FHC: oráculo para o jornalismo, irrelevante para o povo

Menos de 24 horas depois do segundo turno das eleições municipais de 2020, realizado em novembro último, Fernando Henrique Cardoso, 89 anos, deu entrevista ao UOL. Com aquele mesmo rosto que nos remete ao professor universitário renomado, o ar intelectual que lhe deu fama de um grande estadista e o prestígio de um quadro político popular que nunca foi, o ex-presidente tucano é uma espécie de oráculo da política tradicional para o qual os veículos da mídia hegemônica correm quando algo, qualquer algo, acontece. E que o povo não dá a menor bola.

Ter em FHC o seu norte político é, talvez, a amostra mais clara da preferência partidária das empresas de comunicação do Brasil. Para ilustrar o que digo e não parecer apenas uma impressão: só no Roda Viva, da TV Cultura, FHC participou 14 vezes em 34 anos. Cabe ressaltar que a emissora é do governo estadual de São Paulo, capitania hereditária pertencente ao PSDB, e sua audiência é irrelevante. Mas os demais veículos fazem parecido.

Claro que o ex-presidente tem trajetória política relevante no pós-ditadura, embora sua fama fosse de “ruim de voto” até vestir a camisa de criador do Plano Real. Mas a maneira como FHC é tratado pelos colegas jornalistas que estão no conforto do ar-condicionado das redações não condiz com o calor das ruas.

Ninguém quer ouvir FHC falar.

Senão vejamos: o presidente da virada do século não conseguiu fazer sua sucessão e viu Lula, enfim, ganhar uma eleição em 2002. FHC deixou o Palácio do Planalto com maior taxa de reprovação do que aprovação: para 36% dos brasileiros, o desempenho do presidente foi ruim ou péssimo contra 26% dos que achavam que ele foi ótimo ou bom.

Amigos e rivais, Lula e FHC têm muitas diferenças, a começar pela popularidade. ( Lula Marques/Folhapress)

Ora, caro leitor e cara leitora, a grande realidade é que Fernando Henrique Cardoso foi um presidente medíocre que vive da fama do Plano Real, implantado no governo de Itamar Franco enquanto era ministro da Fazenda. Qualquer criança nos anos 90 com boa memória lembra que foram anos difíceis de salários arrochados, acesso ao consumo dificultado, educação e saúde quebradas, empresas estatais importantes vendidas para os amigos do rei. O Brasil era um anão econômico e diplomático. Do mesmo tamanho que voltou a ser após o golpe em Dilma Roussef. Mas se você não quiser acreditar na memória das crianças, tudo bem. Procure pelas comparações dos indicadores sociais e econômicos dos anos 90 e dos anos 2000.

Muro baixo

É sedutor olhar um senhor sociólogo branco que domina o português, tem título honoris causa e livros publicados e compará-lo com o atual presidente, um chimpanzé mal-amestrado. Dessa forma, é fácil acreditar que o tucano realmente foi um grande estadista. O muro é baixo, quase um meio-fio.

Porém, vá a qualquer lugar onde o povo está e pergunte por Fernando Henrique.

Nas ruas, seu nome nunca é citado. Em parte porque, passado quase 20 anos, muita gente não lembra de seu governo, claro. Mas também não houve o chamado “legado”. Não há nada de bom no Brasil em que se aponte e falemos: “graças ao governo FHC!”. Praticamente nada se aproveitou dos anos tucanos. E do que deu para aproveitar, Lula foi lá e melhorou. E muito. Quem lembra de 2002 para trás tem pouca coisa positiva a recordar, principalmente se levarmos em conta que os governos seguintes do PT, principalmente o de Lula, foram muito melhores em praticamente tudo.

Para se ter uma ideia da impopularidade do ex-presidente tucano: sua página no Facebook tem menos de 500 mil curtidas. No Twitter, menos de 300 mil seguidores. No Instagram, nem 13 mil. Isso não quer dizer muita coisa. Mas quer dizer alguma coisa. Compare com os números das redes do Cabo Daciolo…

E o PSDB? Ninguém liga também

O partido do qual é cacique, o PSDB, tentando não ser relegado à linha auxiliar do bolsonarismo, se presta a fazer apenas um simulacro de oposição ao governo Bolsonaro. As críticas pontuais, principalmente no âmbito dos costumes, não são refletidas nas votações do partido no Congresso. A tucanada está sempre alinhada ao neofascismo na pauta econômica. Se os grandes jornais comemoram o enfraquecimento do PT após o golpe em Dilma – com participação fundamental desses veículos, ressalta-se sempre -, por outro lado, parecem fingir não ouvir o “recado das urnas” a Fernando Henrique e seus partidários.

Voltando na eleição que abre esse texto, notamos que o PSDB foi o partido que teve a maior perda em relação a 2016 no quesito “habitantes governados “: 14,3 milhões de pessoas deixaram de ter um tucano na prefeitura. Graças a megalópole paulistana, o partido ainda lidera esse ranking. Os companheiros de FHC ainda foram os que mais perderam prefeituras em números absolutos: de 785 para 512 prefeitos eleitos, ou seja, 273 a menos.

Tem mais: de 2014 para 2018, o PSDB perdeu 29 milhões de votos no primeiro turno presidencial. Enquanto Aécio Neves teve 35 milhões, Geraldo Alckimin somou apenas 5 milhões. Mesmo dentro do partido, ainda forte principalmente em São Paulo, onde o carioca FHC fez sua carreira política, a influência do ex-presidente parece mínima em tempos de João Dória controlando a máquina partidária. Os presidenciáveis de outrora, tucanos de até então alta plumagem abençoados por FHC, não apitam em mais nada. Alguém sabe do paradeiro de José Serra, Geraldo Alckimin e Aécio Neves? Ninguém se importa.

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Embora presidente eleito e reeleito nos anos 90, FHC continua “ruim de voto”. Afinal, é possível afirmar ser ínfimo o número de eleitores que apertam o 45 nas urnas por influência do ex-presidente. Não há nenhuma evidência, nem dentro do PSDB, que Fernando Henrique seja influente, que suas palavras repercutam, que suas ideias construam debates. Mas a mídia hegemônica insiste em tratar o sociólogo como um grande oráculo, um homem a ser ouvido sempre e um consultor político para tudo. Mesmo sem qualquer relevância para a população. Mesmo com pouca ou nenhuma relevância para o próprio partido.

O desespero pela atenção de FHC para uma entrevista é comovente. O ex-presidente opina sobre Bolsonaro mesmo após lavar as mãos em 2018; faz análises sobre Lula, mesmo sendo trucidado no comparativo entre as gestões; fala sobre tudo que o repórter deseja. Responder o que perguntam é o que manda a boa educação, sujeito polido que é. Mas por que perguntam tanto? Quem quer saber o que acha ou deixar de achar FHC?

Ninguém. Somente a mídia empresarial, seus ricos donos e seus sócios de negócios. Por que será?

O jornalismo brasileiro, além de medíocre na essência como contei neste texto, é altamente partidário. Tem legenda, símbolo e cores. Mas periga, novamente, ficar de fora da disputa em 2022 e lavar as mãos na “escolha muito difícil” entre o PT e o fascismo que se avizinha. Mas a entrevista com FHC estará lá na segunda-feira seguinte para ninguém ler ou ouvir.

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