The Intercept e o poder do silêncio

Já é famosa dentro e fora do próprio campo a “autofagia” da esquerda: “Só se une na cadeia“, dizem há décadas. Verdade seja dita que até o conceito “esquerda” é batido, vago e não ajuda nesta “união” de forças ideológicas semelhantes – nem em momentos de crise democrática como o atual. Afinal, repare o que está à sua esquerda neste momento, sem nenhum corte para delimitar. Muita coisa né? Imagina à esquerda de Crivella, Witzel, Dória, Bolsonaro…

De qualquer forma, vamos tentar colocar nesse imenso balaio de gatos gente que: reconhece o poder vigente atual como neofascista; sabe que é a extrema desigualdade social a principal mazela do mundo; renega a meritocracia como ideia de ascensão econômica; percebe que o genocídio negro e a limpeza social no Brasil estão mais acelerados do que nunca; sabe que, desde 1500, há mais invasão do que descobrimento.

Esse recorte, que parece grande, já tira a máscara de muita gente.

Mas não de todo mundo.

Se não vejamos: o que leva um veículo que adota todos esses conceitos como o The Intercept Brasil a cometer um texto (assinados pelos repórteres Tatiana Dias e Rafael Moro Martins) em que chama Lenin de ditador, renegando a importância histórica de uma revolução popular como a liderada pelo russo?

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Ora, ninguém é obrigado a concordar com a homenagem da deputada socialista Talíria Petrone (PSOL-RJ). Mesmo assim, quem está neste recorte político precisa saber que ela é uma das que luta ao nosso lado no atual momento. Inclusive, sendo quadro do mesmo partido do marido de Glenn Greenwald, o também deputado federal pelo Rio de Janeiro, David Miranda. Glenn é fundador e colunista do site e vem sendo atacado pela extrema-direita de todas as formas possíveis após a Vaza-Jato. Ou seja, o veículo deveria ter aproveitado esse momento para fazer algo bem melhor: ficar calado.

Mas resolver falar. E falou merda: para dizer que a deputada fluminense “deu munição à direita”, cometeu um texto eivado de “doisladismos”, jogando às favas as diferenças conceituais e dando… mais munição à direita (como se os reaças nacionais do zapzap que governam ou que elegem precisassem disso).

The Intercept: jornalismo independente com opiniões iguais as dos veículos hegemônicos.

Ora, convenhamos que o debate da Revolução Russa e da experiência soviética é permeado de diversos pontos contraditórios debatidos (até em excesso) pelos comunistas da academia, divididos em clãs que seguem os três líderes revolucionários. Particularmente, eu, que sigo e admiro alguns desses acadêmicos, morro de tédio quando os vejo debatendo o episódio mais que centenário com um afinco que não retrata a realidade do trabalhador brasileiro. Acho, no mais puro achismo empírico e leigo, que se perde um tempo precioso disputando quem foi melhor entre Lenin, Trostky e Stalin enquanto a mamadeira de piroca chega no grupo dos crentes da Baixada Fluminense e o trabalhador do Vale do Jequitinhonha fica sem aposentadoria. Muitas vezes, a discussão é mais uma competição de punheta acadêmica. Mas ok, isso é outro papo.

O fato é que, se esse assunto de tamanha importância para os trabalhadores do mundo não consegue sair das rodinhas marxistas das universidades e ganhar a base, deve-se muito ao trabalho da comunicação empresarial. É praticamente impossível ler ou assistir uma reportagem sobre qualquer revolta anticapitalista sem um viés totalmente negativo. Espera-se isso da Folha de São Paulo ou da Rede Globo. Mas do The Intercept?

Para que o bom debate sobre os conceitos marxistas estudados e aplicados pelos revolucionários soviéticos vá às ruas, é necessário veículos que entendam a causa e comprem a briga de dar um novo ângulo sobre o comunismo, o socialismo, o marxismo, o anarquismo – enfim, qualquer viés anticapitalista. Mas ao publicar esse tipo de material, o The Intercept Brasil demonstrou, mais uma vez, que não é um deles.

Apesar do bom faro jornalístico que ajuda a denunciar os esquemas e o autoritarismo do atual governo, o braço nacional do site gringo demonstrou estar mais alinhado com os veículos hegemônicos do que parece.

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Um comentário em “The Intercept e o poder do silêncio

  • 30 de janeiro de 2020 em 22:20
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    Excelente texto! Uma escrita fluida e leve, ao mesmo tempo que é corajosa o suficiente para dar o nome aos bois.

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