Podia ser Corbyn, mas é Boulos

A falência da centro-esquerda está distante de ser um problema exclusivo do Brasil. Após se vender por décadas como a melhor administradora do consenso social-liberal que foi estabelecido nos anos 1980, ela agoniza através do ocidente junto do consenso que abraçou.

Mas há uma exceção dentro dessa derrocada coletiva. O partido trabalhista inglês ganhou eleitores e chegou perto de vencer as eleições, mesmo partindo de pouco mais de 20% de intenções de voto cinco semanas antes da abertura das urnas. A receita lá foi simples: esquecer o modelo social-liberal e apostar num esquerdismo mais tradicional, de maior atuação do Estado na economia, habitação social e aumentos reais para servidores e no salário mínimo nacional.

É muito fácil minimizar esse movimento como algo específico à política de uma nação de primeiro mundo e dizer que isso não colaria no Brasil, mas é bom salientar que o Corbyn é o líder de partido mais à esquerda da longa história do partido trabalhista e sua persona está longe de ser a de um britânico típico. Estamos falando de um comunista, republicano, abstêmio e vegetariano. Não à toa, Corbyn é constantemente acusado de ser um traidor da pátria, por tomar atitudes que vão de encontro ao senso comum de viúvas do império que ainda prevalece naquelas pequenas ilhas.

No Brasil, a centro-esquerda também está desgastada, ainda que negue tudo isso. O modelo lulista apresentou suas limitações e o discurso político geral passou a ser violentamente puxado à direita, também pela incapacidade da esquerda de apresentar algo além da conciliação de classes que deu certo no país por uma década. Nos últimos quatro anos, houve bastante tempo para pensar em alternativas à hegemonia política do PT e tentar influenciar a política nacional sob uma perspectiva verdadeiramente de esquerda, mas, por um motivo ou por outro, todos os partidos que se dizem de esquerda falharam catastroficamente nessa missão.

O maior partido fora da esfera oficial do PT, o PSoL, maior candidato, portanto, a apresentar um novo caminho, se mostra incapaz de se manter fora da esfera extraoficial do PT. Após lançar a desastrosa Luciana Genro para falar em outro idioma na campanha de 2014, agora lança Boulos, um lulista, para 2018. Assim, a esquerda brasileira segue oferecendo uma solução conhecida para um problema que essa solução não mais resolve. Dizer que é o melhor administrador desse presidencialismo de cooptação que vigora no Brasil ainda é o caminho único da esquerda. Essa covardia vai custar caro.

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