Brasil de Bolsonaro, a república do Reizinho

Os leitores de mais de 40 anos – ou mesmo os de minha geração que sejam, como eu, curiosos com a TV dos anos 80 – certamente vão lembrar do personagem Reizinho, de Jô Soares, sucesso no programa Viva o Gordo!, da Rede Globo.

O monarca era muito baixinho, mas tinha um ego e um desejo de se autoafirmar imensos. Para se certificar de sua popularidade, se dirigia aos puxa-sacos perguntando quem/o que ele era. A claque, então, respondia: “Sois rei! Sois rei! Sois rei!”, que era basicamente o bordão do quadro. Pra completar, Reizinho ainda tinha em Eminência um conselheiro que lhe dava as soluções que ele não conseguia pensar sozinho, e um bobo da corte para animá-lo com algumas barbaridades ditas.

O povoado da comédia era uma monarquia, claro, mas poderia ser uma conhecida república: a Federativa do Brasil. Mais precisamente, o Brasil de 2019, comandado por Jair Messias Bolsonaro.

Como o personagem de Jô Soares, por onde anda, Bolsonaro faz questão de saudar sua farândola de lunáticos (como diz Fagner Torres) composta majoritariamente por homens brancos com claros problemas psicológicos no que diz respeito às suas sexualidades, mas que também conta com mulheres que parecem querer a submissão e negros que sonham em ser capitães do mato. Um claro exercício de masturbação do ego de um líder pequeno em cima de um povo confuso.

Um rei burro, tolo e pequeno, que precisava dos súditos para se autoafirmar.

Acontece que o Brasil não é uma monarquia há muitas décadas, mas uma república democrática (ou deveria ser), que fica cada dia mais frágil e manca, ainda mais após a chegada de Bolsonaro ao Planalto.

Longe de ser um país com veia democrática de fato, verdade seja dita, o Brasil começou a acabar com o que restava de sua república ao permitir que autoritários clamassem pela democracia para defender suas atitudes e escolhas…autoritárias.

Eu voto em quem quiser, estamos numa democracia” ou “Eu falo o que quiser, o Brasil é uma democracia” foram frases saídas das bocas e das teclas podres dos chamados bolsominions, os mesmos que, ironicamente, diziam que a gente vivia na ditadura bolivariana petista, vejam só.

Pois bem: foi assim, e com muita fake news e disparos de mensagens irregulares somados à crise econômica e à intensa perseguição midiática ao PT, que o fã de torturador e amante da Ditadura Militar ganhou seus milhões de votos e se elegeu presidente. Ou melhor: reizinho.

Ao se infiltrar no regime político que deixa claro detestar, o ex-capitão alçado pela gente racista e fascista, mas também pelos desesperançados e ignorante do “Oiapoque ao Chuí” ao posto de reizinho, parece não medir esforços para terminar com o que resta de espírito democrático no país, ferindo de morte, de dentro para fora, a já vulnerável democracia tupiniquim.

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Por ter ganho no voto – numa eleição fraudada e mais farsesca do que o normal para uma democracia burguesa – e não ter o mínimo de apreço pelo republicanismo, Jair Bolsonaro acha que é rei e se empodera para fazer, e principalmente, falar o que quiser, enquanto as instituições fecham os olhos para nepotismo em indicações, irregularidades administrativas e eleitorais e perseguições em órgãos públicos, isso para ficar apenas em alguns absurdos dos últimos dias que me veem à cabeça.

Enquanto os demais poderes fingem perplexidade – isso quando não apoiam abertamente o reizinho que faz arminha – em prol dos interesses em comum (leia-se: falência dos direitos básicos e desmonte completo do Estado) é difícil saber como impor limites a Bolsonaro.

Resta ao povo se organizar para resistir e atacar nas frentes possíveis, e por que não?, torcer para isso tudo passar logo enquanto nos deliciamos com histórias como as dos monarcas russos do início do século XX ou a da família nepalesa do início do século XXI.

Porque, tirando os personagens fictícios como o de Jô Soares, rei bom é rei morto.

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Um comentário em “Brasil de Bolsonaro, a república do Reizinho

  • 9 de setembro de 2019 em 16:46
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    Excelente comparação, ótimo texto!

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