânica e europeia. Confira:

Lado B do Rio – O senhor afirma que a austeridade não é um projeto criado por idiotas, mas por gente esperta, que leu Marx e entendeu a melhor fórmula para manter a taxa de lucro corporativo. Mas como pensar nessa questão sob uma perspectiva marxista?
Michael Roberts – Primeiramente, do ponto de vista do trabalhador, é essencial lutar contra qualquer tentativa de corroer o estado social e as vitórias alcançadas pelos trabalhadores do passado de toda a natureza. Então, a luta contra austeridade é fundamental. Do ponto de vista do capitalista, a única forma de aumentar a taxa de lucro é através de austeridade e da criação de superávits fiscais.
O senhor também reclamou do ostracismo dos economistas marxistas nos debates dentro da esquerda, especialmente dentro do partido trabalhista inglês. O senhor teme que no lugar da lógica de alternativa à política estabelecida por Thatcher, estejamos caindo no erro do “só temos uma alternativa”, a lógica keynesiana?
MR – Isso infelizmente está correto. Se dá em parte pela crença na lógica keynesiana em si, mas também pelo medo. Qual é a alternativa marxista? É repensar a sociedade, repensar a organização do trabalho, trazer as empresas para controle dos trabalhadores, de fato revolucionar a sociedade. Será que vai funcionar? O que os capitalistas farão para reagir? Então, dentro de um partido é difícil vender uma ideia que você acredita, mas no fundo, não tem certeza se vai funcionar. Então, vamos para reuniões onde todos são contra a austeridade, mas todos tem medo da revolução.
Sobre o Reino Unido: como o senhor vê a liderança de Corbyn no partido trabalhista e suas propostas de nacionalização de eletricidade, gás, água e transportes e se esse é o caminho ideal para a esquerda no mundo atual?
MR – Na minha opinião, não são plataformas nada radicais. Transportes e energia são nacionais em boa parte do continente europeu. Corbyn não fala em nacionalizar os bancos, por exemplo, que destruíram a economia britânica recentemente. Mas essas ideias, que tem uma visão extremamente favoráveis com o povo, são brutalmente atacadas pela mídia, que o chama de radical o tempo todo, o que demonstra a dificuldade em fazer qualquer mudança à esquerda. Por isso, acredito que o ideal seria ser radical de verdade e propor novos paradigmas.
O senhor citou bastante a União Europeia (UE) na sua palestra. Yannis Varoufakis, ex-ministro da fazenda da Grécia, é líder de um movimento que propõe reformar a UE por dentro, democratizando-a de forma pró trabalhista, por assim dizer. Como o senhor vê essas tentativas?
MR –  Yannis está sendo muito otimista. O movimento dele tem pouca penetração nos países para eleger os representantes, então, não está funcionando. De toda forma, acho a visão dele muito moderada, com medo de ser radical, tentando ser um moderado que não tem propostas com chances de mudar algo da UE. Ele certamente dá que estou errado, já que se autoproclama marxista.
Na palestra, o senhor fala de limpeza do capitalismo no sentido de assegurar os capitais, com as fusões e aquisições. Mas na 4ª revolução industrial, onde o trabalho está sendo brutalmente automatizado, existe a chance de nós, os trabalhadores, sermos limpos, exterminados pelos grandes capitalistas?
MR – Eu tenho escrito bastante sobre a escalada da industrialização e do desaparecimento de empregos, inclusive de economistas, já que eles mesmos reduzem seu trabalho a análise estatística e econometria. Mas a tecnologia sempre foi ótima em reduzir os trabalhos repetitivos e criar novas realidades. Mas é claro que existe a possibilidade de substituir o trabalhador se isso aumentar a taxa de lucro e isso pode levar a conseqüências perturbadoras no futuro.

Um comentário em “Para economista britânico, momento é de propor novos paradigmas e repensar a organização do trabalho

  • 19 de setembro de 2018 em 15:28
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    Desculpe mas vou ser acido e rasteiro: a única maneira de aplicar essas “tais reformas” é imitando os métodos neoliberais de fazer com que as mudanças sejam interpretadas como uma fatalidade inexorável. Uma vez que haja duvida ou incerteza, os ditos “trabalhadores” irão se agarrar no status quo como um gato com medo de agua, mas não como uma forma heroica de resistência mas um medo protofascista de perder algum privilegio imaginário, da mesma forma que os escravos(desenraizados e sem consciência de classe, eu sei…) temiam a liberdade e preferiam o “conforto” do chicote do senhor de engenho.

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