Dossiê “As veias abertas +50”: os cartéis do narcotráfico

* Por Eduardo Tomazine

Alguns segredos da máfia morrem com os mafiosos. Outros, mais escassos, saltam da obscuridade através de confissões. O mesmo pode ocorrer com os segredos de Estado. Uma declaração extemporânea de John Ehrlichman, assessor para assuntos domésticos de Richard Nixon, apenas confirmou o que quase todos já sabiam: “[A] campanha de Nixon de 1968, e a Casa Branca de Nixon depois disso, tinham dois inimigos: a esquerda antiguerra [do Vietnã] e a população negra”.  Ehrlichman – cujo nome alemão pode ser traduzido, com alguma flexibilidade, como “homem honesto” – tratou de dissipar dúvidas:

 “Você entende o que estou dizendo? Sabíamos que não poderíamos torná-los ilegais por serem contra a guerra ou negros, mas sim fazendo o público associar os hippies com a maconha e os negros com a heroína. E então, criminalizando-os de forma dura, podíamos quebrar essas comunidades. Podíamos prender os seus líderes, invadir suas casas, interromper suas reuniões e difamá-los noite após noite nos noticiários. Se sabíamos que estávamos mentindo a respeito das drogas? Claro que sabíamos.”[1] 

Enquanto a venda e o consumo de maconha e heroína eram combatidos por todos os meios, outra droga ganhava espaço nos EUA dos anos 1970, com a vista grossa – e mesmo o incentivo – da administração Nixon. Em 1975, um relatório da Força Tarefa do Conselho Doméstico sobre Uso de Drogas, endereçado ao presidente, definiu o combate à cocaína como de baixa prioridade. A justificativa era de que “a cocaína não resulta graves consequências como crime, internações hospitalares de emergência ou mortes”[2]. À época, o pó branco povoava o imaginário social como uma “droga leve das elites”. Seus efeitos estimulantes – e menos deletérios que a metanfetamina – lubrificavam a cultura hedonista, o escapismo político e “espírito empreendedor” típicos do neoliberalismo em ascensão. O boom da demanda pela cocaína nos anos 1970 fora, portanto, social e politicamente construído.

Pelo lado da oferta, a geopolítica hemisférica de Nixon-Kissinger alteraria profundamente a cadeia de produção-exportação. Num capítulo posterior, veremos como a oposição dos EUA ao general esquerdista Juan Alvarado Velasco, no Peru, atirou uma enxurrada de camponeses sem perspectivas para o cultivo e processamento da kuka – nome quéchua da Erythroxylum Coca. Por ora, precisamos entender as mudanças de rota dos elos intermediários da cadeia, por onde a pasta-base é transformada em cloridrato de cocaína, para, em seguida, ganhar o mercado global. É na esteira deste câmbio que emergirá a narcoepopéia dos senhores da violência na Colômbia.

Outros textos da série:
1º – Dossiê “As veias abertas +50”
2º – Dossiê “As veias abertas +50”: violência, a paz impossível

No início dos anos 1970, a pasta-base andina se destinava, em sua maior parte, aos laboratórios do Chile, onde era refinada. De lá, grandes contrabandistas chilenos e cubanos, além de um formigueiro de mulas vindos de toda parte, transportavam o cloridrato até os EUA. O produto entrava por Miami, onde, sob a cortina de fumaça anticastrista e a complacência de Nixon, operavam os distribuidores cubanos. Da Flórida, a cocaína ganhava as grandes cidades de costa a costa. No varejo de Nova Iorque ou Los Angeles, a farinha chegava a custar mais de 70 mil dólares o quilo[3].

Tiroteio no Dadeland Mall, Miami,1979. (Foto retirada do filme Cocaine Cowboys)

Mas então os abalos da Guerra Fria impuseram uma mudança de rumos. No fatídico 11 de setembro de 1973, os caças Hawker-Hunter bombardearam o palácio de La Moneda, em Santiago do Chile, provocando a morte do presidente eleito Salvador Allende. Além de inaugurar os 17 anos de terror do ditador Augusto Pinochet, o golpe de Estado alteraria para sempre a geografia do narcotráfico. Mais por decorrência da paranoia anticomunista que por empenho no combate às drogas. É que uma vez instituído o novo regime, os conselheiros da DEA logo advertiram o generalíssimo sobre o risco das fortunas do narcotráfico caírem nas mãos dos rebeldes comunistas. No vizinho Peru, a expansão guerrilheira do Sendero Luminoso representava um precedente alarmante. Pressionado, Pinochet desmanchou o corredor chileno do pó de maneira enérgica. Ordenou a prisão dos 19 maiores narcotraficantes do país. Em seguida, restringiu o refino de cocaína às instalações químicas dos seus militares, em Talagante[4]. Graças à manutenção desse monopólio, o ditador obteve recursos para financiar a Operação Condor[5] e, de quebra, expandir sua fortuna familiar, que se converteria em uma das maiores do Chile[6].

Bombardeio ao Palácio La Moneda, em 11 de setembro de 1973. (Foto: AFP)

A desarticulação do corredor chileno abria caminho para novas rotas, oferecendo oportunidades para que outros personagens  assumissem o controle dos elos intermediários – e mais lucrativos – da cadeia de produção e exportação da cocaína. A tarefa era complexa e envolvia grandes riscos, mas as recompensas exorbitantes decerto atrairiam pretendentes. Para ocupar esse espaço, demandava-se gente com contatos e dinheiro suficiente para a compra de grandes quantidades de pasta-base direto da fonte, nos rincões da Bolívia e do Peru. Os candidatos também deveriam ser capazes de importar insumos químicos para o refino, além de estabelecer laboratórios em locais seguros. Precisavam organizar a complexa logística de transporte de uma mercadoria ilegal, atravessando fronteiras, lidando com o suborno de autoridades e costurando relações de confiança junto aos distribuidores nas praças varejistas. Por fim, a disponibilidade para a violência e o acesso aos seus instrumentos eram vantagens importantes para afastar concorrentes. Em um tipo de negócio desprovido de tribunais de direito, a violência é o primeiro recurso para punir faltas e descumprimentos de contratos.

O desenvolvimento da Colômbia – violento e liberal – fez emergir uma elite talhada  para esse papel. Em especial na região paisa, onde primeiro despontou a cultura do café e, com ela, uma protoburguesia nacional, sediada na industriosa Medelim[7]. A crise econômica dos anos 1960 compeliu o empreendedorismo paisa a buscar novos ramos. De início, as atividades ancestrais do contrabando, roubo e sequestro ajudaram a galvanizar capitais. Pavimentaram também o caminho para o negócio mais lucrativo do tráfico de drogas. Não de cocaína, mas de uma variedade endêmica de canábis muito apreciada nos EUA, a lendária Colombian Gold, cultivada na serra de Santa Marta, de frente para o Caribe. Não demoraria para que alguns pioneiros colombianos se aventurassem no negócio da cocaína. Com efeito, eles exerciam, até 1973, um papel secundário, levando a droga como “mulas” a serviço dos mafiosos chilenos e cubanos. Mas depois do golpe de Pinochet, os colombianos vislumbraram a oportunidade de assumir as rédeas do processamento e exportação da droga.

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A ambição pela fortuna rápida motivou muitos filhos da classe média e da oligarquia colombiana a abandonarem os estudos para seguir a carreira do crime. Foi o caso de Pablo Emílio Escobar Gavíria, o grande patrón do cartel de Medelim. Pablo Escobar deixou a Universidade Autônoma Latino-Americana de Medelim antes de obter o diploma. Cometendo pequenos delitos desde a adolescência, ele se engajaria no contrabando de cigarros, roubos de carro e no serviço de guarda-costas de criminosos graduados, tendo participado de alguns sequestros. Mais tarde, passou para o contrabando de maconha, até se envolver no mais lucrativo negócio da cocaína.

Carlos Lehder, um dos chefões do Cartel de Medelim, em um dos aviões de sua frota particular. (Foto: AP Photo/Semana)

Os primeiros passos de Escobar no mundo do crime se assemelham à trajetória de outros barões do narcotráfico. Carlos Lehder, quem abriu a rota aérea do caribe para inundar o mercado norte-americano com o produto de Medelim, era filho de um bem-sucedido engenheiro. Os célebres irmãos Jorge, Juan David e Fabio Ochoa – que tomaram a praça de Miami para os antioquenhos[8] – eram herdeiros de uma tradicional família criadora de gado e cavalos reprodutores. Já os irmãos Orejuela, chefões do Cartel de Cali, provinham também de uma abastada família, razão pela qual eram chamados de “cavalheiros de Cali”.

Parte das instalações químicas de Tranquilândia, nas selvas colombianas, em 1984. (Foto: DEA Employee)

Foi essa jovem intelligentsia colombiana e sua “acumulação primitiva” de capital que revolucionaria o mercado global da cocaína. Operando em um país fragmentado pela guerra, com um Estado incapaz de estender sua armadura institucional sobre o vasto território, instalaram nas selvas amazônicas os maiores laboratórios de refino de pasta-base da história. A lendária Tranquilândia, na planície do rio Yari, abrigava, por exemplo, 19 instalações químicas e oito pistas de pouso. Os engenhosos colombianos desbravaram novas rotas de exportação inovando na logística de transporte. Até mesmo submarinos artesanalmente fabricados foram usados. Nas grandes praças consumidoras dos EUA, sua familiaridade com a violência fora de grande valia para deslocar as redes cubanas de distribuição. A chegada dos colombianos a Miami reapresentou aos americanos modalidades de violência que encontravam precedentes apenas nas disputas mafiosas do tempo da proibição do álcool[9].

De forma rápida, em menos de uma década de operação, o cartel de Medelim se tornaria responsável pelo abastecimento de mais de 80% do mercado norte-americano de cocaína[10]. Em seu auge, estimavam-se as receitas anuais geradas pelo cartel em mais de 20 bilhões de dólares. Em 1982, a cocaína se tornaria o principal produto de exportação da Colômbia, superando o café. Contrariando as expectativas da administração Nixon com a Guerra às Drogas, que almejava afastar o consumidor final mediante a alta dos preços, a inundação do mercado internacional com a cocaína colombiana resultou uma baixa persistente do preço da cocaína no mercado internacional. Em relação inversa aos preços, o consumo disparou.

As fortunas geradas com a droga pariram uma nova elite na Colômbia. Em pouco tempo, os barões da coca se tornariam os maiores proprietários fundiários do país. Para se ter uma ideia, apenas a fazenda Nápoles – um entre os muitos imóveis rurais de Pablo Escobar – se estendia por três mil hectares, com direito a hipopótamos e outros animais exóticos mandados importar. Não tardaria para o projeto expansionista dos narcotraficantes se chocar com os interesses de outros atores sociais na Colômbia. De um lado, uma oligarquia emergente e voraz aumentaria ainda mais a concentração de terras, problema de base da instabilidade social no país. De outro lado, a reforma agrária figurava como ponto central do programa revolucionário das guerrilhas, que acumulavam mais de uma década de luta insurgente. Distribuição de terras e novos projetos de colonização faziam parte da estratégia guerrilheira para estreitar laços com as populações camponesas, consolidando sua influência no interior. O choque entre as partes era uma questão de pouco tempo.

No princípio, contudo, cartéis e guerrilhas puderam estabelecer uma relação simbiótica. A existência de zonas controladas pelos insurgentes, em grande medida infensas aos tentáculos da repressão estatal, possibilitava a proliferação de equipamentos para a produção e o escoamento da cocaína. Em troca, a autoridade insurgente cobrava impostos dos empreendimentos do tráfico. Com esses recursos, financiavam o esforço de guerra.

Narcotraficantes multibilionários, que já tinham os funcionários do Estado na sua folha de pagamentos, viam cada vez menos sentido em ceder aos assédios dos insurgentes. Mas foi a atuação agressiva de uma organização guerrilheira específica que fez o caldo entornar. O Movimento 19 de Abril, mais conhecido como M-19, orientava sua estratégia por ações espetaculares nas cidades – sem desenvolver, portanto, relações orgânicas com os narcos no campo. Em 1974, apresentaram seu cartão de visitas roubando a espada de Simon Bolívar de um museu de Bogotá. Quatro anos mais tarde, escavaram um túnel de 80 metros para tomarem sete mil armas de um quartel da capital. Em 1980, ocuparam a embaixada da República Dominicana, fazendo reféns várias delegações diplomáticas, incluindo os embaixadores dos EUA e do Brasil.

As aparições espetaculares do M-19 em plena capital do país despertavam mais interesse da mídia que os combates na selva conduzidos pelas FARC e outras importantes guerrilhas. Além disso, as respostas brutais das Forças Armadas nas ruas das cidades contribuíam para corroer a legitimidade do Estado. A guerrilha urbana angariava, desse modo, o apoio crescente da opinião pública. Confiantes, os jovens combatentes do Movimento 19 de Abril, liderados por Iván Marino Ospina, tiveram a brilhante ideia de sequestrar familiares dos barões das drogas. Afinal, eles já acumulavam experiência com a captura de reféns políticos e de figurões da oligarquia. Os traficantes eram os homens mais ricos da Colômbia. Sua demagogia assistencialista junto aos pobres não eludia essa verdade objetiva. Os resgates milionários poderiam elevar a luta revolucionária a outro patamar, calcularam os dirigentes da facção guerrilheira.

Em novembro de 1980, um operativo do M-19 sequestrou Martha Nieves Ochoa, irmã de uma das famílias mais poderosas do cartel de Medelim. Exigiram um resgate de 12 milhões de dólares. Em seguida, procederam a uma tentativa mal sucedida de sequestro de Carlos Lehder, outro patrón dos antioquenhos. Um limite havia sido ultrapassado. A resposta dos chefões do crime e do establishment mudaria para sempre a história do conflito armado colombiano.

Eduardo Tomazine é doutor em Geografia pela UFRJ e mestre em Ciência Política pela Universidade Paris 8. Atualmente, realiza um estágio pós-doutoral junto ao POSGEO-UFF, no âmbito do PNPD, da CAPES.


[1]https://edition.cnn.com/2016/03/23/politics/john-ehrlichman-richard-nixon-drug-war-blacks-hippie/index.html

[2]Disponível na Internet através do seguinte link: https://archive.org/details/WhitePaperDrugAbuse1975.

[3]Um estudo sobre a variação dos preços da cocaína no mercado dos EUA ao longo das quatro últimas décadas pode pode ser encontrado aqui: https://www.businessinsider.com/us-cocaine-prices-change-2016-10#cocaine-prices-in-the-us-underwent-a-precipitous-decline-between-the-early-1980s-and-the-early-1990s-2.

[4]Gootenberg, Paul (2008): Andean Cocaine: the making of a global drug. Chapel Hill: The University of North Caroline Press, p. 304.

[5]Conforme se apresentará numa seção posterior, a Operação Condor foi uma aliança entre os regimes militares de vários países da América do Sul, que vigorou entre as décadas de 1960 e 1980. Seu objetivo era monitorar e perseguir opositores políticos no continente, mediante a disseminação da doutrina estadunidense de contrainsurgência, o ensino de técnicas de tortura, o compartilhamento de informações obtidas com espionagem e o intercâmbio de prisioneiros de interesse das ditaduras em cada Estado. 

[6]https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,fortuna-de-pinochet-provem-da-cocaina-afirma-ex-chefe-da-dina,20060709p47648

[7]A comparação mais aproximada da identidade paisa com o contexto sociocultural brasileiro seria, guardadas as muitas diferenças, com a figura do paulista. O paulista, cuja origem histórica remete à colonização autoctone da capitania de São Vicente e ao processo de desbravamento do território pelos bandeirantes, através do apresamento de escravos; essa identidade fora ressignificada pela oligarquia cafeeira e a nascente burguesia de São Paulo, construindo assim a narrativa mitológica da formação do empreendedor e construtor nacional encarnados pela elite paulista.

[8]Antioquenho: gentílico de quem nasce ou vive no departamento colombiano de Antióquia, cuja capital é a cidade de Medelim. Trata-se do coração da região paisa.

[9]O documentário Cocaine Cowboys (2006), dirigido por Billy Corben, retrata com detalhes a guerra pelo controle da venda de drogas em Miami alavancada pela chegada dos colombianos ligados ao cartel de Medelim.

[10]Gootenberg, Paul (2008): Andean cocaine

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