Venda do Palácio Capanema é coisa de gente cafona e inimiga do Brasil

* Por Emmanuel do Valle

Nos últimos dias, andei remoendo essa notícia de que a União (leia-se Bolsonaro/Paulo Guedes) pretendia se desfazer por leilão de um grande número de prédios públicos, entre eles o Palácio Gustavo Capanema, no centro do Rio de Janeiro. Até que decidi escrever algumas coisas sobre isso.

No ano passado, a Unesco apontou o Rio como a capital mundial da arquitetura, destacando seu acervo que cobria todos os períodos da história do Brasil, desde a colônia. Deu no “El País”. A foto de destaque da matéria era a fachada do Palácio Capanema.

No filme “Orfeu Negro”, de Marcel Camus, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 1960, há uma cena no começo em que Eurídice (Marpessa Dawn), recém-chegada à cidade vinda do interior, atravessa o pátio do Palácio numa tomada feita do alto, simbolizando a modernidade e a imponência urbana do prédio.

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O Palácio Capanema foi projetado no fim dos anos 1930 por um grupo de notáveis que reunia Afonso Reidy, Lúcio Costa e um jovem Oscar Niemayer, orientados pelo franco-suíço Le Corbusier. Inaugurado em 1947, era um monumento de um país que se pretendia moderno e arrojado sem deixar de voltar os olhos para dentro de si, com seus azulejos de Portinari e seu terraço-jardim de Burle Marx.

O lançamento de sua pedra fundamental, em 1937, foi filmado por Humberto Mauro, pioneiro do cinema brasileiro. No filme, aparecem ainda nomes como Carlos Drummond de Andrade e Roquette Pinto. O edifício tinha como destinação abrigar o Ministério da Educação. Nada mais simbólico.

O Palácio Gustavo Capanema é uma das edificações mais representativas da arquitetura moderna brasileira. (Marcio Viana/Iphan)

E também é muito, muito simbólico que uma obra que reúna em sua gênese todos esses nomes que são motivo de orgulho para a cultura e a arte desse país seja tratada como um gasto, um ônus, um transtorno, algo a se passar adiante por um governo de tecnocratas estúpidos, que ostentam ignorância. De supostos (porque autodeclarados) patriotas que desprezam o que o país tem de mais rico. E, sobretudo, de gente cafona.

Nós pudemos atestar no caso recente da Cinemateca, e nunca é demais reiterar: essa gente é inimiga do Brasil. Essa gente quer destruir o Brasil. Essa gente precisa ser parada o quanto antes.

* Emmanuel do Valle é jornalista

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