Entre o fatalismo e a utopia: o que restará do Brasil?

Já escrevi aqui neste espaço que a pandemia da Covid-19 “arregaçou ainda mais essa fenda ideológica crescente nos últimos anos no Brasil. Nunca antes na história deste país, tanta gente se mostrou mesquinha, estúpida, canalha e desumana. A escalada que começou no golpe em Dilma e teve seu ápice na eleição de Jair Bolsonaro e quetais, agora, ganha contornos de ponto final (ou não). É possível dizer que o Brasil como conhecemos há 20 ou 30 anos, que já não era grandes coisas, não existirá mais. O que restará do Brasil?

Essa ascensão dos desprezíveis foi catapultada pelas redes sociais, que não só publicitaram essa parcela de seres inumanos, como foram além: organizaram os estúpidos em grupos que, à primeira vista, parecem pequenos, mas são, além de barulhentos, representativos.

Afinal, você é capaz de enumerar neofascistas em vários postos e cargos importantes. Por exemplo: sei que você conhece, pelo menos de nome, um ou uma vil figura reacionária atuando incisivamente na política institucional. Na Câmara de Vereadores da sua cidade tem um ou uns; na Assembleia Legislativa de seu estado também, talvez uma dúzia; no Congresso, a gente conta algumas dezenas e, claro, no Poder Executivo nem se fala: o representante-mor do espírito (de porco) do tempo está lá de faixa presidencial no peito e cloroquina na mão.

Mas, vamos aumentar essa base de observação. Você, caro leitor ou leitora, provavelmente conhece alguém na administração de uma empresa pequena – a padaria, a vendinha, a farmácia, a oficina – que compartilha com a mentalidade mais tacanha que existe em território brasileiro. O dono do restaurante da sua rua, a dona do salão onde você faz o cabelo, alguém por aí no teu bairro, responsável por alguns salários de fome e subempregos, deve compartilhar memes do ‘mito’ no Facebook ou no WhatsApp todos os dias.

Se você é um servidor público, também na administração pública certamente conhece alguém em um cargo importante que é um “mini-bolsonaro”. Seu chefe imediato, seu gerente, sua coordenadora, de preferência aquela pessoa que está na função sem precisar de concurso, nomeada em 2019 ou 2020, ou mesmo antes. Algum deles deve ser um liberalzão que, talvez (talvez!), até repudie o que Bolsonaro fala, mas acha o Guedes o herói da economia.

Cortina de fumaça, muleta ou jogada comercial: a cloroquina foi a fiel escudeira de Bolsonaro e bolsonaristas na pandemia

Ampliemos: se você está nas redes sociais, você já deve ter lido algum juiz, ministro de tribunal superior, procurador ou desembargadora que divulgam suas “opiniões” abertamente nazistas. Certo?

Tem mais: empresários milionários, donos de redes famosas e de lojas que faturam bilhões, que anunciam toda hora na televisão ou no Google que sejam bolsonaristas…conhece? Claro que conhece. E líder religioso reacionário, fundamentalista, fanático e obscurantista, conhece? Certamente. E médico que, para ficar alinhadinho com o neofascismo, receitou remédio sem comprovação científica, foi à TV e à Internet defender a cloroquina, a ivermectina, etc, conhece? Claro que conhece!

Minha categoria não escapa, não, pelo contrário. Tá lotada: jornalista neoliberal alinhadinho com a extrema-direita, conhece? Vários, né? Na TV, no rádio então..e YouTuber reaça fazendo fortuna e mexendo com corações e mentes dos webespectadores, conhece também, né?

“Ah, a cultura nos redime”, costumamos concordar. Mas aquele cantor que você gostava, aquela atriz que você curtia ver às 20h, o diretor de filmes, a autora de novelas, o produtor de musical, e se eles se mostraram tão reacionários ao ponto de apoiar ou passar pano para Jair Bolsonaro? Pois, sim.

Perdemos 15% dos brasileiros?

A maior parte da população tem se mostrado contra Jair Bolsonaro. Entre arrependidos de ter apertado o 17 e os desesperados perdedores de outubro de 2018, a rejeição ao governo neofascista é clara.

Somos maioria, ou, como diz Eduardo Moreira: “Somos 70%”.

Isso é importante. Mas isso não é tudo.

Onde estão esses 30%? Alguns, claro, estão indecisos ou, principamente, são pessoas que não estão nem ligadas no que está acontecendo, exploradas que são e só tentando sobreviver. Ok, tiremos a metade. Em julho, o DataFolha informou que 15% da população adulta é bolsonarista fiel. Significa dize que 10 ou 15 milhões de brasileiros, após tudo que a gente vem mostrando e tudo que Jair Bolsonaro vem fazendo, não arredaram o pé de suas escolhas. Pelo contrário, se fincam nos ideais bolsonaristas cada vez mais. Considero todos pequenos Bolsonaros, todos filhos de Jair. Poderíamos até nomeá-los de Zero Seis, Zero Sete, Zero Quinze, Zero Vinte e Um, Zero Cento e Trinta e Cinco, Zero Mil Duzentos e Noventa e Quatro…

Esses 15% não estão mais no armário. Não resumem mais seus impropérios a gritar nas mesas do bar ou sussurrar no restaurante chique. Estão nas redes sociais organizados, partes diretas ou indiretamente integrantes do bando que idolatra a cloroquina na porta do Planalto, ataca a vacina chinesa no Facebook, exuma corpos de rivais políticos para tripudiar. Estão, esses 15% de brasileiros (milhões de adultos!), vilipendiando mais de 100 mil corpos mortos pela Covid-19 e pela necropolítica de Jair Bolsonaro.

Leia também:
Parece incrível, mas nota de 200 reais tem fundamento técnico
Vereador tem pelo menos quatro familiares em cargos comissionados no município
Bocardi comprova o óbvio: a Rede Globo tem lado. E não é o nosso

Não por acaso, esse número é parecido com o de brasileirinhos que afirmam que não houve ditadura. Não são maioria, mas não são poucos. E, pode apostar, são os mesmos.

Ora, como prospectar o Brasil pós-Bolsonaro com essa gente toda ainda por aí, organizada, fazendo barulho e atuando escancaradamente contra as instituições republicanas? Que vença Ciro, ou Lula, ou Haddad, ou Boulos em 2022, estarão por aí, ainda, esses 15% dos brasileiros que sempre foram reacionários, mas que não voltam mais para o armário. Que não se contentarão só em “não concordar” com um governo minimamente republicano (o qual chamarão de comunista), ou fazendo uma oposição no Legislativo, mas sim, continuarão aí disparando suas fake news no zapzap, administrando muita (e pouca) grana, ditando rumos de boa parte da economia, dentro da administração pública, mandando no Judiciário, nos canais de TV e rádio, gerando conteúdo nas redes sociais…

Como pensar em um novo Brasil sem colocar essa gente de volta para o armário? Como imaginar um Brasil avançando e progredindo só pensando na institucionalidade, na conciliação, como se fosse possível ignorar juízes, jornalistas, desembargadoras, pastores, médicas, empresários?

É revolução ou barbárie. E quanto mais de barbárie aguenta nosso sangue, nossos corpos, nossas mentes?

Um comentário em “Entre o fatalismo e a utopia: o que restará do Brasil?

  • 14 de agosto de 2020 em 12:50
    Permalink

    Bons textos, caríssimos. Por que os 70% não são barulhentos? É porque não temos tanto capital? Ou algo mais?

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pin It on Pinterest