Se importa com Cuba? Defenda o fim do bloqueio!

O início dessa semana foi marcado por uma discussão que há muito tempo não se via com tamanha intensidade: o regime socialista cubano. Manifestações em Cuba aconteceram no domingo, contra o governo de Miguel Díaz-Canel e com reclamações sobre a atual situação do país, que tem sofrido cada vez mais com os embargos dos Estados Unidos. 

As manifestações foram apoiadas por celebridades e políticos da direita. Direto de Miami, as cantoras Camila Cabello e Glória Estefan, cubanas, pediam “ajuda humanitária” para Cuba. Enquanto isso Joe Biden disse que se solidarizava com o povo cubano. Interessante observar que as cantoras só pediam “ajuda humanitária”, mas não pediram nem falaram nada sobre o fim dos embargos. E Biden, apesar de se solidarizar em palavras, também não falou nada sobre os bloqueios que ele mesmo segue impondo, numa postura muito mais dura do que Obama, de quem foi vice. 

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O analista de dados Julián Macías Tovar, da Espanha, analisou que milhares de tweets que começaram a falar sobre os protestos em Cuba, através da hashtag #SOSCuba, foram disparados por bots e perfis falsos. Ele também apontou que diversos veículos de mídia, de diferentes países, usaram fotos falsas para noticiar as manifestações. Foram usadas algumas imagens de outros momentos, de comemorações cubanas, como se fossem fotos dos atos contra o governo socialista no último domingo, o que fez tudo ter uma dimensão aparentemente maior do que a realidade em si. 

Como todos já sabem, Cuba é uma pequena ilha caribenha. Lá, segundo a própria direita brasileira, “apenas três coisas funcionam: a saúde, a segurança e a educação”. Isso normalmente é dito como uma crítica, sendo que aqui no Brasil esses três itens básicos estão muito distantes de funcionarem como deveriam. Cuba também é conhecida por ter uma das melhores medicinas do mundo, não apenas para si própria, mas também para outros países que precisem. Logo no início da pandemia, centenas de médicos cubanos foram enviados para ajudar o povo italiano na luta contra a covid. 

Sabotada pelo capitalismo imperialista há décadas, a ilha passa por dificuldades, mas tenta resistir (Adelante)

O que muita gente também sabe, mas é propositalmente ignorado por muitas pessoas, é que Cuba sofre há 60 anos com fortes embargos econômicos dos Estados Unidos. Se um respirador, por exemplo, foi fabricado nos Estados Unidos, ele não pode ser enviado para Cuba, mesmo que a marca dona seja uma empresa sueca. E, se apenas uma peça desse respirador for proveniente dos Estados Unidos, da mesma forma ele não pode ser vendido ou doado para Cuba. Agora multiplique isso por quase todos os itens que um país precisa, como alimentação, medicamentos, ferramentas, combustíveis, máquinas, peças, aparelhos eletrônicos, etc.

Portanto, o falso argumento “ah, Cuba poderia comprar itens de diversos outros países” simplesmente não cabe na materialidade. Cuba realiza sim comércio com outras nações e sua maior parceira comercial é a China. Porém não é possível, nem no campo geopolítico quanto econômico, ignorar o peso que os Estados Unidos ainda possuem no mundo, seja enquanto país mais rico ou como o que possui o maior poderio militar. 

Sim, eu sei o que você está pensando: os bloqueios econômicos impostos pelos Estados Unidos são criminosos. São mortais. O argumento é que Cuba é uma “ditadura” e os bloqueios são para enfrentar o “autoritarismo”. Porém, apesar do argumento fraco que ignora o sofrimento de um povo, todo mundo também sabe que um dos maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos é a Arábia Saudita, uma teocracia conhecida por esquartejar jornalistas, negar direitos básicos às mulheres e criminalizar a existência de pessoas LGBTs. 

E, para aumentar ainda mais a nossa total falta de esperança no país que atualmente controla o mundo, o governo estadunidense aumentou ainda mais a dureza desses bloqueios em tempos de pandemia. Cuba deixou de receber respiradores, remédios, máscaras e vacinas. 

Então é fácil perceber que existe sim motivo para a população cubana estar com raiva. As pessoas estão com suas vidas precarizadas, muitas estão com fome. Quem tem fome tem pressa. E a maioria dos cubanos tem total ciência da responsabilidade dos Estados Unidos nas suas condições de vida, por isso muitos também saíram às ruas gritando palavras de ordem como “Yo soy Fidel” e “Cuba sí, yanquis no”. Eles pediam, mais uma vez, o fim dos bloqueios. 

Os governos estadunidenses, tanto republicanos quanto democratas, aplicaram 243 medidas coercitivas unilaterais contra Cuba, que geraram um prejuízo de US$ 147,8 bilhões. Somente em 2020, durante a pandemia, o país registrou perdas de US$ 3,5 bilhões por conta da imposição do embargo. Os bloqueios são condenados publicamente por 184 países, com exceção de Israel. Logo Israel, que massacra e também limita recursos básicos à Palestina…

O papo é reto: Se importa com Cuba? Então defenda o fim do bloqueio! Se o socialismo é ruim na sua essência, fadado ao fracasso por conta própria, então por quê o capitalismo precisa o sabotar? 

O Índice de Desenvolvimento Humano de Cuba é 78. Muito melhor que o do Brasil, que é 84. Vocês conseguem pensar o que Cuba poderia ser, enquanto país, caso pudesse realizar transações econômicas de forma livre? Como bem disse o Lula ontem numa entrevista e nas suas redes sociais, “Cuba poderia ser uma Holanda”. Eu acredito que seria bem mais. 

Mas sabemos que os Estados Unidos jamais permitiriam um país de “primeiro mundo” que fosse latino-americano. Precisamos ser o quintal, o puteiro e a fazenda dos países ricos. É para isso que nos controlam economicamente e interferem politicamente. Se não fosse a revolução cubana, hoje Cuba seria, certamente, tão miserável quanto seus vizinhos Haiti e República Dominicana. Ou seria uma colônia estadunidense, como Porto Rico.

As próximas semanas são incertas sobre Cuba. É impossível saber no que resultarão os protestos, tanto a favor quanto contra o governo socialista. Mas uma coisa é certa: a grande mídia, que ignora totalmente os protestos do povo colombiano contra o direitista Iván Duque, assim como ignorou ao máximo a revolta popular no Chile contra o direitista Piñera, seguirá cobrindo tudo que acontecer em Cuba para apontar “os males da ditadura cubana”, sem nenhuma ou pouquíssima menção aos embargos. 

Também é certo que, independente do que aconteça, o povo cubano seguirá de cabeça erguida com seu lema “Pátria ou morte”. O espírito revolucionário segue vivo, apesar de tudo.

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