Dossiê “As veias abertas +50”: ‘Muerte a Secuestradores’ e o genocídio da esquerda colombiana

* Por Eduardo Tomazine

Como se inserem os cartéis do narcotráfico na guerra civil colombiana? Indiretamente num primeiro momento. Pois a política é, para os narcos, tão somente um instrumento subsidiário, um tributo necessário à manutenção dos lucros. Por isso corrompem e negociam com ambos os lados contendores de uma guerra política. No momento seguinte, porém, os chefões do tráfico já são mais do que meros aventureiros em busca de dinheiro rápido. Transformaram-se em uma elite emergente, uma oligarquia, fração da classe dirigente.

Mesmo sem objetivos políticos declarados, Escobares, Ochoas e Orejuelas passam a disputar a hegemonia. Fazem-no, forçosamente, nos marcos estabelecidos por décadas de disputas pelo poder no país, isto é, nos marcos de uma guerra civil assimétrica. Em consequência, os grandes narcotraficantes da Colômbia se convertem em partícipes da guerra. São também, a um só tempo, expressão de um fenômeno social mais amplo,  a criminalidade sistêmica da economia capitalista e consequente arregimentação – em especial nos países periféricos – de um exército de jovens sem lugar no mercado formal de trabalho para a carreira criminal.

Outros textos da série:
1º – Dossiê “As veias abertas +50”
2º – Dossiê “As veias abertas +50”: violência, a paz impossível
3º – Dossiê “As veias abertas +50”: os cartéis do narcotráfico

Por isso não é de se estranhar a aliança entre os cartéis do narcotráfico, latifundiários, grandes empresas transnacionais e integrantes das forças de segurança do Estado após o sequestro de Martha Nieves Ochoa[1]. No dia 1 de dezembro de 1981, sob a iniciativa dos chefões de Medelim, inaugura-se oficiosamente a iniciativa paramilitar batizada de Muerte a Secuestradores, o MAS. Trata-se, a rigor, de um grupo de extermínio dotado de treinamento e equipamentos militares. Sob a justificativa de retaliar o “terrorismo” das guerrilhas e de criminosos comuns, em especial a prática de sequestros, o operativo conduziria a guerra suja contra os grupos insurgentes e a oposição política de esquerda.

Panfleto oferecendo recompensa pela recaptura de Martha Nieves Ochoa, irmã mais nova de Juan David, Jorge Luis e Fabio Ochoa, chefes do Cartel de Medelim. 1982 (Fonte desconhecida)

O MAS ganha visibilidade pública graças à espetacularização do terror. Logo de saída, sobrevoam o estádio do América de Cali, onde ocorria o clássico contra o Atlético Nacional, para despejar panfletos ameaçando pendurar os sequestradores em árvores, bem como seus comparsas e parentes. Cumpriram a promessa espalhando cadáveres em frente à redação dos principais jornais do país, junto com cartazes que diziam “Sou do M-19. Sou um sequestrador”. 

Treinamento de milícias em Puerto Boyacá, berço do narcoparamilitarismo colombiano, sob instrução do mercenário israelense Yair Klein, segunda metade dos anos 1980. (Fonte: ‘El caso Klein: El origen del paramilitarismo en Colombia‘)

Com efeito, o recurso às milícias privadas como instrumento de preservação dos interesses dos poderosos tem sido uma antiga tradição na história colombiana, tal como vimos nos textos anteriores. O elemento novo agora era a imensa capacidade econômica proporcionada pelos narcodólares. Surgia o narcoparamilitarismo. Sua capacidade operacional espalhou o terror pela Colômbia e tem estrangulado, até o presente, uma saída política estável para a guerra civil.

O baile de sangue

Transcorridas duas décadas de conflito armado interno (leia-se guerra civil), a Colômbia vivia, em meados dos anos 1980, a expectativa das negociações de um cessar-fogo entre as FARC-EP e o governo conservador de Belisario Betancur. Ambas as partes se comprometiam, através dos Acordos de La Uribe, a alcançar uma solução política para o conflito. A ideia consistia em encerrar temporariamente as hostilidades, de modo que guerrilha e Estado pudessem colocar em marcha seus dispositivos civis para a construção negociada da paz.

As FARC-EP exploraram a trégua para apoiar a construção de um partido político. Junto a variados setores populares e outras organizações armadas, fundou-se a União Patriótica (UP), em 1985. Em paralelo, trataram de arregimentar novos combatentes e ampliar suas frentes guerrilheiras. Do outro lado, o governo Betancur procurou robustecer a capacidade operativa das Forças Armadas, ao mesmo tempo em que encaminhava ao Congresso uma série de reformas políticas destinadas a democratizar e descentralizar o Estado[2]

As eleições de 1986 trouxeram resultados auspiciosos para o processo de paz. De modo surpreendente, a União Patriótica elegeu cinco senadores, 14 deputados departamentais, 351 vereadores e 23 prefeitos, posicionando-se como a terceira força partidária da Colômbia. Sua ascensão meteórica comprovava cabalmente o potencial político-institucional reprimido (por anos de estado de sítio e repressão) da esquerda no país. Sinalizava também às demais organizações guerrilheiras um caminho alternativo à luta armada. A saída pacífica para a guerra civil deveria passar, obrigatoriamente, pelo reconhecimento pleno do direito das forças populares de esquerda em participar da esfera pública. Uma via bastante plausível, não fossem a intolerância do establishment colombiano em fazer concessões e os projetos antagônicos dos diferentes atores armados. 

Funeral de Jaime Pardo Leal, candidato à presidência pela Unión Patriótica, 1987. (Fonte: El Espectador)

As celebrações pelo triunfo eleitoral da UP tiveram que ser interrompidas pelos funerais. Desde o início dos acordos de paz, militares e paramilitares costuraram planos de extermínio para acabar com as bases de organização política da esquerda pelo país[3]. A Operação Condor (1985) e o Plano Baile Vermelho (Baile Rojo, 1986) visavam eliminar as estruturas de direção nacional da UP, assassinando  ou sequestrando seus dirigentes eleitos para funções públicas. O Plano Esmeralda, por sua vez, foi concebido como retaliação ao bom desempenho eleitoral da UP e do Partido Comunista  nos departamentos de Meta e Caquetá, por meio da execução de uma onda de massacres e sequestros. Ao longo de 20 anos, o extermínio da União Patriótica vitimou dois candidatos a presidente, 11 deputados, 109 vereadores, outros tantos ex-vereadores, 8 prefeitos em exercício e oito ex-prefeitos. Segundo relatório elaborado pelo Centro Nacional de Memória Histórica (CNMH), intitulado Todo pasó frente a nuestros ojos: El genocidio de la Unión Patriótica 1984-2002, um total de 4.153 pessoas de algum modo relacionadas ao partido foram assassinadas, sequestradas ou desaparecidas. Trata-se de um raro caso de extinção de um partido político por decorrência do assassinato, desaparecimento ou exílio forçado de todos os seus integrantes. Um genocídio politicamente motivado.

Enquanto os países da América Latina enfrentavam sua “década perdida”, marcada pela estagnação e hiperinflação, o dinheiro do narcotráfico transformou a Colômbia numa ilha de crescimento econômico. Mas os anos 1980 representaram para os colombianos uma década perdida no esforço de paz. O genocídio da União Patriótica e a nova rodada de Guerra às Drogas fomentada pela administração Ronald Reagan conduziriam o país ao abismo do terrorismo e da escalada da guerra civil.

Eduardo Tomazine é doutor em Geografia pela UFRJ e mestre em Ciência Política pela Universidade Paris 8. Atualmente, realiza um estágio pós-doutoral junto ao POSGEO-UFF, no âmbito do PNPD, da CAPES.


[1]Sobre a formação do MAS e a participação de empresários e agentes do Estado, ver: https://verdadabierta.com/muerte-a-secuestradores-mas-los-origenes-del-paramilitarismo/. No livro À qui profite la cocaïne ? [A quem beneficia a cocaína?], Mylène Sauloy e Yves Le Binniec apresentam documentações que comprovariam a participação da CIA na orquestração do MAS.

[2]Para uma leitura aprofundada (e crítica) sobre os limites e contradições das negociações de paz entre as FARC-EP e o Estado colombiano, sugiro a leitura da dissertação de Maristela Rosângela dos Santos Pinheiro: FARC-EP: meio século de insurgência na Colômbia. Que paz é possível?, em especial o terceiro capítulo, intitulado É possível a paz com justiça social?. Disponível em https://www.historia.uff.br/stricto/td/1899.pdf.

[3]Ivan Cepeda Castro (2006): Genocidio político: el caso de la Unión Patriótica en Colombia. In: Revista del Centro por la Justicia y el Derecho Internacional, ano I, nº 2. Disponível em https://www.corteidh.or.cr/tablas/r24797.pdf.

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