Chegou a hora de sermos heróis de nós mesmos

Quando eu era adolescente, encantado pela Revolução Cubana que acabara de conhecer, eu costumava pensar e dizer que queria ter vivido durante a Ditadura Militar de 1964. Porque eu queria lutar contra ela. Lutar fisicamente. Fazer parte de movimentos, guerrilhas, contra-golpes. Não necessariamente atirando de fuzil porque eu sequer consigo matar uma barata voadora, mas de alguma forma, participar efetivamente da luta contra os gorilas verde-oliva que atravancaram o desenvolvimento social do país.

O tempo passou. Vivi, já mais velho até a fase adulta, tempos onde a democracia parecia plena. Descobri, então, que era só a democracia burguesa que funcionava, só para mim e meus pares da classe média do asfalto.

Mas ainda parecia um sonho. Só que eu dormia sonhando com Lula até acordar com Temer.

E o pesadelo começou.

Nesta quinta-feira, dia 4 de outubro de 2018, minha ficha caiu: um colégio elitista proibiu um livro contra a Ditadura Militar no Rio de Janeiro; ainda aqui na minha cidade, os neofascistas tomaram, aos tiros e berros, a Praça São Salvador, reduto da elite de esquerda carioca; e candidatos ao Legislativo do partido do líder do fascismo à brasileira rasgaram placas em homenagem à Marielle Franco. Do outro lado da Dutra, um candidato gay do PSOL foi agredido do nada.

O recado é para a esquerda, mas toda a população precisa saber que já somos um país fascista.

Mas a História não acaba aqui porque ela nunca acaba.

O desânimo e o fatalismo por parte dos companheiros progressistas e humanitários são sentimentos compreensíveis, mas que não condizem com a nossa história de luta.

Nós precisamos estar inteiros para o próximo domingo, 7 de outubro de 2018. As pesquisas, por enquanto, são claras: tudo indica um segundo turno entre Fernando Haddad, do PT, e Jair Bolsonaro, do PSL. As opções à mesa são simples: ou um governo de centro-esquerda, com seus erros e acertos, ou uma proto-ditadura de extrema-direita.

Segundo as projeções dessas mesmas pesquisas, no segundo turno, há um empate entre os candidatos. Essas projeções são distorcidas, afinal, segundo turno é um outro campeonato. Mas elas estão aí.

Até domingo, cabe a nós, democratas, conversarmos amigavelmente com quem ainda ouve argumentos e pode mudar de voto. É nossa missão demonstrar que os pontos econômicos do rascunho de projeto de um governo Bolsonaro será uma continuação do desgoverno golpista de Temer. Uma agenda neoliberal, de retirada de direitos, de privatizações. De chantagens e negociatas com os barões do agronegócio, a indústria armamentista e os pastores neopentecostais tomadores de dinheiro e usurpadores da fé alheia. E, claro, para piorar, tudo isso com o discurso zero humanista, fascista, homofóbico, racista, xenófobo e misógino que a gente já conhece, que com uma caneta na mão e uma faixa no peito poderá ser ainda mais mortífero.

Mas, nas urnas, ainda não tem nada perdido e as pesquisas, por enquanto, mostram isso.

Pé no chão, e no chão da rua. Pode ser no WhatsApp e nas redes sociais também, claro. Porque nessa brincadeira, o que vale é o voto na casinha. E cada voto conta. E cada um de nós vale muito até as 17h do dia 7 de outubro.

Mas a sensação é que não acaba aqui. Pelo contrário. Já na segunda-feira, independente do resultado, começará o próximo passo da escalada fascista no Brasil.

Por isso, chegou a hora de colocar adesivos dos seus candidatos, broches dos partidos que te representam, camisas dos seus heróis. Marquem território. Digam quem você é e de que lado você está.

A história para nós é de derrotas, mas não sem antes da luta. A luta é o que nos move.

Ganhar na urna vai ser importante, mas não será ela que jogará o fascismo pro armário. Precisamos estar preparados mental e fisicamente para o que vem por aí.

Nós estamos vivendo a História que será lida pelos nossos netos.

Por eles, chegou a hora de sermos heróis de nós mesmos.

Cronista do cotidiano, comentarista do dia a dia, palpiteiro da rotina, opinólogo profissional, sommelier da porra toda e deblaterador.

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