Chacina do Jacarezinho não foi uma ‘operação policial’ qualquer

Moro a 500 metros de um dos acessos ao Jacarezinho, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Da janela do meu quarto, vejo uma pequena parte do morro, uma das maiores favelas do mundo. Daqui, acostumei desde cedo a ouvir e dizer coisas como:

– É tiro? Deve ser lá no Jaca.

Se do asfalto, a minha dignidade e a minha humanidade já foram embora ao escutar e falar coisas assim, o que sobra pra quem vive lá?

É desse lugar de fala quero dar dois centavos de contribuição sobre o que é Jacarezinho dentro da lógica da criminalidade carioca. Sei que muita gente de fora do Rio é leitor(a) deste espaço, por isso, acho importante contextualizar. Ressalto, entretanto, que tudo que sei é por uma vivência empírica enquanto vizinho da região e por uma leitura interessada, mas não tão profunda, de quem realmente entende do assunto como jornalistas especializados, caso de Cecília Oliveira; acadêmicos do tema, como o sociólogo José Cláudio Souza Alves e militantes da comunidade, caso do advogado Joel Luiz. Os três já foram entrevistados pelo podcast Lado B do Rio, não por acaso.

Jacarezinho: território, bunker e fama

Dentro da dinâmica de disputa territorial do crime organizado no Rio, historicamente dividido entre facções, a Favela do Jacarezinho não é uma favela qualquer. Dominada pelo Comando Vermelho desde sempre, o local é ponto-chave do grupo por vários fatores. Dentre eles, o alto faturamento na venda das drogas, a grande extensão territorial e localização centralizada privilegiada.

No Jacarezinho, as “operações policiais” não são corriqueiras como em muitas outra favelas. Elas acontecem pontualmente. Normalmente, levam muitos dias e também têm alta taxa de letalidade. Nesses casos, são intervenções para, digamos, “valorização” do trabalho policial. Entenda isso de várias formas. Mas a antropóloga Carolina Grillo explicou no Lado B do Rio #16.

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O faturamento na venda de drogas é muito alto, um dos maiores do Rio. É do varejo do Jacarezinho que saiu, por muito tempo, “a melhor cocaína” da cidade, como se dizia nos anos 80 e 90. São vários os relatos de celebridades que vinham buscar ou pediam o pó mágico distribuído no morro. E, historicamente, a polícia atrapalhava pouco essa dinâmica.

Do ponto de vista do território geográfico, o Jacarezinho é uma favela muito grande, também uma das maiores da cidade. Além de naturalmente acidentada e com passagens com barricadas ou sem possibilidade de entradas de carro. Para o crime organizado, portanto, um prato cheio para servir de bunker: armas e foragidos de outros territórios do CV se somam corriqueiramente aos que já existem lá.

Além do mais, o Jacarezinho tem localização privilegiada. Fica a menos de 10km do Centro da cidade do Rio. Um dos principais acessos à favela é pela Avenida Dom Hélder Câmara, a Avenida Suburbana, uma das principais vias da Zona Norte. O morro está ao lado do bairro/favela de Manguinhos, outro território importante na dinâmica do tráfico de drogas. Ambas atuam quase como siameses nesta lógica. Há alguns anos, a favela também é vizinha da Cidade da Polícia, que centralizou delegacias e outros setores da Polícia Civil. Além da proximidade com o Centro, alguns bairros da Grande Tijuca e do Grande Méier, polos urbanos da cidade, ficam próximos ao Jacarezinho.

Chefe preso, mas vivo

O chefão do tráfico do Jacarezinho está vivo. Para a lógica criminosa, é um motivo de atenção e dá a tônica de que ali não é um território qualquer. Preso há mais de 10 anos e um dos cabeças do CV, consta que Lambari ainda manda nas ações criminosas da localidade e tem uma mentalidade mais próxima aos grandes traficantes varejistas dos anos 80: assaltos na região não são bem-vindos pois espanta a clientela e atrai a polícia. Embora essa mentalidade esteja anacrônica e não possa ser tratada como um dogma, no Jacarezinho ela ainda aparece de vez em quando. Quando dessas espaçadas incursões policiais na favela, o tráfico costumava reagir com violência, fechando comércio, retaliando com atentados e coisas do tipo.

Favela do Jacarezinho tem particularidades na disputa territorial do crime. (Reprodução/ICICT/Fiocruz)

Por conta do tamanho, da importância, do dinheiro que circula e da quantidade de ‘soldados do tráfico’ e de armas no local, mexer com o Jacarezinho não é qualquer coisa.

Para quem não está ligando nome ao local: “Jacarezinho, Avião”, da música do Jorge Ben Jor, é a favela mesmo. Não sabemos muito bem o que o poeta, sempre misterioso em suas letras enigmáticas, quis dizer com o verso. Mas podemos especular. O “Jaca” também viu nascer o craque de futebol e atual senador Romário, além da antiga estrela do funk MC Serginho e da deputada afastada Flordelis. Já o cantor Belo foi preso em 2002 ao ser grampeado falando com Vado, que na época, era o chefe do tráfico do Jacarezinho. A favela é também a mais negra do Rio de Janeiro, como escreveu William Reis para a Veja Rio.

De volta a 2021: a chacina do Jacarezinho foi executada pela “Operação Exceptis”, realizada um dia depois do encontro entre o governador, o tal cantor gospel Claudio Castro, e o presidente genocida no Palácio das Laranjeiras. A ação foi coordenada pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente, a DPCA, para combater ‘os traficantes do local que aliciavam menores”.

Me parece uma tremenda jabuticaba uma ação direta contra o tráfico de drogas partir da DPCA, e não da DCOD (Delegacia de Combate às Drogas) ou da DRACO-IE (Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais) ou mesmo das delegacias superiores, embora estas tivessem na ‘operação’ dando suporte.

Soa como uma manobra uma ação desse porte parar em uma delegacia que pretende “proteger” menores. Afinal, como a DPCA, que deveria zelar pela saúde e pela vida dos jovens, encabeça uma “operação” de maneira tão violenta, matando tanta gente, inclusive, provavelmente alguns dos próprios menores que foram aliciados pelo tráfico? Matar pessoas na frente de outros menores, no quarto de crianças, é defender esses jovens? Que tipo de proteção a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro está oferecendo? Como uma ação que diz contar com “inteligência policial” mata tanto e prende pouco?

Nas internas dos homens fardados, diz-se que os números de mortos em operações são sempre subestimados. Se a polícia diz que matou 30, provavelmente morreu 40. Pra cada quantidade de corpos encontrado nessas matanças e levados para o IML, um está em um valão ou um matagal da localidade e ninguém (ou pouca gente) dá falta. Basta ver a quantidade de desaparecidos no Rio de Janeiro. “Quase pretos e quase todos pretos”, como diria Caetano e Gil

Afinal, quem são os mortos? A polícia, até a tarde desta sexta-feira, segue sem divulgar nomes. Só se sabe quem é o policial morto. Há escalas na lógica do crime. Considerar o chefão do varejo e um mero olheiro como ‘danos colaterais’ iguais é, para além do genocídio do povo preto, ineficaz do ponto de vista até da desculpa da tal ‘segurança pública’. Eram criminosos? Que tipo de criminosos? Quais criminosos? São algumas das perguntas que precisam ser respondidas, e não para justificar a matança, embora assim desejem a polícia e boa parte da sociedade.

Mudança na lógica do crime deixa dúvidas no ar

Durante os últimos 20 ou 30 anos, o carioca acostumou com um determinado movimento entre polícia e tráfico. As facções, suas alianças, suas guerras, a milícia atuando de uma forma, o crime organizado varejista de droga atuando de outra, a polícia atuando das duas… Seria natural o medo de acordar no dia seguinte com a cidade incendiada pelos traficantes da favela. Era de esperar algum tipo de retaliação que invadisse o asfalto. Mas isso parece que foi em outro tempo.

Parte da favela do Jacarezinho, uma das maiores do Rio de Janeiro (Leo Lima/Cafuné na Laje)

Esqueçamos tudo que sabíamos sobre o assunto nas décadas de 90 e 00. Nada mais faz sentido dentro dessa lógica. A disputa agora segue outras regras. O terrorismo de estado está mais forte do que nunca. Os relatos de favelas sendo “limpas” para o surgimento de milícias são recorrentes. O que houve no Jacarezinho? Foi um recado do braço armado bolsonarista ao STF ante a proibição das operações na favela durante a pandemia, decisão descumprida, rasgada e cuspida pela polícia? Ou foi um ousado recado dos grupos milicianos tentando ou deixando claro que irão tentar tomar o Jacarezinho do CV? Cabe destacar que o Comando Vermelho é, historicamente, a facção “inimiga nº 1” do estado há 30 anos. E, dentro da nova lógica de disputa, também se tornou a principal inimiga da milícia. Coincidência tremenda.

Ou ainda, a chacina do Jacarezinho tem ambos os aspectos e foi, ao mesmo tempo, um bilhete bolsonarista para o Supremo e um bilhete miliciano para o CV?

É importante lembrar aos que leem esse texto que o policial que aperta o gatilho do fuzil quase sempre sabe que está matando e quase sempre quer matar mesmo. Mas nem sempre, talvez quase nunca, sabe por que e por quem está matando. E também não liga que não saiba. Age por instinto e/ou porque foi ensinado assim.

De qualquer forma, não tenho as respostas para essas perguntas aqui, agora. Mas uma coisa eu tenho certeza: a chacina de ontem no Jacarezinho não parece ter sido uma ‘operação policial’ igual a outras.

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