A mídia brasileira como sócia da barbárie

Meus amigos riem da minha fixação pela necessidade de se regulamentar os meios de comunicação no Brasil. É uma zombaria todas as vezes em que falo da Lei de Meios. “Olha ele falando da Lei de Meios de novo”, costumam dizer, apontando o dedo, com sorriso no rosto.

Considero uma fixação justa. No Brasil, a mídia corporativa, integrante da grande burguesia nacional, é um setor com muita influência em nossa eterna tradição colonial. Ao contrário dos avanços conquistados em alguns vizinhos latino-americanos e em países europeus com níveis de desenvolvimento humano aceitáveis, por aqui, a regulamentação dos meios, fundamental para fortalecer a democracia e garantir a pluralidade de conteúdo, é propositalmente adjetivada como censura.

Truques de uma elite econômica predatória, mesquinha e escravocrata, manipuladora dos fatos e dos destinos do país. Que se dedica há décadas às Relações Públicas e à Publicidade. E que por isso se esqueceu como se faz Jornalismo.

“Fugiu Goulart e a democracia está sendo restabelecida”. Capa d’O Globo em 02/04/1964 – Reprodução

Historicamente, são muitos os casos de falsificação da realidade promovidos por esses grupos. Citemos alguns: da oposição que levou Vargas ao suicídio, ao medo do comunismo e o abono da ditadura civil-empresarial-militar. Do Escândalo Proconsult ao silêncio inicial na cobertura das Diretas Já, chegando à edição do Jornal Nacional posterior ao debate Lula vs Collor, no segundo turno das eleições de 1989. Episódios contados em detalhes no documentário Beyond Citizen Kane, de 1993, dirigido pelo inglês Simon Hartog e exibido na TV pública britânica Channel 4.

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São estelionatos diários. Que em alguns momentos causam pequenos impactos, e em outros, hecatombes. O último antes deste que estamos presenciando, a tentativa de desqualificação do trabalho jornalístico realizado pelo site The Intercept Brasil, foi, sem dúvida, a consolidação desta aberração sociopolítica chamada Jair Bolsonaro.

Pois é à perspectiva do papel histórico da grande mídia nas décadas de relativização do risco que esta figura representava a uma democracia mambembe, que constatamos o caos em que o país vive atualmente. Os editoriais pesarosos e as críticas hipócritas de jornais como Estadão e O Globo não apagarão as falsas simetrias que nos entregaram a uma farândola de sociopatas que incentiva o uso de armas de fogo e a barafunda nas estradas, em um país recordista de assassinatos e acidentes de trânsito. Que discute o Horário de Verão, as tomadas de três pinos e a sexualidade alheia, enquanto quase 14 milhões de desempregados padecem com conflitos sociais gravíssimos à antessala.

Ao povo cabe não cair novamente neste conto do vigário, de madalenas arrependidas. Não pode mais acreditar nestes “erramos“. A conivência cínica desta moribunda imprensa deve ser paga no futuro. Não com as fortunas em repasses públicos que ela sempre recebeu para levar o país à ignorância e à bancarrota moral, mas com a devida responsabilização pelos tempos de barbárie, a exigência de sua regulamentação e o apoio aos meios alternativos que se disponham a revelar o país com a seriedade e a credibilidade que ele merece.

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