O Brasil escolheu a barbárie. O preço já está sendo cobrado em corpos

Água. No dia 6 de fevereiro, uma tempestade no Rio de Janeiro causa desmoronamentos e enchentes que deixaram, ao menos, seis mortos.

Ar. No dia 11 de fevereiro, o helicóptero que levava o jornalista Ricardo Boechat faz pouso forçado no meio de uma rodovia em São Paulo e é atingido por um caminhão, matando o piloto, Ronaldo Quattrucci, e o famoso âncora.

Fogo. Incêndio que teria começado em um ar-condicionado mata, no dia 8 de fevereiro, 10 adolescentes atletas do Flamengo no Centro de Treinamento do clube, no Rio de Janeiro.

Terra. Barragem de rejeitos de mineração da Vale se rompe em Brumadinho (MG), no dia 25 de janeiro, invadindo a cidade matando, pelo menos, 160 pessoas e deixando praticamente o mesmo número de desaparecidos.

Muitas tragédias em poucos dias de 2019 fez o brasileiro correr para explicações espirituais. No kardecismo, o ano seria o fim de um ciclo, avisado há décadas por Chico Xavier. Ou algo assim. Nas religiões de matriz africanas, o orixá regente Ogum está executando as penas estabelecidas pelo orixá do ano anterior, o justiceiro Xangô. Ou alguma coisa parecida. Outras religiões devem ter suas explicações também.

A desse mero escriba não é do além, mas dá para dizer que tem a ver com a força da vontade. Afinal, tudo que vive o Brasil apenas o reflexo da escolha pela barbárie. Essa opção, é bom que se diga, não começou em outubro de 2018. Vem de antes, bem antes.

Não de agora, talvez desde sempre, o brasileiro médio é sedento por sangue do seu próximo e não tem qualquer apreço pela vida alheia. Somente em outubro passado, entretanto, decidiu formalizar de papel passado os tempos de ódio, de mortes, de negligência com o próximo e desvalorização da vida, ao eleger um porta-voz desse espírito do tempo.

Nesse caldo, tempera a crise econômica, cuja recuperação ainda parece longe, e o consequente abandono do aparelho estatal. Ou seja, a tendência é que “acidentes” como esses acontecerem ainda mais. Nos quatro casos, a negligência (para dizer o mínimo) dos grandes entes, públicos e privados, parece evidente até mesmo para quem não é perito.

Logo, essa é uma tendência no Brasil. Ressalta-se que nada disso chega a ser novidade, mas, de fato, assusta pela letalidade e a pouca distância temporal entre os fatos.

Consequência disso também é o aumento (mais!) da violência urbana. Como a operação policial mais letal do Rio de Janeiro em doze anos, e o “excesso” com tons de crueldade cometido pelo segurança que matou um rapaz, no mesmo problemático Rio de Janeiro. A novidade, além desse notada brutalidade em abundância, está na reação orgástica da sociedade – a mesma, claro, que escolheu colocar Marcelo Crivella, Wilson Witzel e Jair Bolsonaro nas cadeiras de prefeito, governador e presidente – e até dos próprios governantes e “representantes do povo”.

A escolha do Rio de Janeiro (e do Brasil), feita há décadas e formalizada há alguns meses, já começou a cobrar seu preço, e o alto valor será pago em corpos – negros e pobres, majoritariamente, como sempre.

Órgãos públicos que deveriam fiscalizar e zelar pela vida vão, cada dia mais, sendo esvaziados, desqualificados, aparelhados. Entidades privadas preferem se preocupar com o balanço financeiro e o que sobrará em caixa.

Numa sociedade marcada pela desvalorização da vida humana, que escolhe abandonar o Estado enquanto ente fiscalizador e valorizar a política do lucro, o que posso afirmar é que as tragédias estão só começando.

Aguentemos firme.

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