A cadela do fascismo cansou de ficar só no cio

Se você se entende como um cidadão de esquerda – seja lá o que você realmente for – já deve ter notado que lhe cerca um sentimento de ódio. Já deve ter sido olhado de mal jeito, como um criminoso. Já deve ter sido xingado nas redes sociais. Já sentiu que alguém lhe odeia só porque você…é de esquerda.

Não é algo de agora. Mas esse sentimento ficou patente, principalmente, ao fim da trôpega passagem de Dilma Rousseff no Governo Federal. Podemos argumentar que a ex-presidenta não é (ou pelo menos não fez um governo) de esquerda, mas a opinião pública a via assim. Candidatos e políticos de oposição, eleitores de oposição, panfletos de oposição, especialistas (de oposição) sempre colocaram no PT a pecha de “esquerda”, e, convenhamos, em comparação com os outros 500 anos de Brasil, até dá para entender.

Para que o golpe armado por Temer e concluído por Cunha pudesse colocar o projeto do PSDB no Planalto, era necessário obter um bom número de pessoas dispostas a apoiá-lo. Com a ajuda do alto empresariado – de empresas de comunicação a vendedores de esfirras ruins – foi fácil.

O que víamos nos dias pré-golpe eram palavrões, xingamentos e ódio, muito ódio nas redes sociais e portais. Dava para ver a baba escorrendo e os olhos esbugalhados dos comentaristas atrás da tela. Mas a Internet é só a porta de entrada para outras drogas. O sentimento mais negativo que o ser-humano pode apresentar foi para as tribunas do Congresso e chegou às ruas quando os “manifestoches” vestiram a camisa da CBF ao lado dos patos amarelos.

Era contra a Dilma, mas era mais. Era contra o PT, mas não só isso. Era até contra Jean Wyllys e PSOL, que nunca foram do governo petista, mas também foi contra Wagner Moura ou qualquer um que defendesse a democracia. Contra “esquerdopatas” de qualquer qualidade. Contra “petralhas” e “mortadelas”.

Gente que “odeia o PT” e jamais escondeu. E que achou por bem considerar como “PT” qualquer coisa com tintas vermelhas. Sobrou até para a bandeira do Japão.

Mas principalmente, o ódio era contra o “líder da quadrilha”: Lula. Eu mesmo já tive um amigo de infância dizendo, com todas as letras, que gostaria da morte do Lula. Você já deve ter ouvido algo do tipo também. Não são os únicos, pode ter certeza.

Chegamos em 2018 e é ano de eleição (será?). Lula, se for candidato e a eleição insistir em acontecer, é favoritíssimo a subir a rampa do Palácio do Planalto no primeiro dia de 2019 novamente como presidente eleito.

Mas há gente pouca afeita a democracia neste país e a volta do ex-torneiro mecânico não deverá ser tolerada com facilidade. Normalmente, poderíamos desconfiar de um “golpinho à moda brasileira”, palaciano e em fogo médio, preparado por gente, inclusive, alimentada pelo próprio Lula.

Mas pode não ser de maneira tão branda.

No interior do Rio Grande do Sul, antes dos tiros, correligionários de Lula foram recebidos a ovos e pedras e agredidos até com chicote. Aqui já parecia grave, mas era até esperado, dentro do momento de ruptura muito clara que vivemos. Não causou grandes comoções.

Mas a cadela do fascismo já cansou de estar no cio. Ela precisa cruzar e emprenhar. E precisa parir.

Muita gente gostaria de ver Lula morto. Ódio que se explica na luta de classes (e falta de consciência da própria) e muito preconceito, mas, principalmente, sentimento negativo que foi alimentado por gente como Marco Feliciano, Silas Malafaia e Jair Bolsonaro, entre outros menos cotados, com acesso livre a microfones de longo alcance e redes sociais ativas (com ou sem bots) para falar a barbaridade que quiserem ao séquito de néscios e cavalgaduras que os seguem. Muitos deles, com armas na cintura.

Daí para alguém atirar para cima de um petista qualquer, mesmo que fosse “para assustar”, não custaria. E foi feito.

Qual o próximo passo?

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