Como morrem os afetos?

Amor verdadeiro não acaba. Se acabou, é porque não era amor verdadeiro“, dizia a frase piegas escrita em cadernos, agendas e subnicks do MSN pelos adolescentes na época que eu era um deles. Sem conhecer nada de afeto (nem dos conceitos de ‘verdade’ e ‘fim’), os jovens, obviamente, estavam errados.

Neste momento, 100 dias de uma não-quarentena, a reflexão que trago ao público é que amores, amizades (o mais sincero dos sentimentos), paixões e afetos acabam, sim, mesmo os bem verdadeiros.

E como morrem os amores?

A pandemia da Covid-19 é um momento de ruptura imenso para o mundo inteiro. Ela chegou para nós no auge da divisão ideológica pela qual boa parte do chamado “mundo ocidental” passa, com lideranças neofascistas e de extrema-direita emergindo em países como Estados Unidos, Brasil e Inglaterra – não por acaso, os três países com mais óbitos causados pela doença.

Tal ruptura tem caráter definitivo, ouso afirmar. A pandemia, e mais precisamente a necessidade (e a contestação) do isolamento social, arregaçou ainda mais essa fenda ideológica crescente nos últimos anos e as controvérsias das relações interpessoais ultrapassaram a mera questão político-partidária.

Trata-se de um momento da História onde se divergem não só ideologias e tentativas de mundo, mas, principalmente, valores, princípios e preceitos, antes de qualquer coisa.

O que um dia foi um mero “eu voto em beltrano e você em cicrano” no convívio familiar mudou radicalmente. Transformou-se em um claro “eu quero preservar vidas e você não”. Nesse caso, não cabe conciliação com a tia ou o primo. Nem mesmo com o filho ou com a irmã o diálogo e o carinho, e portanto o afeto, serão os mesmos.

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O antes “sou pelo socialismo e você pela privatização” dos embates entre amigos de infância no bar modificou para um grave “eu acredito na ciência e você, não”. Como sentar no boteco (quando puder, um dia…) diante desse impasse perturbador?

Não escapam do leito de morte nem os afetos mais genuínos, de mão-única, mas que crescem desde o berço, se alimentando deles mesmos.

E se perdemos a ternura, Che?

Até estes vão para o corredor da morte quando, em um raro momento de exceção da História, passamos a refletir sobre esse afeto e concluímos que o esporte que amamos é, majoritariamente, comandado pelos crápulas que estão do lado da anti-ciência e da anti-vida. Qualquer coisa diferente disso é uma tremenda exceção.

Essa reflexão é a extrema-unção de um sentimento que deveria ser eterno.

A morte do afeto, neste caso, pode ser tão lenta quanto dolorosa. Porque parar para pensar na dor torna ela ainda mais visível e violenta. Racionalizar o afeto, neste caso, o desengano amoroso, é o primeiro passo para o fim do amor. E falo aqui do amor mais verdadeiro.

Forte, este afeto talvez sobreviva, mas, neste momento, se prepara para adormecer em um sono profundo, donde pode jamais se levantar.

Eu, e talvez você, caro leitor, somos sensíveis a dores e causas que, no geral, são coletivas. Mas hoje são, também, particulares. Nada do que foi será do jeito que já foi um dia, diria o poeta popular. Mais do que nunca, a premissa é real.

Porque assim como morrem as democracias, morrem os afetos. E, nesse caso específico, neste ponto da História, morrem juntos.

3 comentários em “Como morrem os afetos?

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