Presos em festa na Zona Oeste eram milicianos?

(na foto, o ator Sandro Rocha em cena de Tropa de Elite 2)

No último sábado, 7 de abril, uma megaoperação da Polícia Civil prendeu dezenas de pessoas acusadas de pertenceram a um dos maiores grupos de milícia do Rio de Janeiro. As prisões aconteceram durante uma festa, em um sítio em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Quatro suspeitos tentaram fugir e foram mortos em confronto com policiais.

Quase 150 suspeitos detidos, no mesmo lugar e na mesma hora em uma mesma operação, é um fato que chama a atenção por si só. Raríssimo, que não costuma acontecer nem em grandes ações policiais contra o tráfico nas maiores favelas do Rio.

Segundo familiares de muitos dos presos, a festa em questão teve ingressos comercializados e muitos dos levados ao cárcere estavam ali apenas para curtir o evento. Já de acordo com a polícia, todos foram identificados como envolvidos com o grupo criminoso e, a pedido do Ministério Público, continuarão presos preventivamente Apenas oito adolescentes apreendidos foram liberados.

Até aqui, a mídia hegemônica parece ter tratado muito bem dos fatos. Mas algumas coisas ainda não foram faladas, ao menos nesse caso específico.

É fato já conhecido que a milícia no Rio de Janeiro não é mais como era há alguns anos. Grupos de traficantes de drogas começaram a ter o modus operandi miliciano, como a prática de extorsão à comerciantes e a venda de serviços como o famigerado gatonet. Coisas do capitalismo, afinal.

Destaca-se ainda que o contrário também começou a acontecer: grupos de milicianos começaram a traficar em alguns pontos. Desde então, a disputa de território tomou a proporção de hoje. Mais capitalismo, afinal.

A coisa se misturou a tal ponto que o termo milícia hoje é não necessariamente trata do que tratava tempos idos. E a pergunta que fica é: será que no caso dessas prisões em Santa Cruz, eram de fato, milicianos que a polícia procurava?

Dos 159 presos, apenas três eram militares, segundo o Jornal O Globo: um bombeiro e dois do Exército. Policial militar nenhum foi preso, tampouco policial civil. Bem diferente de anos atrás, quando tais grupos eram compostos, principalmente, por policiais e agentes do Estado, seja na ativa, aposentados ou expulsos, além de seus “amiguícias”, termo coloquial utilizado para definir os “amigos de policiais”, normalmente tão armado e violento quanto os colegas.

Somado a isso, um fato curioso: ao ver a imagem dos detidos naquela já famosa fila indiana preparada pela polícia, dava para perceber o perfil racial dos presos. Quase todos negros ou quase negros. Ser negro não impede ninguém de ser miliciano, mas o perfil (principal no comando) das milícias de anos atrás era diferente. Basta uma olhada na lista da CPI realizada na Alerj, há 10 anos, e que contou com nomes de políticos e, claro, policiais.

É importante dizer que com toda essa mudança no perfil, na forma e no formato, esse caso pode até envolver os “novos milicianos”, de fato. Mas fiquem certos que não é essa milícia que a CPI comandada por Marcelo Freixo (PSOL) denunciou. Também não é essa suspeita de mandar matar Marielle Franco (PSOL). A que nos interessa mais, o inimigo invisível, é a milícia composta por agentes do Estado, com acesso a banco de dados, arquivos, processos, armas, prédios públicos e votos. Aquela do Tropa de Elite 2, saca?

Veremos cenas dos próximos capítulos. Pretendemos, dentro em breve, levar algum especialista para explicar isso melhor pra vocês no podcast Lado B do Rio.

Cronista do cotidiano, comentarista do dia a dia, palpiteiro da rotina, opinólogo profissional, sommelier da porra toda e deblaterador.

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