A Internet escancarou a mediocridade do jornalismo brasileiro

Enquanto jornalista (diplomado, para o terror de Cerginho da Pereira Nunes) e observador atento da profissão desde criança, penso constantemente na transformação por qual passou a comunicação nos últimos anos e me vejo capaz de assegurar: a Internet e as redes sociais revelaram de maneira assustadora a mediocridade do jornalismo mainstream brasileiro, feito majoritariamente por gente branca e de classe média, quando não média alta ou rica.

Com a proliferação de blogs, sites e portais independentes, nota-se uma tentativa de fuga da obviedade que preenche grandes e quase centenários veículos de jornalismo. Com isso, passamos a consumir notícias e argumentos mais objetivos, menos chapa-branca, mais diversos – na cor, na voz, no gênero, na origem – não só no conteúdo, mas também no formato.

O dinheiro ainda permanece com o jornalismo empresarial, bancado pelos grandes grupos milionários. Com uma estrutura mínima e grana para pagar salários melhores, os grandes veículos ainda contam com um bom número de profissionais dignos e alguns excelentes, principalmente na reportagem.
Quando ampliamos o assunto para articulação de opiniões e ideias, porém, o cenário é outro.

Durante anos, lemos (vocês, eu não) o que escrevia, por exemplo, Bárbara Gancia. Com 40 anos de carreira, já escreveu para IstoÉ e para a Folha de São Paulo, onde foi colunista durante um bom tempo. Com sua coluna e suas opiniões vindas do ponto de vista de uma mulher branca da classe média alta de São Paulo, conseguiu se portar como um nome de peso do jornalismo de papel – ainda que ninguém tenha conhecimento de algo relevante que ela escreveu, reportou, opinou ou entrevistou.

Marcelo Tas. Foto meramente ilustrativa.

Gancia é, portanto, um dinossauro da comunicação brasileira. E graças a esse tempo todo no jornalismo, digamos, do século XX, ainda carregada com ela bastante importância em pleno ano de 2020, no seio da tal Era das Mídias Digitais.

É nesse ponto que podemos perceber como a mídia hegemônica consegue perpetuar suas ideias: primeiro, perpetuando também profissionais. Quando um grande jornalistão migra para as redes sociais, angaria facilmente centena de milhares de seguidores só porque tinha uma coluna na Folha ou um quadro na Band. Continua, assim, sendo alguém que as pessoas leem e ouvem. Uma formadora de opinião pública.

Bárbara é apenas o exemplo que me veio à cabeça após uma série de tuítes – mídia onde não há um editor amigo, nem é possível qualquer tipo de edição do conteúdo – lamentáveis, que culminaram em ataque ao rapper Emicida.

Outro exemplo é Luís Ernesto Lacombe. Notabilizado como apresentadores de esportes, jamais foi uma sumidade no assunto. Porém, neto de um imortal da ABL, com rostinho padrão e nome pomposo, Lacombe sempre esteve por aí, com sua vaga cativa na Rede Globo. Talvez a difícil arte de ler um teleprompter seja uma qualidade e tanta para se manter alguém tanto tempo bem empregado. Alguma reportagem marcante? Algum questionamento válido? Ninguém lembra.

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Entretanto, virou um grande “opinólogo” bolsonarista, ainda na TV aberta, que estendeu seu prazo de validade num período de abundância de verba federal. Deve continuar tendo vaga nas emissoras vendidas ao regime Bolsonaro. Mas, mesmo fora do veículo do século passado, carregará consigo centenas de milhares de seguidores nas redes. Portanto, não sairá do zero na hora de migrar de plataforma, o que fatalmente acontecerá – se já não aconteceu, não sei, não como lixo.

Gancia, Lacombe e seus pares ocupavam um espaço importante na opinião pública simplesmente porque era esse tipo de pessoa (branca, vinda de setores da elite econômica ou da burguesia) que, majoritariamente, eram escolhidas para serem apresentadores, articulistas, colunistas dos grandes veículos.

Seguidores nas redes são herança

A ferramenta de opinião pública mudou, e agora, a gente preta, indígena, periférica, tenta dividir a ocupação desses espaços e dar caráter multi-vozes a este país que é, afinal, multifacetado. Ainda sim, o jornalismo hegemônico não parece querer mudar seu perfil, guiado pelo caráter econômico de seus donos e ainda cheio desses “dinossauros” da comunicação.

E os profissionais que de lá saíram carregam com eles, automaticamente, tudo que foi feito antes. É uma espécie de herança por serem quem são. Te lembra algo?

Nesse momento, quando o leque de possibilidade se abre e a gente vê quem é quem nas 24h nas redes sociais e, por isso, consegue comparar com outro tipo de gente, fica claro como o jornalismo brasileiro se manteve medíocre, homogêneo e cinza para perpetuar os mesmos ideais durante décadas.

Quem sabe, um dia isso mude.

Por enquanto, sugiro consumir mais e mais veículos independentes e vozes diferentes.

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