No Rio de Janeiro, até o “lado A” está abandonado

Não adianta: cedo ou tarde chega aquele momento de sair caminhando pelas ruas em busca de inspiração para escrever. Quem escreve sabe que isso pode acontecer, seja em um dia ou com uma certa frequência. Aproveitando que já tinha agendado uma consulta no Leblon com minha endocrinologista – a mais carinhosa que existe, a que perdoa e entende quando você sai da dieta – caminhei pelas ruas do famoso bairro do Rio de Janeiro conhecido pelas novelas de Manoel Carlos.

Mas o Leblon de 2021 é bem diferente; é triste. Até a personagem Helena se surpreenderia com os buracos nas calçadas, ruas escuras e sem iluminação e muitos moradores de ruas. Andei boa parte do bairro, desde a Avenida Ataulfo de Paiva, na altura da rua General Artigas até a Visconde de Pirajá, esquina com a Garcia d’Avila.

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Eu vi casais de moradores de ruas, vi até um cachorro que eu rezei para que estivesse comendo uma ração e não outra coisa. Um morador chegou a mexer em suas partes intimas quando passei perto dele, quis mudar de calçada caso ele tentasse fazer alguma coisa, mas percebi que ele estava mesmo coçando o seu saco. “Deixa ele”, pensei.

Ao chegar na Praça Antero de Quintal, vi barraquinhas de comidas e pessoas correndo para pegar o metrô. Imaginei os moradores do bairro que foram contra à chegada da linha 4 em 2011. O que eles devem pensar hoje? Certamente continuam a achar que a praça é deles e ignoram que, ao menos, a estação do metrô dá emprego aos vendedores de lanches que oferecem um preço mais acessível aos que não podem pagar 15 reais por um suco e um salgado, valor esse em qualquer lanchonete do Leblon.

Símbolo de um Rio de Janeiro branco e elitizado, nem o Leblon das novelas de Manoel Carlos existe mais (Reprodução)

Passo em frente ao antigo Cinema Leblon e fico sem palavras. Foi ali que vi pela primeira vez Harry Potter e a Pedra Filosofal e tantos outros filmes. O cinema foi fechado em 2015 para obras e passaria a ter um centro comercial, ou como essas pessoas gostam de dizer: “um mall”. Sim, um mall como o João Dória gosta de dizer. E hoje há uma fachada que eu não consigo entender muito bem o que é. Triste.

Os cinemas de bairro estão cada vez mais raros. Continuei andando e ajudo uma senhora a levantar-se. Ela não viu um dos vários buracos na calçada e caiu. Seu joelho estava sangrando e procuro pelo chão algum objeto seu, caso tenha caído. Ela disse que mora perto e agradece a ajuda. Penso em dar uma volta na Livraria da Travessa no Shopping Leblon, porém uma volta significa comprar mais um livro e já estou lendo três. Quem sabe outro dia.

Atravesso o Jardim de Alah, que por sinal, está abandonado também, muito antes das obras do metrô. É um espaço bonito, divide os bairros do Leblon e Ipanema e deveria ter um parquinho para as crianças brincarem, atividades para a terceira idade. Hoje é um local escuro, perfeito para assaltos e assusta quem passa por perto. Encontro uma amiga que me conta uma notícia triste: sua sogra faleceu devido as complicações da COVID-19. Nos abraçamos por um longo tempo. O vírus continua por aí e é preciso tomar cuidado, usar máscara e higienizar as mãos.

Continuo a minha caminhada agora pela Visconde de Pirajá e olho para outro cinema fechado, o Estação NET Ipanema. Espero que abra em breve mesmo, como está escrito no letreiro. Esse cinema certamente não será um mall, sinto até um alívio. Vejo mais moradores de rua, ouço um elogio de um: “bonita”. Acenei com a mão agradecendo.

Já estou perto de casa e tento contar quantos moradores de rua vi, acho que mais de cinco. É nesse momento que vejo um casal de moradores e um cachorrinho comendo.

Essa é a realidade de uma cidade abandonada. Se um dos bairros da Zona Sul se encontra assim, imagine agora os demais bairros do Rio de Janeiro. Não é culpa da COVID-19 ou da crise financeira, é má gestão. É o resultado de anos de descuido. É uma cidade abandonada pelos seus governantes.

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