O futebol que o capital não compra

* Por Gabriel Mendes

E não foi dessa vez que a Inglaterra ganhou um título no futebol profissional. Ao perderem a decisão da Euro 2021 para os italianos, os britânicos mantiveram-se presos no jejum de mais de 50 anos sem conquistas continentais ou mundiais. Com isso, seguem distantes das grandes seleções nacionais que ocupam o panteão dos gigantes do futebol. Isolada num passado remoto, sua última vitória relevante foi aquele título mundial mandrake meio roubado em 1966. Fora ele, a Inglaterra tem apenas uma medalha de ouro numa Olimpíada semi-amadora em 1912 e só.

Na Eurocopa deste ano, os ingleses até fizeram uma boa campanha, chegaram na final, mas morreram na praia. Os inventores do futebol jogam um futebol que é feio como seus príncipes. Se é que eles são mesmo os inventores, pois a Inglaterra adora dizer que é seu aquilo que não lhe pertence. E não seria a primeira vez em que a historiografia dominante apontaria algo que foi criado por africanos ou asiáticos como invenção inglesa. Mas assumamos que o futebol seja mesmo originalmente um esporte bretão, não é patético que eles não consigam ganhar nada quando se trata de sua seleção nacional?

Distância entre seleção e campeonato

Este fracasso é ainda mais risível se comparamos esta performance chinfrim em Copas do Mundo e Eurocopas com a exuberância de seu torneio nacional de clubes. Batizado com empáfia típica como o campeonato “número 1” do planeta, a Premier League conta com times poderosos como Manchester United, Chelsea, Liverpool e Tottenham. Tem o melhor técnico do mundo, o catalão careca e revolucionário Pep Guardiola, que comanda o Manchester City com perseverança de maestro. Como sucesso econômico e esportivo, a Premier League é a apoteose do capitalismo transnacional contemporâneo, apresentando no coração da Europa um futebol multiétnico cujo valor de mercado é estimado em aproximadamente 7,8 bilhões de euros.

Mas como explicar a disparidade entre estas duas dimensões do futebol inglês: seu campeonato nacional esplendoroso e sua seleção falida? Talvez seja pelo fato da Premier League ostentar um brilho que não é verdadeiramente inglês. Os maiores talentos daquele campeonato nacional não são nativos, mas jogam lá por conta da notável capacidade que a economia inglesa tem de parasitar a riqueza espalhada pelo mundo e concentrá-la nas mãos de poucos homens. Se no passado os ingleses saquearam diamantes, metais preciosos e obras de arte do resto do mundo, hoje eles capturam as mais reluzentes joias do futebol moderno onde quer que elas estejam. O problema é que a opulência do seu campeonato de clubes não se reflete na seleção. Que tristeza.

Pequena justiça anticolonial?

Pode ser o efeito de um jocoso feitiço pesando sobre o país. Talvez por conta do que a elite inglesa fez ao longo de sua história moderna. Para quem não sabe, a monarquia britânica assaltou as Américas, a África e a Ásia, rapinando tudo que encontrava de valioso e jogando ao mar todos que se opusessem ao colonialismo do império onde o sol nunca se punha. Com este apelido pomposo, o Estado inglês em aliança com o grande capital nacional britânico criou seu liberalismo. Em nome dele, promoveram na periferia do sistema capitalista aquilo que os fascistas da extrema direita alemã tentaram realizar na própria Europa sob o nome de nazismo: genocídio e expropriação através da ocupação militar do território de povos considerados por eles como inferiores.

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As populações nativas de Índia, Jamaica, EUA, África do Sul, Nigéria e China conhecem bem o racismo científico e a repressão sistemática das liberdades de povos não-brancos implementados por lideranças como Winston Churchill e outros reacionários assemelhados. Forjada na fricção conciliada entre uma realeza parasitária e uma burguesia espoliadora, a ação colonial britânica foi responsável por alguns dos maiores crimes dos últimos séculos. Crimes sem os quais não existiria o próprio capitalismo ocidental, nascido exatamente da acumulação primitiva de capital viabilizada por esta extração massiva de valor das colônias.

Sob a falácia do livre-mercado, o gigantesco Estado britânico, comandado por um punhado de aristocratas portadores do direito divino de viver do trabalho alheio, pilhou tudo que encontrou pela frente na sua aventura marítima expansionista. Ao lado das grandes corporações da terra da rainha, ajudou a inventar a escravidão moderna ao patrocinar o trafico negreiro transatlantico. Toda essa riqueza acumulada é visível nos números da Premier League. Com aquilo que o jornalismo esportivo domesticado chama de “poder econômico”, os clubes ingleses compraram todo primeiro escalão do que há de melhor em termos de material humano no futebol.

“Você não se importou quando mentiu. Nós não nos importamos com a sua morte”: torcedores do Liverpool comemoraram a morte de Tatcher (Reprodução/ESPN)

É verdade que os jogadores da seleção nada têm a ver com este passado de delitos de uma elite política e econômica forjada na pirataria. Além disso, na ilha também está o nosso alemão socialista Jurgen Klopp, entusiasta da educação e saúde públicas, e um inventor quando se trata de futebol. Seu clube, o Liverpool, é notório por odiar uma das figuras mais abjetas do século XX: Margareth Thatcher, uma dama de ferro quando se trata de concentrar riqueza na mão do 1% mais rico do país e destruir direitos trabalhistas. Poderia citar também a fantástica jornada do desacreditado Leicester na temporada 2015-16.

Mas mesmo que não se trate de buscar uma efêmera justiça anticolonial e só de gastar o sarcasmo mesmo, não é patético que a Inglaterra não ganhe absolutamente nada dentro do futebol?

Gabriel Mendes é cientista político.

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