Seis momentos que mostram: o Brasil está preso em um esquete de Hermes e Renato

São muitas as expressões que ajudam a explicar (um pouco) do que é o Brasil. Como a famosa frase “O Brasil não é um país sério”, atribuída (ao que consta, erroneamente) ao presidente francês Charles de Gaulle. Autoexplicativa, fala de uma nação do século passado que parecia não saber andar para frente, onde predominava o pensamento retrógrado, corrupto e a bagunça.

“A crise é, sobretudo, estética” é de autoria do meu colega panelista Fagner Torres. Bem menos popular, mas tão explicativa quanto a anterior, a frase virou xodó de muita gente que nos acompanha em nosso podcast Lado B do Rio. Demonstra com certa precisão o péssimo gosto no formato – além de todos os demais defeitos de conteúdo – dos atuais donos do poder do neofascimo à brasileira.

Além dessas duas e tantas outras, tenho usado uma que me parece apropriada para este Brasil 2019, quando a tragicomédia tupiniquim se juntou ao trash, desenhando um Brasil malfeito, sujo, surrealista e, até por isso mesmo, estranhamente engraçado:

Estamos presos em um esquete do Hermes e Renato.

Hermes e Renato: humor temperado com o absurdo e o trash – Reprodução

Ao leitor com menos de 30 anos, é importante explicar a referência: Hermes e Renato foi um programa de humor que surgiu nos anos 2000 na finada MTV. Politicamente incorreta, muitas vezes com toda sorte de preconceito, mas também fazendo críticas ácidas, a trupe de atores formada por Marco Antônio Alves, Fausto Fanti, Adriano Pereira, Felipe Torres e Bruno Sutter usava e abusava do absurdo nos esquetes e paródias montadas com doses cavalares de qualidade duvidosa de vídeo, som e edição.

“Palhaço Gozo”, “O Currador do Futuro”, “Joselito Sem-Noção” e “Boça” foram alguns dos quadros/personagens que ficaram famosos no tão louco quanto engraçado programa do começo do século.

Aos que lembram do bem-sucedido grupo de humor da MTV, não será difícil notar certas semelhanças nos seis episódios (e cabia mais!) listados que me dão a certeza: O Brasil de 2019 está aprisionado em um definitivo e extensíssimo Hermes e Renato.

1 – “Tô igual paraquedas com ele, tô com ele e não abro”, diz Mourão sobre Bolsonaro

O vice-presidente general de Bolsonaro é constantemente visto mais como rival do que como aliado, tanto dentro quanto fora do Planalto. Em abril, Mourão cunhou esta frase GENIAL sem se dar conta (?) do que disse. Ato falho, brincadeira ou burrice? De qualquer forma, inusitadamente engraçada, a frase poderia ter sido proferida em uma entrevista qualquer do “Jornal Jornal”, paródia jornalística do grupo de humor.

2 – Thiago Gagliasso é nomeado para cargo na Secretaria de Cultura do Estado do Rio 

Irmão do ator Bruno Gagliasso e bolsominion juramentado, Thiago conseguiu uma boquinha sendo nomeado para o cargo em comissão de assistente da Superintendência de Artes da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (SECEC). Já não bastasse tamanho estranhamento, a pasta explicou que Thiago é um “influenciador digital com grande número de seguidores, trazendo a experiência do seu canal no Youtube e perfil no Instagram para as redes sociais da SECEC”.

Na busca na plataforma de vídeos, só se acha um canal com o nome de Thiago, com gloriosos 2.544 inscritos e parcas três produções. No YouTube, também encontram-se algumas idas do Gagliasso menos famoso a programas de entrevistas do quilate de Luciana Gimenez, Antonia Fontenelle e Rica Perrone, que não são, mas poderiam ser personagens de Hermes e Renato, sim. Já Thiago é a cara do Padre Gato, não?

3 – Após votar a favor de decreto de armas, Kajuru afirma: “quero que meus eleitores se fodam” 

O bizarro senador (!) Jorge Kajuru, eleito pelo PSB-GO e agora sem partido, falou exatamente isso aí. Essa é tão Hermes e Renato que até Justo Veríssimo, o político que odiava pobre de Chico Anysio, sentiria vergonha, mas caberia tranquilamente em alguma paródia do horário eleitoral da trupe da MTV.

4 – Véio da Havan exalta Moro ao “conhecê-lo” e é corrigido 

Alerta crise estética: Luciano Hang, o empresário que cometeu trocentos crimes eleitorais ano passado (e fiscais, desde sempre), é voz ativa em prol do governo neofascista. Não bastasse o Véio da Havan, que nem é tão velho assim, ser uma figura insana por si só, ele ainda me aparece de terno verde, gravata e lenço amarelo ao lado de Sérgio Moro neste vídeo bizarro. Um Documento Trololó piorado. Clique se tiver coragem.

5 – Sérgio Moro vai ao Programa do Ratinho

Inimigo da imprensa hegemônica, o bolsonarismo passa por sérias dificuldades para se comunicar com o grande público quando não é via zapzap. Prova disso é que o ministro da Justiça escolheu o tosquíssimo Programa do Ratinho, do SBT, para se explicar sobre a #VazaJato. Lembrou-me o nome de uma famosa peça de teatro: “Greta Garbo, Quem Diria Acabou no Irajá”. Afinal, Moro, quem diria, parou no Ratinho. Ambos paranaenses, Carlos Massa e Moro são mais parecidos do que muita gente achava, mas que ficou trashmente engraçado, ficou. Nem Fausto Fanti e companhia imaginariam…

6 – Deputado Boca Aberta entrega troféu da Champions a Moro 

Agora, a cena que motivou este texto. Moro de novo, mas aqui, foquemos no que importa: o excelentíssimo deputado e sua alcunha, do PROS-PR (Ê Paraná…). Se já não bastasse o nome de guerra, o parlamentar BOCA ABERTA teve essa grande ideia de presentear o ministro SEM BOCA em sabatina na Câmara com uma “réplica” da Champions League. Nome, vestimenta, troféu, enfim, tudo ornando perfeitamente para um grande esquete do Hermes e Renato.

Por enquanto, é só. Mas como diz o Chico Barney, voltamos a qualquer momento com novas atualizações porque são só seis meses de governo Bolsonaro e certamente, vem mais por aí!

Away!

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