O calote que é ruim só quando a gente não gosta do caloteiro

Das muitas histerias que vemos por aí nos últimos anos, uma recorrente é a indignação contra o financiamento brasileiro de obras no exterior, geralmente em países “comunistas” amigos. Obras de infraestrutura como o porto de Mariel em Cuba, o metrô de Caracas, na Venezuela e outras na Bolívia, Equador e Angola. Todas essas obras contaram com o financiamento do BNDES a empresas brasileiras que tocavam a obra e, na maioria das vezes, contaram com parte das garantias de pagamento por conta do Governo Brasileiro.

Há muitos motivos estratégicos para se financiar obras no exterior. Em geral, facilitar para empresas brasileiras ou para o próprio governo brasileiro o uso dessas instalações. Portos no Caribe, no Pacífico e na costa africana podem ser fundamentais para algumas estratégias de comércio internacional. O mesmo vale para o acesso privilegiado ao gás boliviano ou ao petróleo angolano. E tudo isso dentro da lógica do grande capital. Utilizar-se de um grande banco público de desenvolvimento não é nenhuma invenção brasileira. A Companhia Siderúrgica Nacional – CSN, foi construída nos anos 1940 com recursos de bancos americanos. O eternamente incompleto Programa de Despoluição da Baía da Guanabara tem recursos do Banco de Desenvolvimento Japonês. Quem financia expansão de infraestrutura na África hoje em dia basicamente são bancos chineses. Quando se descola essas ações de alguma estratégia de projeto nacional, o que é o caso do atual governo, realmente a coisa deixa de fazer sentido.

Mas voltando aos indignados de plantão “contra-tudo-isso-que-aí-está”, o maior argumento contra o financiamento de obras no exterior é que não podemos gastar uma fortuna com “esses comunistas” quando a nossa própria infraestrutura está caótica. Os cerca de U$S 3 bilhões (ou R$10 bilhões) financiados no exterior parecem muito dinheiro, mas quando colocados em perspectiva, não tem o mesmo impacto. Na lógica de projetos, esse valor é aplicado ao longo de vários anos. O Ministério dos Transportes, Portos e Aviação, responsável por grande parte das obras de infraestrutura no Brasil, teve previsto apenas para 2018 um orçamento de mais de R$20 bilhões. Isso após cortes de mais de 20% em relação a anos anteriores, quando chegou perto dos R$30 bilhões. Além do mais, os recursos liberados pelo BNDES não são do orçamento fiscal e nem a fundo perdido. Eles voltam. Caso não voltem, as garantias são executadas. A maior parte delas bancárias. Dependendo do contrato, parte da garantia era do Governo Brasileiro. Aí sim os recursos orçamentários regulares entram no jogo, para garantir o pagamento do empréstimo. O Governo Brasileiro paga ao BNDES. Estima-se, com alarde, que o calote internacional custe aos cofres nacionais cerca de R$1,5 bilhão.

Notícia de ontem no portal G1 diz que a empresa responsável pela concessão do Aeroporto de Viracopos, em Campinas/SP, entrou com um pedido de recuperação judicial. A empresa tem dívidas de quase R$3 bilhões, mais da metade com o BNDES. Ou seja, um provável calote de R$1,5 bilhão, em apenas um aeroporto, que teve obras de modernização financiadas com recursos públicos para na sequência ser transferido para a iniciativa privada (ainda no Governo Dilma, é bom enfatizar). Não vi uma linha de protestos seja na imprensa, seja nas redes sociais, contra esse possível calote. Aparentemente a indignação só aparece quando a gente não gosta do caloteiro.

Carioca, rubro-negro e suburbano, embora more na Zona Sul na última década.

Um comentário em “O calote que é ruim só quando a gente não gosta do caloteiro

  • 16 de maio de 2018 em 16:58
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    Bom texto! Também pode fazer uma relação com as “privatizações” aqui no Brasil, onde boa parte do investimento continua com o governo, quanto a isso também um silêncio total.

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