Não vai ter jeito: vamos ter que falar de Jair Bolsonaro (com os indecisos)

A discussão da esquerda virtual nesta semana, mais precisamente nas horas que antecederam a segunda-feira à noite, era se não havia exagerada divulgação da entrevista do presidenciável Jair Bolsonaro ao que foi um dia um programa de entrevistas chamado Roda Viva, da TV PSDB Cultura.

Para muita gente, o alto engajamento nas redes dos detratores do candidato boçal faria o Ibope da emissora tucana subir e, posteriormente, os bolsominions usariam esse sucesso para endossar o voto no líder das pesquisas (sem Lula). Afinal, já pipocou fake news – sempre elas – de uma “suposta pesquisa mostrando Jair ganhando em 1º turno”.

Na entrevista, ele (e nenhum outro candidato, verdade seja dita) falou alguma novidade relevante. Nós, com acesso à informações na palma da mão, não mais teremos nenhuma novidade se sentarmos à frente da TV. Claro, há ainda muita gente que se informa pela televisão, mas não exatamente em emissoras como a Cultura. O efeito de um debate ou uma entrevista na TV paulista é ínfimo.

Outras cabeças pensavam o contrário: era a hora de mostrar que está atento, subir o tom, enquadrar o facho e mostrar o quão maligno para a nossa frágil democracia ele é.

Não vou debater qual estratégia seria a melhor, mas o fato é que a repercussão foi mesmo alta. Para os opositores, negativa; para os adoradores, positiva. Ou seja, todo mundo acertou e errou, em mais uma mostra de quão subjetiva e cheia de variantes é a análise do fenômeno Bolsonaro.

Quando o deputado federal do PSL fica 1h ou 2h falando sem parar, é fato que sairão mentiras deslavadas, como caçar o Lamarca aos 16 anos; negacionismos bisonhos, como ao dizer que os portugueses sequer pisaram na África, além de um sem número de frases desconexas misturadas à chavões e palavras de efeito sem nenhuma profundidade.

O que parece negativo à imagem dele para os detratores, entretanto, é visto como positivo para seus adeptos. Sua horda de seguidores, nas redes e na vida real, vibra a cada momento em que um desses absurdos é malandramente bem colocado em uma entrevista, seja para “se descontrair” (reparem nas risadinhas que ele dá) ou seja para desviar a atenção do assunto perguntado e verdadeiramente relevante. De defender a ditadura a chamar o mundo de comunista, as barbaridades que Bolsonaro vomita caem como uma luva em 20% da população brasileira que não pode, não sabe ou não consegue fazer um debate mais considerável sobre qualquer assunto.

O tio no churrasco, o taxista, a vizinha, o porteiro do prédio, seu chefe ou uma colega de trabalho: você já discutiu com alguém como Bolsonaro, ou seja, sem ideias, só um contraditório vago e nutrido de um (falso) moralismo apoiado no jeito aparentemente másculo e vigoroso de falar. Logo, é nítido que Bolsonaro representa uma parcela (grande) do eleitorado. E sabe o que é pior? Faz parte da democracia. Pois só nela, no sentido do sistema político, isso é possível.

Muita gente boa achou que Bolsonaro arrefeceria e faria um discurso mais eleitoral e menos bélico. Mas o deputado tem muito a perder e mudar seu jogo a essa altura do campeonato, com 20% dos votos praticamente garantidos, seria arriscado.

O que me leva a crer que o deputado sequer tem mesmo vontade de ser presidente. Comandar um nação exige o pulso que ele diz ter, a coragem que faz parecer ter e a honestidade que tenta mostrar, mas exige muito mais: conversar, dialogar, pensar, escutar, trabalhar. Suas décadas de mandatos certamente lhe ensinaram que isso é necessário. E mostraram a todos que ele não tem essas capacidades.

De longe (ainda bem), observo que Jair gosta dessa coisa de ser o “mito”. É natural que seja seduzido e prefira ficar no panteão dos astros intocáveis para continuar se locupletando com seus 10 ou 15 ou 20 milhões de eleitores. Mesmo sem mandato (os dos filhos já estão garantidos), o ex-capitão pode continuar vivendo de doações e “palestras” depois da eleição, rompendo Brasil afora chamando negros de obesos e índios de vagabundos e ouvindo como respostas aplausos e urros (Acredite: tem quem pague para ouvir essas barbaridades que podem ser encontradas de graça nos comentários de notícias de portal).

Apesar de tudo, e muito por isso tudo, não dá pra ficar tratando mais Bolsonaro como burro. Muito menos atacar seus eleitores, que se hoje votaram nele, ontem talvez tenham preferido o mesmo que você prefere hoje. Entender todo esse cenário requer estudo, mas o bate-papo no elevador pode ajudar lá na frente.

Não dá para mostrar uma superioridade moral e intelectual sobre quem ainda quer refletir sobre o futuro do país, parcela atropelada, mas ainda existente: os indecisos. E o principal, que é não alimentar o discurso de ódio, onde os bolsominions são bem melhores.

Além do mais, Bolsonaro é nazismo, fascismo, homofobia, racismo, xenofobia e misoginia, mas não é só isso. Tem um braço no agronegócio, quando ataca o MST; outro no militarismo, de onde nasceu e cresceu; um pé ou dois no mercado, já que se preocupa menos com a economia e mais com o cu dos outros. Afinal, liberalismo econômico e fascismo são filhos do mesmo pai.

Resumidamente: vamos ter que falar de Bolsonaro. Usando apelidos, outros nomes, sinônimos ou ocultando o sujeito. Mas a ideia defendida pelo candidato – longe de ter sido criada por ele – já está difundida. Mesmo perdendo a eleição, não importa, o projeto personificado nele não perderá força. Pelo contrário: é ganhando o pleito e tomando o choque de realidade de despachar do Planalto que ele e todo o projeto da extrema-direita tem mais a perder. Por isso, ganha mais perdendo. E a gente precisa se preocupar com isso.

Ressalvadas as devidas diferenças, o exemplo da eleição de Donald Trump serve para não tratarmos como piada ou mera burrice o avanço do fascismo à brasileira.

Não só por ele ter fraquejado e ter feito filhos iguais a ele, desafiando Darwim, mas por toda a ideia que representa ser um organismo vivo que cresce em momentos de crise como a atual e em um país desamparado como nosso.

A verdade, a busca por uma sociedade mais igual e a qualidade do bom debate são nossos aliados, mas contra nós, há a ignorância acadêmica, a carência de direitos e a pós-verdade.

O trabalho é de formiguinha. Continuemos pois o inverno ainda não chegou.

Cronista do cotidiano, comentarista do dia a dia, palpiteiro da rotina, opinólogo profissional, sommelier da porra toda e deblaterador.

2 comentários em “Não vai ter jeito: vamos ter que falar de Jair Bolsonaro (com os indecisos)

  • 31 de agosto de 2018 em 22:00
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    Oh seu burraldo! Sabe nada, né o zé! Deixa te ensinar: os Portugueses nunca botaram o pé na África PARA CAÇAREM negros. Não precisavam, nunca se interiorizaram, pois as diversas tribos em guerra já praticavam a escravidão e vendiam esses cativos aos traficantes de escravos.

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    • 4 de setembro de 2018 em 14:43
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      Olá Marcelo,

      Como qualquer criança de 10 anos que frequenta a escola sabe, europeus colonizaram a África. Entre outros países, Portugal também estava nesse contexto, tendo colonizado territórios como Angola e Moçambique. Até onde sabemos, a colonização se dava pela navegação e não via wi-fi. Saindo um pouco da escolinha da tia e indo um pouco mais a fundo, sabemos também que, ao lado do Congo, a Angola (colônia portuguesa) foi o país que mais cedeu negros para a escravidão no Brasil.

      Recomendo uma volta à sala de aula com alguma urgência. Talvez duas ou três vezes na semana já te ajude. Esse aperitivo fica por conta da casa.

      Um grande abraço.

      Resposta

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