Austeridade econômica: por que o Flamengo não é o Brasil?

O assunto do momento é o Flamengo, campeão da Copa Libertadores e do Brasileirão 2019. Após o sétimo ano de uma administração que segue princípios profissionais, o rubro negro da Gávea enfim transformou o sucesso financeiro, elogiado já há alguns anos, em sucesso esportivo. Naturalmente, tudo que envolve o clube mais popular do país tem imensa ressonância, não apenas pelo quantitativo da torcida como por sua distribuição por quase todo o território nacional. Os governantes de plantão tentam tirar sua casquinha (com o beneplácito da diretoria do clube, é necessário reconhecer) e até deputados de um partido que se diz novo andam por aí nas redes dizendo que o Flamengo é um exemplo de como a austeridade fiscal é recompensada.

Mas porque isso é uma falácia?

Em primeiro lugar, conforme já escrevi no texto Família Brasil? Por que não devemos comparar orçamento familiar com o público, é errado comparar o orçamento público de um Estado-Nação com uma entidade privada, seja uma família, seja um clube de futebol. Ao contrário do Estado-Nação, um clube não pode emitir moeda para se financiar.

É grande e histórica a discussão entre economistas sobre os limites e riscos do financiamento de déficits públicos por emissão de moeda. Eu me filio àqueles que acreditam que as restrições à emissão, é a capacidade que os mercados internos têm de atender à demanda fomentada pela emissão.

Em um cenário recessivo como o atual, o financiamento do déficit por emissão é uma política anticíclica, que contribui para a manutenção do nível de atividade econômica, sem necessariamente provocar inflação, já que a maior parte dos produtores está operando abaixo de sua capacidade de produção.

Pois bem, no ano de 2012, último da gestão da ex-presidenta Patrícia Amorim, o Clube de Regatas do Flamengo apresentou um déficit de cerca de R$ 60 milhões. Como não pode emitir moeda, o clube precisava financiar este déficit de alguma forma. As opções eram endividamento bancário, antecipação de receitas futuras (cotas de TV, principalmente) ou o bom e velho calote.

Endividamento bancário compromete receitas futuras e, nas condições deterioradas que o clube tinha à época, tratava-se de operação arriscada para os bancos que, por isso, cobravam taxas de juros elevadas. Antecipação de receitas é uma prática comum e extremamente nociva nos clubes brasileiros. Imagine que você gaste acima do seu salário e todo mês cubra o buraco antecipando parte de seus salários futuros. Seu salário recebido será cada vez menor a cada mês. Dar o calote é o pior de todos. Os credores entram na Justiça, vencem e as dívidas se ampliam exponencialmente com a aplicação de juros e multas.

Para presidente do Flamengo: Paulo Guedes. Fica a sugestão do editor! | Créditos: Aluisio Mauricio/Fotoarena

Em dezembro daquele ano a Chapa Azul, presidida por Eduardo Bandeira de Mello, venceu as eleições no clube. A chapa, uma coalizão entre novos associados e figurões empresariais com o objetivo de transformar o clube, propunha adotar uma administração com princípios profissionais. Assumindo no início de 2013, custos foram racionalizados e até mesmo cortados. Jogadores e técnico de alto salário tiveram seus contratos rescindidos ou não renovados. Esportes olímpicos que não retornavam receita tiveram seus atletas de alto rendimento dispensados. Um time relativamente modesto foi montado para a temporada. Austeridade, portanto. E foi poupando para transformar o déficit em superávit e pagando dívidas que o Flamengo pavimentou o caminho para sua reconstrução, certo? Errado.

A racionalização das despesas e a administração responsável foram essenciais, sobretudo em um primeiro momento, mas o Flamengo não teria chegado onde chegou sem uma diversificação e aumento substancial de receitas. O balanço de 2012 aponta uma receita de cerca de R$ 210 milhões de reais. O quarto maior do Brasil, à época. O montante representava pouco menos de 60% do que faturou o Corinthians, campeão da Copa Libertadores e do Mundial de Clubes daquele ano.

Do total da receita, pouco menos de 50% era de cotas de TV, desde o ano anterior a maior do país, ao lado do Corinthians. Patrocínios respondiam por menos de 20% do total e a arrecadação em bilheteria havia sido de menos de R$ 10 milhões, apenas 5% do total. Não havia um programa de sócio torcedor. O valor arrecado era ligeiramente superior naquele ano ao do E.C. Vitória, que disputou a Série B.

Em 2013, já no primeiro ano da nova administração, a receita total aumentou em cerca de 20%. Enquanto os direitos de TV se mantiveram estáveis em cerca de R$ 100 milhões, o patrocínio aumentou em 60%, a bilheteria, impulsionada pelo título da Copa do Brasil, foi multiplicada em seis vezes. Um programa de sócio torcedor foi criado e em seu primeiro ano rendeu R$ 16 milhões. Mais de R$ 50 milhões em dívidas foram pagas e o déficit caiu para R$ 19 milhões.

De modo a não fazer o leitor dormir com os detalhes financeiros ano a ano, pulemos para 2017 e 2018, últimos anos do segundo mandato de Bandeira de Mello (reeleito no final de 2015 concorrendo contra uma chapa formada por dissidentes da Chapa Azul de 2012, que propunham uma radicalização do modelo, sendo mais agressiva na obtenção de receitas).

O faturamento em 2017 chegou a mais de R$ 600 milhões. O de 2018 ficou abaixo disso, em torno dos R$ 510 milhões. Os direitos de TV, em torno de R$ 200 milhões, eram o dobro de 2012 e 2013, mas respondiam por percentual menor da receita total do que naqueles anos. Os patrocínios chegaram a R$ 90 milhões, enquanto a bilheteria se manteve estável em relação a 2013.

Que momento… | Créditos: Nayra Halm/Fotoarena/Folhapress

O programa de sócio torcedor triplicou a receita do ano de estreia, chegando perto dos R$ 50 milhões. E principalmente em 2017, a venda de direitos federativos de atletas quase empatou com os diretos de TV, beirando os R$ 200 milhões, muito por conta da venda do jovem Vinícius Júnior, a primeira grande venda do clube em muitos anos.

No final de 2018, uma chapa de oposição formada por dissidentes da Chapa Azul em aliança com algumas lideranças tradicionais do clube venceu a eleição com a promessa de transformar o sucesso financeiro em esportivo. O clube bateu na trave de obter conquistas relevantes com vice-campeonatos de torneios nacionais e internacionais nos anos de 2017 e 2018, e campanhas medíocres na Copa Libertadores, grande obsessão.

A promessa era a de manter o profissionalismo na administração financeira, mas ser mais agressivo no mercado. Novas vendas de direitos federativos de atletas no fim de 2018 e início de 2019 forraram o caixa para contratações. A alta arrecadação, pressionada pelo pagamento de dívidas nos primeiros anos da nova filosofia de administração, agora estava em grande parte liberada para custeio. Portanto, o clube tinha capacidade não apenas de contratar (analogia: comprar um carro) como para pagar altos salários (analogia: por gasolina, óleo e manter a manutenção em dia).

Portanto, se o Flamengo for exemplo para a administração pública, é preciso ter em mente que: 1) A administração pública possui menos restrições para financiar déficit; 2) se for pra seguir mesmo o exemplo do “Mais Querido”, o Estado deveria criar novos impostos e aumentar os existentes; e 3) não se desfazer de patrimônio (no caso do clube, jogadores) sem reposição à altura ou, o que é ainda melhor, sem investir para multiplicar esse mesmo patrimônio.

Por fim, a boa administração não é um fim em si mesmo. Um clube de futebol existe para disputar campeonatos e vencê-los quando possível. A administração pública existe para promover o maior bem-estar possível dos cidadãos. Estado não é para dar lucro.

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