Dossiê: as veias abertas +50

* Por Eduardo Tomazine

A história é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo que foi e contra o que foi, anuncia o que será.” (Eduardo Galeano)[1]

As Veias Abertas da América Latina é um livro publicado pela primeira vez em 1971, após ter sido submetido ao Prêmio Casa de Las Américas. A obra não venceu o certame, mas venderia mais de um milhão de exemplares em dezoito idiomas, tendo influenciado gerações de jovens inconformistas. Pela ocasião da proximidade do aniversário de 50 anos do livro, o Lado B do Rio gentilmente me cedeu o espaço para este Dossiê, sob a justificativa que seu objetivo se mostra mais que pertinente na atual quadra da história. Intitulada As Veias Abertas +50, a série de artigos pretende, antes de mais nada, estimular os leitores a revisitarem ou tomarem conhecimento do livro que mais contribuiu para despertar o sentido de uma identidade coletiva latino-americana.

Mas a ideia é ir além. Acredito que a homenagem mais apropriada a Eduardo Galeano consiste em retomar o projeto de As Veias Abertas, que continua, para o bem e para o mal, de grande atualidade: a América Latina segue esvaindo-se em sangue.

No posfácio à edição de 1978, escrito do exílio em Calella (Barcelona), Galeano indicou o que pretendia com a obra: “uma busca de chaves da história passada, que contribui para explicar o tempo presente (que também faz história), a partir da base de que a primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la[2]. Buscando encontrar as tais chaves da história passada e uma explicação do seu tempo, ele estudou o que de melhor havia sido produzido pela historiografia, sociologia, antropologia e economia críticas latino-americanas.

Munido de um talento excepcional de cronista e da sua precoce bagagem de jornalista viajante, Galeano realizou, aos 30 anos de idade, a monumental síntese da história dos quinhentos anos de conquista e submissão dessas terras ao sistema mundial capitalista. O resultado foi um romance histórico, muito bem documentado e referenciado com erudição, cujo herói figura como o destino coletivo dos povos nascidos, migrados ou sequestrados para o sul do rio Bravo após a chegada de Colombo. As Veias Abertas da América Latina é, de maneira definitiva, um grande romance de formação, o romance da nossa formação social, dos nossos quinhentos anos de solidão.

Quando o livro veio a público, o ânimo dos setores progressistas no continente oscilava entre desilusões e frágeis esperanças. As teses econômicas desenvolvimentistas já vinham sendo capturadas pelos regimes autoritários de direita, na qualidade de “milagres” – para mais tarde serem finalmente esfaceladas pela explosão da dívida na periferia sistêmica, tal como miragens[3]. Os governos democráticos reformistas eram esmagados, um a um, por golpes militares. Restava a esperança no espraiamento da luta armada, inspirada no triunfo da Revolução Cubana, bem como na construção do socialismo pelas vias democráticas, fruto das crescentes mobilizações de trabalhadores urbanos e camponeses. Transcorridos cinquenta anos, após golpes e reaberturas, a América Latina se encontra desfeita de ilusões e de esperanças, salvo aquelas nutridas pelos setores protofascistas.

O clássico latino-americano, um documento a ser sempre revisitado. (Créditos: Reprodução)

Retomar o projeto de As Veias Abertas significa estudar atentamente as chaves históricas fornecidas pelas nossas derrotas. Não por esperança de extrair delas alguma fórmula para a vitória – da dignidade, da liberdade, da justiça. O que se espera, tal como formulado por Eduardo Galeano, é comprovar, uma vez mais, que “nossa desgraça é um produto da história, feita por homens, e que, portanto, pelos homens pode ser desfeita”[4]. Apenas a consciência plena do caráter arbitrário da opressão, dos padecimentos sofridos pelas massas, da opulência das elites e da devastação ambiental é capaz de despertar o inconformismo e, com ele, a mobilização para alterar a realidade.

Temos acumulado muitas derrotas nos últimos cinquenta anos. O resultado se observa na desolação da realidade presente, mas, igualmente, na carência de perspectivas. A América Latina tornou-se o continente mais desigual e mais violento do mundo. As reaberturas “democráticas” trouxeram consigo a ditadura dos mercados financeiros. Os governos progressistas, por seu turno, se limitaram ao papel de gestores do neoliberalismo, pavimentando o caminho para a contraofensiva reacionária e suas novas modalidades de golpe de estado.

Leia também:
A América Latina é nosso chão e nosso refúgio
‘O Fórum’: documentário mostra Bolsonaro como pária mundial
O “Efeito Bolsonaro” é o efeito da nossa tragédia coletiva

Os movimentos sociais, comunidades tradicionais e povos originários, embora desenvolvam alternativas em seus territórios, encontram-se na defensiva, assediados por grileiros, madeireiros, garimpeiros e outros herois do agronegócio, além de paramilitares, narcotraficantes e especuladores de toda sorte. As economias nacionais se desindustrializam e dependem ainda mais das exportações de commodities. Nossos biomas, que abrigam a maior riqueza genética do planeta, vêm sendo reduzidos a cinzas, a cada ano mais velozmente, para dar lugar a monoculturas de exportação.

Grandes projetos de mineração, geração de energia e infraestrutura viária, quase sempre destinados a ampliar e acelerar a sangria de recursos, têm provocado danos irreparáveis aos ecossistemas, forçando comunidades inteiras ao êxodo. Nossas vidas e riquezas se esvaem em fluxos e numa capilaridade ainda maiores que a de décadas atrás.

Morto em 2015, o jornalista e escritor uruguaio influenciou algumas gerações de intelectuais, políticos e militantes à esquerda desde a década de 1970. (Créditos: Reprodução)

Esta é a realidade que o presente Dossiê pretende iluminar, ao traçar um panorama dos descaminhos da América Latina desde a primeira publicação de As Veias Abertas até os dias atuais. Optou-se por estruturar a análise em cinco eixos, compreendendo as quatro grandes “chagas” que dessangram o continente, acrescidas de um capítulo sobre as resistências, estas forças dos debaixo que regeneram incessantemente as nossas sociedades. A ordem dos capítulos ficará dividida da seguinte forma:

1) Violência: a paz impossível

2) Economia da desigualdade

3) Devastação ambiental: a economia do espólio

4) Política: a democracia inviável

5) Movimentos sociais e “sociedades em movimento”

Cada capítulo se repartirá em seções, publicadas semanalmente pelo Lado B do Rio. A ideia não é proceder a um inventário exaustivo das nossas misérias e lutas em meio século de história, mas tentar identificar alguns fatos-chave, ilustrar os processos que nos conduziram ao estado de coisas atual, apontar nomes e cobrar responsabilização moral pelos crimes de lesa-humanidade que se tem cometido em nome de espectros sempre atualizados: o “combate ao comunismo”, a “globalização”, a “austeridade fiscal”, o “crescimento econômico”, a “balança comercial”, a “guerra às drogas”, o “combate à corrupção”.

Para encerrar esta apresentação, quero dizer que compreendo a história recente da América Latina como uma profecia. Uma profecia para o próprio continente, claro, mas também para os centros ricos do sistema mundial. Quando escreveu As Veias Abertas, Eduardo Galeano assumiu as premissas, formuladas por André Gunder Frank e os teóricos da dependência, que o subdesenvolvimento latino-americano é uma consequência do desenvolvimento alheio, que o desenvolvimento desenvolve a desigualdade e, portanto, “não há riqueza que não seja, no mínimo, suspeita”[5]. Essas premissas seguem válidas, mas a geografia do capitalismo mudou. As riquezas da periferia sistêmica já não constroem mais o bem-estar no centro. Escoam, antes, para os paraísos fiscais, contribuindo para edificar as cidadelas fortificadas de um punhado de super-ricos.

As desigualdades na Europa ocidental e Estados Unidos têm alcançado os níveis anteriores às duas grandes guerras mundiais, trazendo com elas tensões sociopolíticas, o chauvinismo e o fascismo. Cinquenta anos passam voando e oferecem tempo suficiente para que todo o mundo se converta numa vasta periferia. Seria, pois, fundamental – eu diria mesmo vital – que, daqui a meio século, o projeto de As Veias Abertas da América Latina se descubra extemporâneo, posto que desnecessário, ao contrário de hoje. Para tanto, é preciso retomá-lo, ainda que desacompanhados da sensibilidade genial de Eduardo Galeano.

* Eduardo Tomazine é doutor em Geografia pela UFRJ e mestre em Ciência Política pela Universidade Paris 8. Atualmente, realiza um estágio pós-doutoral junto ao POSGEO-UFF, no âmbito do PNPD, da CAPES.

[1] Eduardo Galeano, As veias abertas da América Latina. São Paulo: Paz e Terra, p. 19. 1992.

[2] Idem, p. 286-7.

[3] Fazemos alusão, aqui, ao estudo de Alain Lipietz, Miragens e milagres: problemas da industrialização no Terceiro Mundo. São Paulo: Nobel. 1988.

[4] As Veias Abertas, p. 286.

[5] p. 287

A partir de R$ 2 mensais, você colabora com a produção de mais conteúdo nas plataformas do Lado B do Rio. Acesse Padrim ou PicPay e conheça as metas e benefícios.

Um comentário em “Dossiê: as veias abertas +50

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pin It on Pinterest