Não dá pra conversar com fascistas. Mas o contraponto é necessário

Desde que a radicalização política tirou os monstros do armário, a partir das manifestações de 2013, com escaladas na eleição de 2014, nos protestos pró-impeachment em 2015, na consumação do mesmo em 2016 e, ao que tudo indica, neste ano eleitoral de 2018, todos nós temos experimentado o convívio com um discurso fascista cada vez mais escancarado em nossas redes sociais. Parentes e amigos mais ou menos próximos passaram a arrotar seus preconceitos e ideias mais torpes no facebook e em grupos de whatsapp, ecoando naqueles que sempre pensaram parecido e antes não ousavam dizer essas coisas em público.

A execução da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) atiçou a tigrada antes mesmo que seu corpo desfigurado por cinco tiros (sendo quatro na cabeça) fosse sepultado. Brigando com as evidências mais óbvias, já circulam amplamente memes de que ela foi vítima dos bandidos que “defendia” dentre outras provocações indiretas de “agora o PSOL chama a polícia?”. Obviamente que a reação emocional no calor dos acontecimentos varia entre dar um murro na cara de quem diz isso num momento desses, fazer com que engulam, pedaço a pedaço, o celular utilizado para propagar essas coisas ou simplesmente excluir essas pessoas do nosso convívio virtual. Afinal, cultivar úlceras não é legal.

Entretanto as redes sociais não são habitadas somente pelos fascistas ativos ou pelos nossos, do campo progressista. Há uma grande massa em disputa, que ora pende para um lado, ora para outro. É preciso lembrar que Brizola foi eleito governador do Rio de Janeiro duas vezes, o PT venceu as últimas quatro eleições presidenciais brasileiras, Eduardo Suplicy foi senador por São Paulo por 24 anos e tantos outros exemplos. Ao abandonarmos as arenas de debates virtuais nós deixamos esse público para ser influenciado exclusivamente pela tigrada, sem contraponto. Desde ontem (15 de março), tenho tentado controlar meus instintos mais primitivos e evitado mandar todo mundo à merda com algumas estratégias. A ideia não é conversar com fascistas, mas se contrapor publicamente a eles. São três os tipos mais comuns em redes sociais.

O Fascista Ativo

Não tente convencer o fascista ativo a mudar de ideia. Ele é uma alma perdida. Só o Gulag Canavieiro, no mínimo, resolverá o problema dele. Mas é preciso se contrapor a ele em posts abertos ou grupos de whatsapp heterogêneos. Faça perguntas. Explique memes e vídeos editados descontextualizados. Faça-o dizer abertamente suas barbaridades. Peça para explicar piadas e indiretas. Exponha que aquela figura que na maioria das vezes se apresenta como bom cristão defende execuções em massas, geralmente em favelas, inclusive de crianças, execuções de inocentes como efeito colateral, sem o menor remorso, e o seu profundo desprezo por negros, homossexuais e mulheres.

O Fascista de Ocasião

Este é um tipo muito comum. Pessoa sem maior reflexão política que resolveu se tornar “politizada” nos últimos anos, em geral bebendo apenas da grande mídia e do senso comum. Também é usual que este seja o “indignado com tudo isso que aí está esses políticos são farinha do mesmo saco”. Daí que ele ou ela vai compartilhar os memes dos fascistas, sem ao menos pensar sobre isso. Para eles, adotar a mesma regra acima, questionar de forma direta se o significado é esse mesmo. Exemplo: “Marielle foi morta pelos bandidos que defende”. É mesmo? Tem toda pinta de execução, no mesmo padrão de outras execuções feitas por policiais, que ela denunciava. Diante do questionamento, o fascista de ocasião na maioria das vezes tira o time de campo. Curte o comentário e não fala nada, ou se defende dizendo que “apenas compartilhou”. Funciona quase como terapia de conversa: ao ser confrontada, a pessoa ouve a barbaridade que estava falando

Os Observadores Silenciosos

Esse é o grande campo de disputa. As pessoas que estão nas redes, pouco publicam, mas tudo leem. Se expostas apenas ao discurso fascista, acabarão se convencendo daquilo como verdade absoluta. Tenho tido retornos positivos, no privado, de quem observa contrapontos. Mas atenção: é importante se colocar numa posição de questionar, sem “passar sermão”, o que costuma ser visto como arrogância e prepotência. É da nossa cultura certo anti-intelectualismo. Costuma ser mais útil pontuar nossa opinião aos poucos, conforme o discurso fascista vai se desnudando. É preciso muitas vezes ser didático para desconstruir minimamente o senso comum. Por mais que o estômago embrulhe e o sangue ferva de ler o que essa gente escreve.

5 comentários em “Não dá pra conversar com fascistas. Mas o contraponto é necessário

  • 16 de março de 2018 em 15:45
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    Valeu pelas dicas Daniel, realmente não da pra ficar quieto lendo tanto absurdo que é compartilhado essa abordagem vai ser mais efetiva mesmo

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  • 16 de março de 2018 em 19:41
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    A maior dificuldade é realmente manter a saúde mental diante dessa gente tóxica. Chega um ponto em que só ler essas loucuras fascistas já é o suficiente para dormir com raiva e contaminado por essa energia negativa.
    Mas é aquilo, né… a luta deve continuar, mesmo que virtualmente.

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  • 17 de março de 2018 em 10:28
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    Obrigada pelo seu texto. Encontrei aqui palavras sensatas em meio a grande baboseira compartilhada em meu feed. Cheguei a esbravejar com raiva com duas pessoas, que neste caso se encaixam nos dois primeiros perfis. E só consegui aumentar minha raiva. Agora tenho um norte a usar nesses casos.

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  • 17 de março de 2018 em 22:32
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    Obrigado pela análise desse momento “inquisitor”.
    De minha parte, todas as condolências à família, amigos e eleitores de Marielle.
    Paciência e educação venceremos mais essa!

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  • 8 de junho de 2018 em 02:54
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    Já tenho essas praticas a um bom tempo, e com isso muitos de meus “amigos”, me bloquearam, hehehe, o bom disso é que menas pessoas neutras tem contato com o discurso dessa gente que acaba ficando restrito a sua bolha, temos que disputar espaço na rede com essa gente, não vale a pena perder tempo discutindo, quando ver um meme tosco o melhor a se fazer é contrapor com bastante informação e referencias.

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