Incêndio no Ninho do Urubu: o esquecimento como amigo da barbárie

Neste sábado, dia 8 de fevereiro, o incêndio no Ninho do Urubu que matou 10 adolescentes que queriam ser jogadores de futebol completa um ano. No mesmo dia, o Flamengo entra em campo no Maracanã para enfrentar o Madureira, às 18h.

Será, então, uma excelente oportunidade para o clube preparar lindas homenagens pelos “seus Garotos do Ninho”, como assim são chamados pelos torcedores as vítimas fatais do incidente: Arthur, Athila, Bernardo, Christian, Gedson, Jorge, Pablo, Rykelmo, Samuel e Vitor, todos entre 14 e 16 anos.

Acontece que, até hoje, não houve nenhuma homenagem relevante partindo do clube, excetuando-se uma fitinha preta aqui ou ali. Nem mesmo na ocasião dos títulos do ano passado o Flamengo lembrou de “seus garotos”. O ano de 2019, tão marcado pelas conquistas e pelo futebol vistoso apresentado em campo, é o mesmo em que o cinza manchou de maneira definitiva o pavilhão vermelho e preto.

Mas os poderosos que controlam o clube de maior torcida do país parecem não ligar para isso.

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Como diz Mário Magalhães, o esquecimento é amigo da barbárie. E é no silêncio que a diretoria do Flamengo – incluindo a da gestão anterior, responsável pela construção da estrutura que pegou fogo – apostou durante os últimos 365 dias. Este silêncio culpado só foi quebrado em poucos pronunciamentos, como o patético feito pelo canal oficial do clube na semana passada, sem direito a perguntas. E, nas poucas vezes em que foram confrontados por repórteres, os cartolas saíram pela tangente e não deram respostas concretas.

Landim e seu antecessor Bandeira: quem mudou o Flamengo administrativamente não sabe lidar com vidas.

Não há comunicação sobre o que acontece com o inquérito interno, por exemplo. Tampouco sabe-se de detalhes de acordo com as famílias (alguns fechados, outros arrastados no Judiciário). Não há notícias também sobre o trabalho pela memória das jovens vidas ceifadas no incidente.

Será nesse sábado que a diretoria quebrará o gelo e prestará alguma homenagem no dia em que se lembra o primeiro ano do incêndio no Ninho do Urubu?

E, caso homenagens sejam feitas, farão sentido para os parentes e amigos das vítimas? Serão pertinentes vindo de um clube que cisma em barganhar por acordos e silencia pelas investigações?

E os jogadores? Os astros milionários estão autorizados pelos seus superiores a falar, fazer dedicatórias, tocar nessa ferida? Na ocasião do título da Libertadores, poucos mexeram no assunto, e os que fizeram, o fizeram de maneira bastante discreta.

E a torcida rubro-negra? Sabe-se que algumas importantes ações estão programadas por grupos de torcedores, como o Flamengo da Gente.

Mas elas serão abraçadas por todas as organizadas, por exemplo? Até onde os flamenguistas que frequentam o Maracanã estão dispostos a ir para defender a memória dos “seus garotos” e justiça para as famílias? Cantar aos 10 minutos de todo jogo é bonito e importante. Mas não podemos fazer mais?

Neste sábado, completa-se um ano de muitos questionamentos quanto à relação futebol-vida. Muita coisa mudou em mim após o incêndio no Ninho do Urubu. Perguntas internas, feitas, refeitas, mas que sempre voltam a cada gol do Gabigol. Questões externas, nunca respondidas completamente pelas autoridades e por quem representa o clube, deixando a impressão que só a gente se importa.

Em meio às vitórias em campo, e foram muitas em 2019, me peguei triste e decepcionado em viver numa sociedade onde um clube milionário, através de seus diretores vindos da burguesia e da elite, barganha e endurece para indenizar famílias que perderam seus filhos enquanto negocia livremente, como se nada tivesse acontecido, para pagar salários milionários a meros jogadores de bola.

Em meio a essa paradoxo de torcer e se indignar, registro que, por memória, verdade e justiça: nós não esquecemos dos Garotos dos Ninho.

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