Um futuro senador?

O mandato de senador no Brasil é de oito anos. Um período grande, ao longo do qual é comum que o titular se ausente do mandato, seja por ter sido eleito ou nomeado para outro cargo, morte ou cassação. Desta forma, um número significativo de suplentes se transforma em senadores, sem terem recebido, pessoalmente, um único voto.

Cada senador é eleito em uma chapa registrada com dois suplentes, primeiro e segundo. Em geral essas vagas são utilizadas para acomodação partidária das coligações majoritárias nos estados. Mas também não é incomum que uma das vagas seja destinada a algum empresário influente que banque parte dos recursos financeiros da campanha.  Com o senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), campeão de votos nas últimas eleições no Rio de Janeiro, não foi diferente.

Seu primeiro suplente é o empresário Paulo Marinho, carioca de 66 anos. Marinho é daqueles empresários cujo foco não é necessariamente a produção, mas o “empreender”. O suplente é eclético. Já investiu em estaleiro (o Verolme, em Angra dos Reis) e já foi dono de jornal (o Jornal do Brasil, na virada do século). Em ambas as aventuras, teve ao seu lado o então amigo Nelson Tanure, envolvido em disputas com o banqueiro Daniel Dantas nos anos 90 e que tinha próximo de si o jornalista Ricardo Boechat, atualmente âncora da rádio Band News e da TV Bandeirantes. Suas peripécias resultaram na demissão do então colunista do jornal “O Globo” em 2001. Poucos anos antes, Marinho havia trabalhado no Opportunity, banco de Dantas. As parcerias com Tanure resultaram em separação litigiosa, em processo no qual Marinho perdeu na Justiça.

O ecletismo que revela na vida empresarial, Marinho revela também na política. Próximo a José Dirceu a ponto de cabalar votos de deputados fluminense para impedir a cassação na Câmara do recém-demitido ministro de Lula em 2005, o empresário acabou se tornando figurava chave na eleição que levaria Jair Bolsonaro ao poder 13 anos depois. Diversos programas eleitorais e vídeos de campanha para as redes sociais foram gravados em sua casa, no Jardim Botânico. No mesmo local foi realizada a primeira reunião de transição, após as eleições. Curiosamente esta casa não consta da declaração de bens que o bem sucedido empresário apresentou à Justiça Eleitoral. Após mais de três décadas circulando pelo jet set carioca e nacional, o agora suplente de senador declarou ter apenas 700 mil reais em bens. Cerca de 10% do movimentado pelo motorista do titular de sua chapa, nos três anos anteriores.

No próximo dia 1º de fevereiro, Flávio Bolsonaro será empossado em mandato de senador da República que se estende até 31 de janeiro de 2027. Qualquer motivo que o impeça de seguir no mandato, transformará o eclético Marinho, amplamente desconhecido do eleitorado, em senador pelo Estado do Rio de Janeiro. Este cenário não parece tão distante no momento em que um sacrifício de grande proporção parece ser necessário para estancar a sangria. “Se por acaso ele errou, e isso for provado, eu lamento como pai, mas ele terá que pagar o preço por essas ações que não podemos aceitar”, disse o pai-presidente.

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