Chacina em favela não é política pública

No governo de Wilson AuschWitzel é assim: toda semana uma nova megaoperação para a cidade, alguma favela que não seja em área de milícia é invadida de forma brutal, pessoas são mortas a esmo e culpabilizadas por suas próprias mortes e quem não é morto, é esculachado, tendo suas casas destruídas e sendo ameaçados de morte nos alto-falantes dos caveirões.

Nesta semana, um caveirão destruiu barracos na Cidade de Deus.

Não que tenhamos uma mudança lá muito substancial em relação a governos anteriores, mas o mis-en-scéne de notas oficiais lamentando a morte de mais um inocente faz falta. E, mais importante, faz diferença. A única exceção a esse padrão foram os governos de Leonel Brizola.

É fundamental deixar claro que isso não é uma política de segurança pública. Chamar essa atrocidade de política pública é, por si, desumanizar quem está na mira dos fuzis do Estado simplesmente por morar onde moram e possuírem a cor que tem.

Chamar chacina em favela de política pública é admitir que não tolera ou espera que 22% da população do município do Rio de Janeiro sejam cidadãos, sujeitos de políticas públicas.

Deixarei claro, serei repetitivo: chamar o que está sendo feito de política pública é dizer que UM EM CINCO habitantes da cidade do Rio de Janeiro não são cidadãos. Está desenhado o neoliberalismo ao extremo. Quem não cabe no orçamento tem que servir ao menos para gerar lucro da indústria das armas.

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Eu ia escrever sobre como pensar dessa forma é extremamente prejudicial para os outros 78%, que também sofrem por tabela com as políticas de extermínio na favela e com outras consequências ligadas a uma sociedade tão partida, tão sitiada, que a desumanização de 1 em 5 é vista como normal.

Mas infelizmente, estaria escrevendo ao vento, pois quem concorda comigo já concordava antes e quem não se importa que pobres, majoritariamente negros, sejam massacrados para que ele ou ela possam colocar suas cabeças no travesseiro e pensar que algo está sendo feito contra a criminalidade seguirá dormindo pesadamente.

Mas nós que sabemos – não por egoísmo, mas por reconhecer a humanidade em todas essas vítimas do capitalismo que são relegadas à miséria para que uns poucos possam ter mansões em Angra e apareçam ocasionalmente perto de onde eles moram para buscar um dos seus para fazer uma gincana midiática em troca de um farelo – não podemos apenas nos entristecer.

Precisamos agir, precisamos do poder, precisamos fazer diferente.

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