Mercosul e União Europeia: a canetada histórica de Bolsonaro e Macri

Por Eduardo Tomazine, PhD em Geografia pela UFRJ e Pós-Doutorando na UFF

Os presidentes de Brasil e Argentina podem parecer sem jeito na foto do G20. O primeiro tornou-se pária na comunidade internacional. O segundo anda de pires na mão e tem sua reeleição ameaçada. Entretanto, ao retornarem a Brasília e Buenos Aires, ambos trazem na bagagem um trunfo histórico: o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, assinado Jair Messias Bolsonaro & Mauricio Macri – firma reconhecida em cartório.

Pouco importa que amanhã ou depois os dois governantes caiam em desgraça por conta de fracassos políticos e econômicos. Daqui a 20 anos, até mesmo seus detratores da esquerda lutarão pela manutenção do acordo com os europeus. Vocês duvidam? Então espiem a reação da esquerda mexicana quando o “populista” Trump ameaçou retirar os Estados Unidos do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA).

Há algo de tragédia nos acordos de livre comércio. Uma vez ratificados, tornam siamesas economias de corpos tão compatíveis quanto um pinscher e um dobermann. A união produz efeitos colaterais para ambas as partes (que o digam os operários de Detroit e os camponeses de Chiapas), mas quem se atreve a separá-las? A cirurgia, ainda mais abrupta, pode ser fatal.

Trata-se de uma verdade comprovada pela história. Em 1991, Brasil e Argentina celebraram o Tratado de Assunção, que formalizou o Mercado Comum do Sul. Assinaturas: Fernando Collor de Mello & Carlos Saúl Menem. Quanto poder numa caneta! Fernando sofreria impeachment por corrupção (e quebraria a economia do país). Carlos quebraria a economia do país (e seria preso por corrupção). Contratempos à parte, seus opositores de esquerda passariam os últimos vinte anos lutando pela sobrevivência do Mercosul, que sempre levará a rubrica de Collor e Menem.

Os efeitos de um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a UE são complexos, contraditórios e incertos. Para Bruxelas, a iniciativa mira os conservadores do Reino Unido, aumentando consideravelmente o “custo de oportunidade” de um Brexit inegociado. A abertura de um mercado de 260 milhões de consumidores às empresas europeias oferece um contraponto de peso ao euroceticismo.

Entretanto, a provável fuga de indústrias de baixo capital para a América do Sul tenderia a atirar novas ondas de trabalhadores desempregados aos braços da direita nacionalista. Do lado de cá do Atlântico, o compromisso com os europeus pode frear a sanha devastadora dos ruralistas – Emmanuel Macron condicionou o tratado à permanência do Brasil no Acordo de Paris sobre o meio ambiente, por exemplo. Em contraste, o inevitável aumento das exportações de commodities tende a impulsionar o avanço da fronteira de recursos sobre o que ainda resta de biomas como o Chaco, o Cerrado e a Amazônia – sem falar nas reservas indígenas e nas Comunidades Remanescentes de Quilombos (CRQs).

Mauricio Macri e Jair Bolsonaro, no Palácio do Planalto, em janeiro de 2019 – Sérgio Lima/Poder 360

Ao menos em tese, acordos de livre comércio não deveriam representar uma sentença de perpetuação das assimetrias estruturais entre países ricos e pobres. Economistas heterodoxos sustentam que políticas monetárias adequadas e impostos sobre exportações de commodities beneficiam mais a indústria de países periféricos que barreiras protecionistas.

Por esse raciocínio, o imposto sobre a soja e o minério de ferro custearia os investimentos em educação, pesquisa e desenvolvimento. De sua parte, o fim das barreiras de importação facilitaria a aquisição de bens de capital de última geração pelas empresas nacionais. Apesar de frágil, essa estratégia faz ainda mais sentido hoje, na charneira de uma nova revolução industrial. Afinal, em tempos de automação generalizada e inteligência artificial, meia década de atraso em equipamentos pode significar a diferença entre uma frota conduzida por seres humanos queimando combustível e outra autoguiada e movida por energia elétrica.

O problema é que os artífices do acordo com a UE são ultraliberais como Paulo Guedes, e não economistas heterodoxos. O mais provável, portanto, é que Brasil e Argentina removam barreiras alfandegárias sem adotarem políticas protetivas compensatórias. Desse modo, o acordo de livre comércio tornará ainda mais árdua a escalada nas cadeias globais de valor pelos países do Mercosul, reforçando nossa posição subalterna.

À primeira vista, o acordo parece um negócio da China. Pagaremos pelos carros elétricos europeus – ou pelos componentes de maior valor dos carros montados aqui – com soja e minério de ferro. No entanto, por trás da balança mágica que equilibra softwares e grãos encontramos os empregos e salários de suas cadeias produtivas. Na teoria, pode até haver boi, soja e ferro que paguem por cada celular importado por argentinos, brasileiros, paraguaios e uruguaios. No mundo real – aquele onde o ferro da Vale não paga o crediário da Dona Maria –, o que vai faltar mesmo é trabalho bem remunerado (ou, simplesmente, trabalho) para a grande maioria desses 260 milhões de consumidores.

Bolsonaro e Macri têm mesmo o que comemorar.

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2 comentários em “Mercosul e União Europeia: a canetada histórica de Bolsonaro e Macri

  • 1 de julho de 2019 em 14:35
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    Uma duvida: a transferência de indústrias europeias para a América do Sul não mitigaria em parte a questão do emprego?

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    • 2 de julho de 2019 em 01:25
      Permalink

      Mitigaria em parte, porque esse tipo de indústria de trabalho intensivo e baixo capital gera empregos de baixa remuneração. Temos o exemplo do México pós-NAFTA, com as fábricas maquilladoras. Esse tipo de fábrica apenas monta componentes mais sofisticados produzidos nos EUA, valendo -se do trabalho barato ao sul da fronteira. Trata-se, portanto, de um reforço das posições inferiores de países como Brasil e Argentina nas cadeias de produção de valor.

      Além disso, devemos considerar o fato de que estamos entrando numa nova revolução industrial, caracterizada pela automação generalizada e a inteligência artificial. Trabalhos repetitivos em todos os setores da economia – agricultura, indústria e serviços – estão com os dias contados. Então os países que não se inserirem nas cadeias produtivas de alta tecnologia e capacitação profissional estão fadados ao desemprego e informalidade generalizados, em níveis ainda piores que os existentes até agora.

      Conforme eu argumento no artigo, o problema não é o acordo de livre comércio em si, mas a combinação explosiva do acordo com as políticas de austeridade nos países sul-americanos, que acabarão com o ensino, a pesquisa e o investimento necessários à adaptação aos novos tempos.

      Resposta

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