Malu Gaspar, Lava Jato e a ideologia dos outros

Em sua coluna em O Globo publicada na última sexta-feira, a jornalista Malu Gaspar mostrou o quanto permanece apegada à Operação Lava Jato. A articulista é uma das vozes mais lavajatistas da mídia empresarial atualmente, mesmo quando ainda atuava em um podcast liberal menos mesquinho do que outros. E esse apego é mero suco de ideologia dominante, como diz o camarada Alcysio Canette.

Aqui, importa pouco quem é Malu Gaspar. O que é relevante é o que ela diz, formadora de opinião que é. E o que ela diz tem corpo, gosto, cheiro e jeito de ideologia liberal.

É sempre importante lembrar disso. Porque para a opinião pública em geral, apenas jornalistas da mídia contrahegemônica, veículos independentes e assumidamente de esquerda são ideológicos. Jornalistas que falam, escrevem e editam na mídia empresarial também têm suas ideologias. E esse texto cometido pela articulista de O Globo é carregado de ideologia.

Apagando a história ao bel prazer

Intitulado “Anular processos não apaga a História” – uma chamada por si só cretina, convenhamos – o texto se inicia com Malu citando uma acusação de corrupção da década de 90 envolvendo a Odebrecht. Explica sobre o “escândalo” e escreve sobre a defesa de Emílio Odebrecht: “o argumento colou na imprensa da época“.

Ora, claro que colou. Faltou o texto explicar o porquê. A jornalista não explicita como a defesa de um grande empreiteiro ganharia adesão na imprensa empresarial em tempos de governo de direita, na década do auge do neoliberalismo brasileiro. Talvez o departamento comercial do veículo para o qual trabalha atualmente saiba explicar.

Adiante, o texto ressalta que o esquema corrupto de Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e quetais foi “captado ilegalmente por um hacker“. Perceba: o texto afirma com vigor a suposta ilegalidade da ação do hacker, passando por cima do ordenamento jurídico que admite a utilização de provas ilícitas para a defesa. Mas na frase anterior, chama de meros “desvios” a formação de quadrilha de procuradores e juiz para burlar a lei, quebrar a estrutura empresarial em prol de interesses externos e prender a maior liderança popular do Brasil.

Lula ficou preso de maneira injusta por mais de 500 dias. E tem gente que ainda defende. (Francisco Proner/Reuters)

O texto segue. A autora fala que as decisões contra a Lava Jato “têm enorme serventia político-eleitoral, ajudam a construir narrativas“. Essa parte parece até um deboche. Simplesmente omite (será que esqueceu?) que a própria operação teve “enorme serventia político-eleitoral” e ajudou a construiu narrativas o tempo inteiro, diariamente, em todos os principais veículos de comunicação do país, durante quatro ou cinco anos. A operação hoje desmascarada serviu para alçar Sérgio Moro, seu principal rosto, ao status de herói. Tornou o juiz um “presidenciável”, claro, com absoluta benção da grande mídia e seus financiadores, que serviram de assessoria de imprensa em tempo integral para a operação. Graças à Lava Jato e tão somente a ela, Moro virou ministro da Justiça! Após sua saída, continua figurando como possível candidato às eleições de 2022. Falo aqui do ex-juiz, mas podemos elencar uma enorme quantidade de quadros que se elegeram em nome da narrativa da Lava Jato e da caça à corrupção e aos corruptos. Foi graças a essa narrativa, inclusive, que o Brasil afundou no neofascismo bolsonarista. Alguém tem dúvida quanto a isso?

Malu entra no final do seu texto dizendo que “no Brasil, quando o assunto é corrupção, a história se repete.” A articulista de O Globo usa de Karl Marx só para justificar a utilização dos lugares-comuns de sempre, as palavras-chaves típicas como “corrupção”, “nosso dinheiro”, “escândalos”. Ela só não escreve (esqueceu de novo?) que, no Brasil, a história também se repete em perseguições de governos de centro-esquerda.

A coluna diz também que a história “não se anula com canetadas“. Aparentemente, mais um lapso da jornalista: esqueceu que tudo que foi feito no âmbito da Operação da Lava Jato no que diz respeito a Lula, cerne da questão, foram canetadas. E canetadas flagrantemente ao arrepio da lei. Decisões absurdas de condução coercitiva e acusação sem provas (só com “convicção”) contra Lula. Para não soltar o ex-presidente, Moro despachou até de férias. Essa aberração não é uma “canetada”?

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Ao finalizar, o texto garante que as “narrativas políticas contra a operação são cada vez mais simplistas“. Aqui, mais uma ironia: seu próprio texto usa e abusa de jargões e argumentos rasteiros anticorrupção. Em momento algum a coluna tem a capacidade de lembrar, por exemplo, de fazer uma crítica ao capitalismo e como o sistema utiliza e propaga a corrupção como método. Zero profundidade.

Malu é apenas um nome

Cabe lembrar que Malu Gaspar em O Globo é apenas um exemplo. Todo articulista tem sua ideologia. Todo jornal tem sua linha editorial. Por vezes, coincidem. Outras vezes, o veículo usa apenas de seu poder econômico para pagar bem e fazer com que o colunista expresse a sua vontade. A famosa “voz do dono”.

O xis do problema não é esse. Todos têm suas ideologias, suas referências, seus repertórios, e a formação política de um ser humano não pode nunca ser isenta. O que prejudica o debate público é que para o leitor médio, a ideologia está apenas nos jornalistas de esquerda. O ideológico são os outros. É a esquerda que via de regra se assume. Quem é socialista se diz socialista, quem é comunista se diz comunista, quem é anarquista se diz anarquista, e todo conteúdo que sai dali você sabe que está alimentado com a ideologia do autor ou da autora.

Já para os que são pagos (e bem pagos) para escrever na mídia empresarial, paira propositalmente uma nuvem. O verniz que se dá é de analista imparcial, mero observador, alguém que não é “nem de esquerda nem de direita”

E essa, mais do que uma narrativa simplista, é uma narrativa mentirosa.

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