Enquanto o Flamengo de Jorginho morre, o Flamengo de Landim abraça Bolsonaro

Os sorrisinhos canalhas de Rodolfo Landim e Jair Bolsonaro na reunião de terça-feira (19) que juntou os presidentes do Flamengo e Brasil correspondem mais do que uma simples pose para uma foto. São símbolos de uma escolha feita pelo executivo que manda no clube: o abraço ao neofascismo que transforma o rubro-negro da Gávea, o time de maior torcida do país, no clube-modelo do bolsonarismo.

O momento da reunião mostra o timing perfeito para representar essa união nefasta. Enquanto o Brasil contava seus milhares de mortos pela Covid-19, incluindo aí o simbólico massagista rubro-negro Jorginho, Landim e Bolsonaro faziam lobby para que se volte a jogar bola, vilipendiando cadáveres de brasileiros. E, claro, de flamenguistas.

Não é de agora que dirigentes de clubes de futebol fazem questão de se alinhar ao poder vigente. Da Série A à Série D, de Norte a Sul, aqui ou lá fora, cartolas gostam de se tornar políticos, e vice-versa. Para isso, recorrem a essas fisiológicas “amizades”. Há um enorme número de casos que comprovam isso, seja em regimes democráticos ou autoritários, seja de esquerda ou de direita.

Hoje, numa análise rápida e ainda sim certeira, dá para cravar que quase todos os dirigentes estão alinhados ao poder, seja o nacional, estadual ou municipal. O fato é que a imensa maioria bajula presidentes, governadores, prefeitos e parlamentares por interesses. Próprios, de projeção de carreira; ou de seus clubes, como amortização de dívida, aquisição de terreno, empréstimos, mudança de regulamentos, etc.

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Já os dirigentes atuais do Flamengo, eleitos também no final de 2018 tal e qual Jair Bolsonaro, visitaram o Planalto no meio de uma pandemia por pura identificação. É intrínseco, natural a eles. São frutos da mesma árvore.

Jorge Luiz Domingos, o Jorginho, massagista do Flamengo por 40 anos, morreu aos 68 anos, vítima de Covid-19

Patricia Amorim ou Márcio Braga, ex-mandatários do clube, provavelmente sentariam com Jair Bolsonaro pelos interesses do Flamengo, como já conversaram com Lula ou FHC.

O próprio Landim também mostraria um sorriso para Dilma, ou Ciro, ou Boulos, na tentativa de garantir interesses do Flamengo (ou supostamente).

Mas toda essa babação de ovo, essa chupação de saco em torno de um político, é algo que nunca foi visto. Landim – e não só ele, mas também a imensa maioria dos vices e diretores rubro-negros – faz questão de aparecer com o canalha presidente do Brasil de dois em dois meses. É uma admiração mútua, identificação natural e verdadeira.

E a via é de mão dupla, obviamente. Enquanto os dirigentes lambes suas bolas, o neofascista se aproveita do clube mais popular do país para tentar angariar votos e aumentar a sua decadente popularidade, claro.

O fato é que a pouca mas corajosa resistência democrática terá um árduo trabalho pela frente para limpar a imagem do Flamengo quando toda essa canalha passar. E ela vai passar, mais dia, menos dia. E por resistência, cito aqui principalmente o Flamengo da Gente, grupo de sócios e torcedores que luta por um clube democrático, do qual me orgulho de ser um apoiador. Ou mesmo a carta-manifesto da hoje enfraquecida torcida organizada Jovem Fla. Ou ainda os atos individuais e de pequenos grupos.

A identificação e o amor genuíno é tamanho que o clube faz descaradamente este jogo político de Bolsonaro sem sequer tentar se manter neutro ou apenas no campo institucional. Fotos, sorrisos, camisas, mensagens, tudo para mostrar que estão mesmo ao lado da figura mais escroque passou pela cadeira da presidência da antiga República Federativa do Brasil – hoje uma teocracia miliciana.

Resumidamente, afirmo que quem comanda Flamengo e Brasil é o mesmo tipo de gente: antipopular, autoritária, elitista, vil e interesseira.

Repito: não é mera aliança fisiológica ou de interesses, como outros canalhas de clubes co-irmãos também fazem questão de fazer.

Landim e Bolsonaro se reconhecem. É atração ideológica. Tanto o presidente quanto a maioria de seus vices e assessores poderiam facilmente estar em cargos públicos de alto escalão por escolha de Bolsonaro.

Mas eles estão no Flamengo, lugar com muito mais visibilidade e popularidade que a maioria dos oferecidos em Brasília.

O fato é que a imensa Nação Rubro-Negra, formada também por gente trabalhadora, honesta e humilde, como Jorginho, e que preza pela democracia, precisa de um registro grande, marcante, de que não é toda a coletividade flamenguista que está ao lado do neofascismo, do negacionismo da ciência, do “e daí” enquanto a doença ceifa vidas. Será preciso algo histórico para por como vírgula desse alinhamento ideológico. Não sei o que, aceito sugestões.

Se trata de uma mancha irreparável, uma fratura exposta na imagem do clube mais popular do país ser reconhecido como clube do regime Bolsonaro.

3 comentários em “Enquanto o Flamengo de Jorginho morre, o Flamengo de Landim abraça Bolsonaro

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