Dossiê “As veias abertas +50”: A emergência do narcoparamilitarismo na Colômbia

* Por Eduardo Tomazine

As elites estabelecidas da Colômbia desengarrafaram o demônio do narcoparamilitarismo.  Convinha aos donos do poder que sujeitos marginais, os traficantes de drogas, conduzissem a guerra suja contra a insurgência e a oposição de esquerda, paralelamente ao esforço das instituições para manter as aparências democráticas. Era de se esperar, contudo, que essa nova elite armada fugiria ao controle. Bastava, para tanto, uma pitada adicional da geopolítica hemisférica de Washington. 

Se Richard Nixon responde legitimamente pela paternidade da guerra às drogas, a administração Ronald Reagan merece, por sua vez, os créditos pela sua passagem à vida adulta, por ter declarado guerra à cocaína e seu derivado pobre, o crack[1]. Na América do Sul, as investidas da CIA e da DEA alvejavam as zonas produtoras de coca e os cartéis colombianos[2]. Os resultados foram desastrosos. As fumigações das plantações cocaleiras com glifosato, no Peru e na Bolívia, apenas empurraram o cultivo para território colombiano. Em poucos anos, o país se converteu no maior protutor mundial de coca e os preços da cocaína nas praças estadunidenses despencaram em até 75%[3]. Já a pressão para a deportação dos chefões do narcotráfico resultou uma situação de caos e degeneração da violência.

Não que a situação anterior pudesse ser definida como ordenada. Ocorre que a aliança entre os cartéis e o Estado permitia ao menos conter a violência dentro de certos limites. Afinal, cartéis fortalecidos impunham ordem no mundo do crime. Além do mais, a parceria corrupta e estratégica evitava confrontações desnecessárias entre criminosos e as forças de segurança. Foi esse arranjo que desmoronou graças à nova volta do parafuso da guerra às drogas.

Outros textos da série:
1º – Dossiê “As veias abertas +50”
2º – Dossiê “As veias abertas +50”: violência, a paz impossível
3º – Dossiê “As veias abertas +50”: os cartéis do narcotráfico
4º – Dossiê “As veias abertas +50”: ‘Muerte a Secuestradores’ e o genocídio da esquerda colombiana

Como efeito colateral da pressão sobre o Cartel de Medelim, Pablo Escobar declarou sua guerra particular contra quase todos os poderes de fato na Colômbia, à direita e à esquerda, legais e ilegais. São bastante conhecidas as ações terroristas orquestradas por um Escobar assombrado pelo espectro da deportação: bombas nas redações dos jornais, a explosão do voo da Avianca, as recompensas oferecidas pela execução de agentes das forças de segurança, os assassinatos seletivos de juízes e políticos de destaque, inclusive candidatos à presidência da república.

Destroços do avião da Avianca, explodido em pleno voo por ordem de Pablo Escobar, em 1989. Fonte: Associated Press.

Para retaliar a violência do chefão de Medelim, traficantes rivais se articularam, com a conivência dos agentes de Estado e da CIA[4], numa coalizão denominada Perseguidos por Pablo Escobar, ou Pepes. Com modus operandi similar ao do Muerte a Secuestradores, os Pepes praticavam execuções sumárias contra qualquer pessoa suspeita de cooperar com Escobar. No auge dos confrontos, Medelim se converteu na cidade mais violenta do mundo, contando a exorbitante taxa de 381 assassinatos por 100 mil habitantes no ano de 1990, um recorde mundial histórico[5]

Outro efeito da guerra às drogas sobre a cena violenta colombiana foi a expansão explosiva do narcoparamilitarismo. Alguns proeminentes narcotraficantes associados aos Pepes, a exemplo dos irmãos Castaño, deram-se conta da conveniência de se inverter meios e fins das atividades violentas. Ao se converterem em comandantes-em-chefe das milícias ruralistas, as chamadas “autodefesas camponesas” – que de “camponesas” tinham apenas a condição de classe das suas vítimas –, os narcos conquistaram uma hipócrita e conveniente legitimação. Tornavam-se, agora, atores políticos de direito na guerra civil[6]. Legitimação hipócrita porque sempre ficou público e notório o envolvimento direto das franquias paramilitares com atividades criminais e a sistemática violação de direitos humanos. Conveniente, por estabelecerem uma dinâmica autoexpansiva na difusão da guerra suja contra a insurgência, a esquerda e os movimentos populares.

Atentado à bomba do prédio da polícia secreta colombiana (DAS), por ordem de Pablo Escobar, em dezembro de 1989. A explosão foi provocada por um ônibus carregado com meia tonelada de dinamite. Foto: El Espectador.

Os narcoparamilitares souberam desenvolver um modelo de negócios que cresceu de forma explosiva. Na realidade, surfaram a onda da comoção gerada pela expansão das frentes guerrilheiras na década de 1990. Protegidos pelo guarda-chuva do combate ao “terrorismo” de esquerda, bastavam aos capos do mundo do crime um investimento inicial de algumas centenas de milhares de dólares para adquirir uma franquia militarizada. O pacote incluía armamento de uso das Forças Armadas, soldo de mercenários e até mesmo consultoria internacional para treinamento[7].

Homem executado pelo esquadrão paramilitar Perseguidos por Pablo Escobar (Los Pepes). Foto: CNN.

De que modo esses exércitos privados se inseriram no conflito colombiano? Do modo mais nefasto e sub-reptício possível. Sem condições de enfrentarem os insurgentes em combates diretos, o alvo primordial dos paramilitares tem sido, desde as primeiras operações, a população civil localizada nas zonas de influência guerrilheira ou de fronteira de investimentos. O butim amealhado com o roubo de terras, extorsões e, sobretudo, o controle da produção cocaleira vêm financiando a ampliação dos grupos paramilitares e seus corredores estratégicos.

Combatentes do Bloco Central Bolívar (BCB), uma das filiais narcoparamilitares das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC). Autor desconhecido. Copiado do link http://anncol-brasil.blogspot.com/2010/07/como-as-auc-tomaram-o-norte-de.html.

O narcoparamilitarismo se propaga pelo território colombiano como uma mancha de sangue. Em 1997 é fundada a aliança paramilitar denominada Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC). No mesmo ano, o Bloco Centauros, afiliado às AUC, apresentou seu cartão de visitas através de uma incursão na localidade de Mapiripán, no departamento de Meta. A complexa operação contou com o apoio logístico das Forças Armadas, por ar e por terra. Durante cinco dias e cinco noites, centenas de homens fortemente armados invadiram casas procurando por suspeitos de colaboração com as FARC-EP. As vítimas padeceram sevícias atrozes, com torturas, desmembramentos, degolas e eviscerações[8]. A operação deixou ao menos 49 mortos.

Corpos de vítimas do Massacre de Mapiripan, perpetrado pelo Bloco Centauros das AUC entre os dias 15 e 20 de junho de 1997. Autor desconhecido. Copiado do link http://www.radiosantafe.com/2015/10/14/fiscalia-imputo-cargos-a-falsas-victimas-de-la-masacre-de-mapiripan/.

O Centro Nacional de Memória Histórica (CNMH) aponta a prática sistemática de massacres como a estratégia privilegiada de expansão territorial dos narcoparamilitares, tanto no interior quanto nos centros urbanos. Para fins metodológicos, a instituição define um massacre como “o homicídio intencional de quatro ou mais pessoas em estado indefeso e em iguais circunstâncias de modo, tempo e lugar, e que se distingue pela exposição pública da violência. É perpetrada na presença de outros ou se visibiliza perante outros como espetáculo de horror. É um produto do encontro brutal entre o poder absoluto do vitimador e a impotência total da vítima.”[9] Até o ano de 2012, o CNMH contabilizou assombrosas 1166 ocorrências de massacres perpetrados pelos paramilitares, registro que segue aumentando mesmo após a desmobilização das FARC-EP em 2015.

No próximo texto, abordarei a estratégia estadunidense de militarização da América do Sul operada pelo Plano Colômbia, mediante a sobreposição da guerra às drogas e da guerra contra o terror. Quero demonstrar por quais caminhos o fantasma do combate às guerrilhas pavimentou o caminho para o fenômeno da “parapolítica” no país andino, isto é, da cooptação do poder político pelos narcoparamilitares

Eduardo Tomazine é doutor em Geografia pela UFRJ e mestre em Ciência Política pela Universidade Paris 8. Atualmente, realiza um estágio pós-doutoral junto ao POSGEO-UFF, no âmbito do PNPD, da CAPES.


[1]Beckett, Katherine (1997): Making Crime Pay: Law and Order in Contemporary American Politics. Nova Iorque: Oxford University Press.

[2]Gootenberg, Paul (2008): Andean Cocaine: the making of a global drug. Chapel Hill: The University of North Caroline Press, p. 313.

[3]Sobre a liderança colombiana na produção mundial de coca, ver: Mason, Ann C. (2010): Internal Armed Conflict. In: Houdson, Rex A. (ed.). Colombia: A Country Study. Library of Congress, p. 330-333. Com relação à queda nos preços da cocaína como efeito colateral da escalada da guerra às drogas: Gootenberg, Paul (2008): Andean Cocaine…, p. 313.

[4]The National Security Archive (2008): Colombian Paramilitaries and the United States: “Unraveling the Pepes Tangled Web. Disponível na Internet através do seguinte link: https://nsarchive2.gwu.edu/NSAEBB/NSAEBB243/.

[5]García, Héctor Iván et al. (2012): Treinta años de homicidios en Medellín, Colombia, 1979-2008. In: Cadernos de Saúde Pública – Fiocruz, nº 28 (9), p. 1699-1712.

[6]Em fevereiro de 1994, o presidente Virgilio Barco, acuado pela ofensiva das FARC-EP, sancionou o Decreto 356, que reestabelecia a legalidade de formações paramilitares, através das “Cooperativas de Vigilância e Segurança Privada”, ou “Convivir”,  de modo similar à Lei 48 de 1968. O decreto outorgava às “cooperativas” o direito ao uso de armamento exclusivo das Forças Armadas e trabalhos de inteligência. Por meio desta brecha legal, importantes narcotraficantes e sicários se tornaram representantes legais das Convivir, a exemplo de Salvatore Mancuso, Jorge 40, Diego Vecino e Cadena, comprovadamente responsáveis pela perpetração de massacres e outras violações de direitos humanos. Em 1997, após a Suprema Corte estabelecer a insconstitucionalidade do Decreto 356, grande parte das organizações paramilitares migraram para a clandestinidade, para, em seguida, manipularem a eleição de centenas de representantes no sistema político colombiano, incluindo um presidente da república, numa estratégia de infiltração que ficaria conhecida como o escândalo da “parapolítica”.  

[7]Centro Nacional de Memoria Histórica (2018): Paramilitarismo: balance de la contribución del CNMH al esclarecimiento histórico, p. 62 e seguintes.  

[8]Corte Interamericana de Derechos Humanos (2005): Caso de la “Masacre de Mapiripan” vs Colombia. Sentencia 15 de septiembre de 2005. Disponível em https://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_134_esp.pdf.

[9]Centro Nacional de Memoria Histórica (2013): ¡Basta ya! Colombia: Memorias de guerra y dignidad. Bogotá: Imprenta Nacional, p. 36.

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